por Zema Ribeiro

Camapu é uma “planta herbácea do gênero Physalis, cujos frutos agridoces eram vendidos pelas ruas de São Luís, Maranhão, em grandes cofos de pindoba”, informa o texto de apresentação no encarte de Camapu (2018), segundo disco do compositor Cesar Teixeira.

O artista revolve o cofo poético da memória para repescar as músicas, “quase todas inéditas (exceto Boi da Lua e Aves de Rapina) e produzidas nos anos 1970 e 1980”. É um mergulho profundo na sonoridade inovadora, à época, da qual ficou conhecida apenas a ponta do iceberg, com as hoje bastante populares gravações de Papete para composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe em Bandeira de Aço (1978), graças aos esforços do pesquisador Marcus Pereira.

Agregada em torno do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), fundado em 1972, essa turma foi responsável por uma revolução na música popular produzida no Maranhão, tendo sido aqueles registros os primeiros a incorporar elementos da cultura popular (bumba meu boi, tambor de crioula, tambor de mina etc.) em uma música tida como moderna ou urbana.

Mas é claro que aquelas nove faixas não eram toda a produção do grupo – de Cesar, Papete registrou Boi da Lua (que finalmente ganha registro do autor, após 40 anos de seu lançamento), Bandeira de Aço (que emprestou o título ao conjunto) e Flor do Mal (estas duas registradas por Cesar em seu disco anterior, o de estreia Shopping Brazil, de 2004).

Escoltado por banda base formada por Israel Dantas (violão), Rui Mário (sanfona, piano e direção musical), João Neto (flauta e piccolo) e Wanderson Silva (percussão), Cesar Teixeira (voz e arranjos) registra a memória da época em que as músicas foram compostas, preservando os arranjos originais.

O disco não soa datado. É dançante e faz pensar. O coco-título, que abre o disco, preserva a memória dos pregoeiros, ao lembrar as várias alcunhas da fruta: “Juá-de-capote, tomate-capucho,/ erva-noiva, saco-de-bode,/ bucho-de-rã, mata-fome./ Camapu é bom de nome,/ é da roça e quem não come/ não sabe o que é bombom”. Destaque para as inusitadas intervenções do violoncelo de Jorlielson Lima.

É um disco com cheiro de Nordeste e clima rural. A toada nordestina Aves de Rapina evoca com rara beleza poética a Guerrilha do Araguaia (1967-1974) – soa profético em tempos de ameaça de nova intervenção militar. O compositor passeia entre diversos sotaques de bumba meu boi: zabumba em Boi de Medonho, matraca em Toada de Passarinho (parceria com seu pai, o saudoso Bibi Silva), e orquestra no consagrado Boi da Lua.

O cantor e compositor Cesar Teixeira | foto: Aniceto Neto

A festa continua com ares forrozeiros: o xote Juçara se vale de metáforas para exaltar a beleza feminina, com referências indígenas e a heróis e heroínas de esquerda – Guajajaras, Guajás, Dandara, Violeta Parra e Victor Jara. Baiãozinho nos lembra que apesar de tudo é preciso festejar: “Quem nunca dançou um baião/ não pode saber se funciona/ o esqueleto humano à luz do lampião”, adverte a letra, que diverte. Forró do Corta-Jaca, outro baião, mescla referências que passam pelo choro (Corta-Jaca é título de conhecida composição da pioneira Chiquinha Gonzaga), pela música dos repentistas, pelo cinema mudo e pelas lendas que povoam o imaginário do brasileiro, sobretudo do maranhense. “Sou um violeiro cego/ do cinema mudo/ que já viu de tudo/ na escuridão,/ extraterrestre fazer furo/ sem ter faca/ no Forró do Corta-Jaca,/ dançando baião” e “Vi a mula sem cabeça/ de botina preta/ fazer pirueta/ dentro do salão./ Quando tem água de alambique/ ela emburaca/ no Forró do Corta-Jaca, dançando baião”, dizem trechos da letra.

A modinha Lua do Mangue, emoldurada apenas pelos violões de seis cordas (Israel Dantas), piano (Rui Mário) e violoncelo (Jorlielson Lima), canta o cotidiano de zonas portuárias, palco habitual de paixões, farras e brigas homéricas. A Ladainha de Alcântara encerra o disco em clima de oração, lembrando o sofrimento das populações quilombolas do lugar após a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara.

Em Shopping Brazil, Cesar Teixeira reverenciava “voduns” como os saudosos Antonio Vieira, Dona Elza, Dona Teté e Mestre Felipe, mestres da cultura popular. Em Camapu, realiza um diálogo intergeracional, ao reverenciar seu pai, o compositor Bibi Silva (cuja voz é ouvida antecedendo a parceria Toada de Passarinho, numa gravação em fita cassete de 1972), e a filha, que como toda criança nascida no Maranhão depois de 1978 foi acalentada por Boi da Lua – a voz de Júlia Andresa é ouvida em gravação de celular, cantando a toada aos 4 anos de idade.

Não bastasse a qualidade musical e poética, Camapu vem embalado em belo projeto gráfico de Ton Bezerra, cuja capa relembra a espécie de flor que guarda o fruto-título. Cofo profundo de atividade artística iniciada ainda em fins da década de 1960, em festivais estudantis de música, Cesar Teixeira já anuncia para breve o terceiro disco, dedicado à sua verve sambista. Ele lança Camapu em show no próximo dia 18 de abril (quarta-feira), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro, São Luís, Maranhão), com participação especial de diversos intérpretes de sua vasta obra – Claudio Lima, Célia Maria, Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), Flávia Bittencourt, Lena Machado, Mairla Oliveira e Rosa Reis. Os ingressos podem ser trocados por um quilo de alimento não perecível na bilheteria do teatro.

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