O Itaú Cultural inaugura sua série de exposições do ano com um dos principais nomes da história da dança no Brasil, Angel Vianna. Bailarina, coreógrafa e pesquisadora do movimento, Angel realiza desde a década de 1950 uma profunda investigação voltada para o corpo e o seu deslocamento no espaço. A Ocupação Angel Vianna – que abre no dia 28 de fevereiro, com visitação até 29 de abril – revela momentos importantes dessa carreira. A convite do Centro de Memória Itaú Cultural, Jussara Miller, bailarina, coreógrafa e professora doutora, escreve sobre a escola Vianna de pensamento de corpo e seus três pesquisadores: Angel, Klauss e Rainer.

 

Memórias do corpo: a tríade Vianna de mestres brasileiros da dança

Jussara Miller

 

A relação entre mestre e aprendiz é bastante presente na formação em dança e nas artes em geral. Nesse sentido, ao falar de mestres da dança no Brasil não dá para deixar de olhar para a tríade Vianna: Angel, Klauss e o filho Rainer. Os ensinamentos dos três estão cada vez mais implicados nas ações de diversas gerações de pesquisadores do corpo, artistas da cena, educadores e profissionais da saúde, dentro e fora das universidades.

A trajetória do casal Vianna – desde Minas Gerais, passando pela Bahia, até o Rio de Janeiro e São Paulo – delineia a história da dança no Brasil. Em meados do século XX, ambos iniciaram uma pesquisa artístico-pedagógica revolucionária que questionou padrões enrijecidos do ensino do balé clássico. Trouxeram, ainda, uma abordagem somática para a pesquisa do corpo em movimento que foi se constituindo e se transformando historicamente nos processos da dança moderna e da dança contemporânea no país. Ampliaram, também, pioneiramente, as suas ações para a cena teatral, inaugurando, na década de 1970, a função de preparação corporal, ao pesquisar, já naquela época, o corpo entre a dança e o teatro.

Desde a década de 1950, pois, apresentaram um pensamento de trabalho corporal atual, na medida em que trouxeram um entendimento processual do corpo em investigação e criação, a partir do referencial somático. A unidade corpomente, a autonomia, o refinamento da percepção tornaram-se elementos centrais nessa perspectiva dos Vianna, ao fundamentar a pesquisa corporal num estado de atenção direcionada para a realização de qualquer movimento, seja do corpo cênico, seja do corpo pesquisador de si, influenciando diversas áreas de conhecimento, de modo a colaborar, inclusive, para uma qualidade de vida do corpo cotidiano.

A partir de tais princípios de pesquisa, o filho do casal, Rainer Vianna, em parceria com sua esposa, Neide Neves, dedicou-se posteriormente à sistematização do trabalho do pai, como um desdobramento e um reconhecimento da pesquisa, nomeando-a "técnica Klauss Vianna". Essa sistematização culminou em um curso de formação na Escola de Dança Klauss Vianna (1992-1995), fundada por Rainer e parceiros. “Rainer, como uma resultante vetorial de duas atitudes (‘o quê’ da dança, em Klauss, e o ‘por quê’, em Angel), lidou com o ‘como’, buscando a sistematização dos saberes dispersos”, conforme disse Helena Katz (ESCOLA ANGEL VIANNA, 2013). Essa sistematização se tornou uma grande contribuição para a continuidade e o aprofundamento da pesquisa, colaborando, inclusive, para que as próximas gerações tivessem acesso aos ensinamentos de Klauss e Rainer – que, infelizmente, partiram em 1992 e 1995, respectivamente.

Angel deu continuidade às pesquisas, enfrentando com toda a sua força e coragem os acontecimentos que abalaram a família Vianna. A sua sede de criar, de fazer e de renovar, com vigor, delicadeza e perseverança, no trabalho diário com a dança – pedagógica e artisticamente –, na sua Escola e Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, veio preencher essa lacuna deixada por ambos no mundo da dança. Além de acolher, encorajar e iluminar a todos que se juntam a ela na empreitada de fazer dança neste país, Angel demonstra uma maestria admirável de atrair, aglutinar e incluir, com respeito às diferenças de realidades, possibilidades e escolhas de cada um ao trabalhar a expressão do corpo em movimento.

Olhar para a tríade Vianna de mestres brasileiros da dança é deixar vir à tona as memórias do corpo, tão provocadas nas abordagens corporais promovidas pela técnica desses pesquisadores, ao trabalharem as sensorialidades e a processualidade do corpo em contínua investigação na sala de aula e fora dela, num diálogo constante entre o interno e o entorno. As memórias que emergem do corpo a partir da prática Vianna acabam reverberando e contribuindo para o fortalecimento do seu entorno artístico, de modo a se enredarem na memória da dança no Brasil.

Escola Vianna

A escolha da denominação “escola Vianna”, no que diz respeito a um escopo de princípios sobre o corpo, partiu, por um lado, de minha necessidade de discernir as diferenças de trajetória de cada um dos mestres, Angel, Klauss e Rainer; e, por outro lado, da importância também de reconhecer os desdobramentos dessa pesquisa desenvolvidos por outros pesquisadores que se dedicam a esse trabalho a partir de princípios em comum. Desse modo, ao abrir o leque para as singularidades de cada pesquisador e as particularidades de cada pesquisa, a escola Vianna desdobra-se em pluralidades, aglutinando em torno de uma perspectiva comum as peculiaridades dos seus estudiosos.

