por Amanda Rigamonti

“Eram vinte e cinco homens empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma, num cubículo onde mal caberiam oito pessoas. Eram vinte e cinco homens. Eram vinte e cinco homens, entre uma porta e ferro, e úmidas e frias paredes. Eram vinte e cinco homens espremidos, empilhados, esmagados de corpo e alma, num cubículo onde mal caberiam oito pessoas. Eram vinte e cinco homens espremidos, empilhados, esmagados de corpo e alma, mais o desespero, o tédio, a desesperança e o tenebroso ócio, numa imunda cela onde mal caberiam oito pessoas. Eram vinte e cinco homens colocados no imundo cubículo para morrer.”

Assim começa Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos, obra escrita por Plínio Marcos em 1977 e que dá nome ao espetáculo da turma 66 da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/USP), dirigido por Rogério Tarifa. Além do já citado conto, que narra uma rebelião ocorrida em uma cadeia em Osasco (SP) nos anos 1970, a peça foi construída com base em mais dois textos de Marcos: Barrela (1958) e A Mancha Roxa (1988), que tratam de situações dos cárceres masculino e feminino, respectivamente.

>>> Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos fica em cartaz no Itaú Cultural de 23 a 25 de fevereiro.

Tarifa conta que já pensava em trabalhar a partir de textos de Plínio Marcos, mas os levantes em diferentes presídios do Brasil no começo de 2017 foram essenciais para sua escolha. “Está na hora de tocar nessa ferida, nessa mancha roxa que faz parte da nossa sociedade”, afirma. Na peça, que ele define como um ato-espetáculo-musical, todo o texto de Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos foi musicado em um trabalho que Tarifa fez em conjunto com William Guedes e Jonathan Silva, e diluído em uma dramaturgia que aborda os problemas de nosso sistema carcerário, questiona a conivência da sociedade com essa situação e se aprofunda na história de nosso país e seus 400 anos de escravidão.

Em entrevista, Rogério Tarifa aborda o processo de criação do espetáculo, falando da pesquisa que fez e das pessoas de quem se aproximou para produzir um trabalho delicado e sensível sobre um assunto tão urgente e complexo.

Li que os levantes em presídios no começo de 2017 o motivaram a produzir esse espetáculo. Pode contar um pouco sobre esse processo?
Eu sempre acompanhava notícias em jornais que traziam essa questão do encarceramento e me sensibilizava muito essa ideia de tirar a liberdade de alguém; com os levantes de 2017 eu pensei que estava na hora de tocar nessa ferida, que faz parte da nossa sociedade e pela qual a gente não se responsabiliza, mesmo com coisas muito sérias acontecendo relacionadas à temática e que dizem respeito à sociedade. Mesmo a arte, por serem questões doídas, muitas vezes não tem tido disponibilidade de enfrentar isso de frente, transformar em arte e colocar essas questões no palco.

Então, quando recebi o convite para dirigir o espetáculo, me veio a ideia de trabalhar com uma dramaturgia nacional e eu já estava estudando o texto do Plínio Marcos, e me veio a ideia desse espetáculo como um estudo sobre o encarceramento no Brasil, e [o texto] caiu de forma potente, porque o Plínio Marcos tem algumas obras que tratam dessa questão. Pensei que poderia ser bacana partir dessa dramaturgia e fazer esse estudo com base na obra de um dos maiores dramaturgos brasileiros que têm textos relacionados ao tema.

Como foi o processo de pensar essa peça e construí-la a partir do texto de Plínio Marcos? Como esse texto, de 1977, se relaciona com a situação atual?
A obra do Plínio tem três textos que pegamos sobre o encarceramento: Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos, sobre a rebelião de Osasco, em que os presos morreram queimados no final do conto; Barrela, primeira peça de Marcos, de 1958, que trata do cárcere masculino; e A Mancha Roxa, de 1988, que aborda o cárcere feminino e questões como a aids. A peça tem um elenco de 19 pessoas – metade masculina e metade feminina.

Então a gente partiu desses três textos, fez um estudo sobre as conexões que eles têm com a sociedade hoje e também um estudo sobre a questão do encarceramento. Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos está quase na íntegra e foi todo musicado, com os atores e as atrizes cantando esse conto. Ele é a coluna principal da dramaturgia, o eixo central. Entre esses cantos há uma cena de Barrela, uma a respeito de A Mancha Roxa e uma dramaturgia escrita sobre a atualização com os dias de hoje – traz através do coro e da narração dramatúrgica elementos da questão do encarceramento hoje com dados e pesquisa, fazendo uma reflexão sobre esse assunto. As obras de Plínio Marcos estão superpresentes, e esse nosso estudo do encarceramento veio para propor uma reflexão a respeito dessas obras hoje, dialogar com elas, fazer uma ponte.