O reconhecimento de uma escola Vianna afina-se com as ideias do filósofo italiano Luigi Pareyson, cujo entendimento de escola se refere à reverberação das atuações de determinada linhagem de artistas pesquisadores nas gerações seguintes, por meio de um conteúdo inevitável de ações herdadas e assimiladas. Ele afirma que o fazer, enquanto se faz, inventa o modo de fazer. O filósofo se refere à formação do artista e enfatiza que a relação entre mestre e aluno acontece não apenas por meio de uma assimilação teórica, mas principalmente a partir de um fazer.

Esse processo de contaminação por meio do fazer é inerente à escola Vianna, já que a pesquisa nasceu da prática corporal do casal de bailarinos e foi sendo transmitida, na prática, a outros bailarinos pesquisadores, revelando a sua eficácia ao longo de décadas de constante processo; ou seja, o conhecimento foi sendo construído ao se fazer. Trata-se de um saber continuado e em transformação: “Formar-se através do acolhimento e do prolongamento da lição alheia e diferenciar-se do mestre e dos companheiros precisamente no ato de continuar o primeiro e de assemelhar-se aos segundos” (PAREYSON, 1997, p. 144).

Os princípios artístico-pedagógicos dos Vianna prevalecem hoje no século XXI como um caminho que se reatualiza e nutre novas pesquisas – e, dessa maneira, também se alimenta do estudo e da investigação em diversos trabalhos de pesquisadores engajados na escola Vianna de pensamento de corpo, num processo continuado de pesquisa. A mestra Angel Vianna afirma: “Existem desdobramentos porque existem relações. Se você me conheceu, conheceu o Klauss, o Rainer, o seu aluno conheceu você, há uma sintonia de encontros, energeticamente falando. [...] e depois os desdobramentos acontecem em consequência” (VIANNA apud MILLER, 2012, p. 32). Nessa inevitável memória do corpo, o fluxo de aprendizagens e reverberações simplesmente acontece.

Anestesia e estesia

Estudos demonstram que a memória corporal não é um acúmulo de informações do que ocorreu no passado, mas sim um processo que se dá no presente e que se atualiza constantemente em relação ao ambiente. A pesquisadora Neide Neves, a partir do biólogo Gerald Edelman, aponta: “Compreender como a consciência se relaciona com os aspectos inconscientes pode explicar o fato de que, ao se executar movimentos, percebe-se que emergem sensações, imagens, memórias, que vão realimentar o movimento” (NEVES, 2008, p. 77).

Um dos princípios da escola Vianna é a escuta do corpo, um refinamento da percepção, um reconhecer-se em troca com o ambiente e, a partir desse autoconhecimento, se disponibilizar para o movimento. Nessa abordagem corporal dos Vianna, há um imbricamento entre os campos da arte, da educação e da saúde, tendo como foco o reconhecimento da dança de cada um e das possibilidades de se relacionar com a força da gravidade, com uma atenção direcionada ao movimento durante o próprio movimento. É um estudo do corpo que dança e de qualquer corpo que quer dançar.

O educador João Francisco Duarte Jr. (2006) fala da estesia – que diz mais de nossa sensibilidade geral, de nossa prontidão para se relacionar com o ambiente – e da anestesia, a negação do sensível, a impossibilidade ou a incapacidade de sentir. A prática Vianna provoca a estesia, o corpo sensível, trabalhando o direcionamento da atenção para amplificar o estado de presença pouco a pouco, com sensibilidade, com escuta de si e do ambiente. Distancia-se da anestesia do movimento mecânico, desenvolvendo, assim, a capacidade do corpo sensível para perceber e lidar com os estímulos que o afetam e contaminam, com a atenção voltada para os processos do corpo que dança. Busca-se, na pedagogia dos Vianna, uma constante provocação do corpo sensível à estesia do movimento, para alijar a anestesia à qual a vida sedentária nos convida.

Angel Vianna diz que “há perguntas que não têm respostas” e que devemos sempre lançar as perguntas ao corpo, porque “o verdadeiro filósofo é o corpo”. Afirma com a sua própria dança – que se confunde com a sua própria vida – que “gente é como nuvem, sempre se transforma”. Embalados por essas provocações da mestra, sigamos em movimento, presentes e abertos às transformações. Angel dança a vida; dancemos com ela, como nuvens. E com alegria!

 

Referências bibliográficas

 

DUARTE JR., João Francisco. O sentido dos sentidos – a educação (do) sensível. 4. ed. Curitiba: Criar, 2006.

ESCOLA ANGEL VIANNA. Sobre Rainer Vianna. 2013. Disponível em: <http://escolaangelvianna.locaweb.com.br/blog/?p=437>. Acesso em: 9 fev. 2018.

MILLER, Jussara. Qual é o corpo que dança? Dança e educação somática para adultos e crianças. São Paulo: Summus, 2012.

NEVES, Neide. Klauss Vianna: estudos para uma dramaturgia corporal. São Paulo: Cortez, 2008.

PAREYSON, Luigi. Os problemas da estética. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

 

Jussara Miller é bailarina, coreógrafa e professora doutora em artes pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É docente do curso de especialização em técnica Klauss Vianna na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e do Salão do Movimento, em Campinas. É autora dos livros A Escuta do Corpo: Sistematização da Técnica Klauss Vianna e Qual É o Corpo que Dança? Dança e Educação Somática para Adultos e Crianças, ambos pela Editora Summus.

 

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