Por que a escolha de musicar esse conto?
Eu realizo esse trabalho já faz alguns anos, em vários espetáculos, com William Guedes e Jonathan Silva. E escolhemos musicar Inútil Canto... porque ele é um texto já superpoético e musical, com estrofes que se repetem e têm uma dinâmica em que se percebe a musicalidade, então iniciamos esse processo musicando esse conto, o que culminou em 40 minutos de canto no total.

Como foi a pesquisa para falar da complexidade da situação carcerária no Brasil?
Além da pesquisa artística, fizemos um estudo sobre a questão do encarceramento. O Plínio coloca [no título do conto que dá nome à peça] grande parte da população carcerária como “anjos caídos”. Nosso texto de abertura se dá em uma sociedade em que existe uma onda de pensamento conservador e fala sobre o que é encenar um espetáculo em que parte dos encarcerados são anjos caídos.

Plínio Marcos é importante porque não fugia dessa temática, estava do lado dessas pessoas e dessa questão social, transitava nesse meio e escrevia com propriedade grande, e nessa pesquisa a gente percebeu que a questão está ligada aos 400 anos de escravidão que temos no Brasil – e nós esquecemos que isso não foi resolvido na nossa sociedade. Assim, grande parte de quem está na cadeia são jovens negros da periferia que estão sendo presos de maneira superprecipitada e com pouca idade, sem a possibilidade de conseguir saídas. Esta é uma questão grave com a qual não conseguimos lidar como sociedade: a maioria dos jovens negros pobres é presa por causa de pequenos tráficos – e nem foi julgada.

Quais são os outros temas abordados na peça?
A questão do cárcere feminino é importante e é um debate que vem crescendo, o da mulher que não é tratada como deveria. Até um tempo atrás havia presidiárias que davam à luz algemadas, coisas sérias que acontecem e vários direitos que não são respeitados. O texto do Plínio aborda ainda a gente como cidadão contribuinte – que contribui com impostos –, então qual é a nossa responsabilidade sobre isso? O tempo inteiro faz uma reflexão sobre nós e o que nos cabe.

O Brasil tem uma das populações carcerárias que mais crescem no mundo e é um dos países que mais investem em encarceramento – e no espetáculo fazemos também uma reflexão sobre isso, sobre como esse sistema não funciona, porque não recupera, e as pessoas se tornam seres piores.

Colocamos diferentes reflexões, além de dados sobre encarceramento, textos filosóficos sobre a liberdade, a questão do Estado e sua responsabilidade perante tudo isso... O trabalho é um estudo, uma reflexão a respeito de todas essas questões. Nesse processo nós conversamos com muitas pessoas: advogados de direitos humanos, movimentos sociais das periferias. A peça tem a participação de uma egressa que faz uma fala contando a sua história e canta duas músicas, a Ndu Siba, cantora sul-africana – que conhecemos porque uma professora da EAD, Carmina Juarez, realiza um trabalho muito profundo de aulas de canto e psicanálise dentro do presídio feminino do Carandiru. O grupo se chama Mulheres Livres. A Ndu Siba participa do espetáculo com um depoimento e canta duas músicas.

Tivemos também um diálogo com o Mães da Leste, grupo de mães que perderam seus filhos na periferia, porque vivemos um verdadeiro genocídio de jovens pobres e negros. Conversar com uma dessas mães foi importante para o processo.

Qual foi a maior dificuldade que você encontrou nessa montagem?
A maior dificuldade foi tratar de uma temática tão doída, entender que eu mesmo faço parte disso tudo e conseguir construir essa obra num momento histórico do nosso país, em que as coisas estão acirradas, o pensamento de ódio está instaurado na sociedade e o pensamento conservador muito aflorado. Então, em um tempo histórico assim, trazer uma reflexão sobre uma parcela enorme que não tem seus direitos reconhecidos e que acaba sendo exterminada e encarcerada não é simples. É preciso haver muita reflexão e sensibilidade para não ficar uma coisa de bem/mal e certo/errado; as questões estão muito mais enraizadas na sociedade.

Para encerrar, você pode falar sobre o preparo corporal feito com o elenco?‌
Foi superbacana, porque juntou a direção musical e a preparação de canto do William Guedes, diretor musical e maestro, com o Jonathan Silva, compositor, a Isabel Setti, que é professora da EAD e faz o trabalho da fala e da apropriação dessa poesia e desse texto com os atores, e a Marilda Alface, bailarina, atriz e parceira minha, que tem sua história ligada aos primeiros espetáculos de butô no Brasil.

A Marilda faz um trabalho que ela chama de “caminhadas”, desenvolvido com outras temáticas e que foi forte porque eu achava que a gente tinha de trazer profundidade para a peça. É uma temática dura, mas não adiantava fazer um espetáculo duro; achei que fazia mais sentido trabalhar em algo visceral, sem estereotipar ou trazer a raiva, mas sim profundidade e escuta, coisa de que hoje a gente precisa mais: escutar e ter tempo para refletir sobre as coisas. Então, juntar o canto a essas questões poéticas e às caminhadas foi algo muito forte para que todos entrássemos em um estado de poesia, reflexão e escuta.

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