por Heloísa Iaconis

Em uma conversa com um cachorro, Ricardo Azevedo explica ao bicho e a todos: para deixar marcas por onde passa, o autor escreve e faz desenhos. É a sua forma de assinalar um terreno próprio, abocanhar lugares, memórias, sensações. O traço duplo é a gênese desse artista, que, entre letras e imagens, publicou diversos títulos, alguns deles ganhadores do Prêmio Jabuti, como Dezenove Poemas Desengonçados (1998), A Outra Enciclopédia Canina (1998) e Fragosas Brenhas do Mataréu (2013).

Nascido na capital paulista em 1949, Ricardo José Duff Azevedo formou-se bacharel em comunicação visual pela Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e doutor em letras pela Universidade de São Paulo (USP). Na seara acadêmica, elaborou a tese Abençoado e Danado do Samba – um Estudo sobre o Discurso Popular, publicada pela Edusp e vencedora do Prêmio Jabuti na classe Teoria e Crítica Literária em 2014.

Ricardo Azevedo | foto: Lorena Duff

Com uma obra que preza pela pluralidade de vozes e perspectivas, Ricardo é o destaque do Cantinho da Leitura em agosto. Durante o mês, aos fins de semana, pequenos leitores conheceram o Leão Adamastor, Gaspar, Maria Gomes, o marinheiro rasgado, Araújo (aquele apaixonado por Ophelia), o homem do sótão e tantas criaturas mais, todos personagens do homenageado. Confira a entrevista que o inventor concedeu ao Itaú Cultural, bate-papo em que são abordados, entre outros temas, a relevância do ler e as motivações para o ofício da escrita.
 

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Em entrevista para o Jornal Cândido em 2011, você recorda o seu primeiro contato com poemas de Carlos Drummond de Andrade (por meio de discos nos quais poetas declamavam versos próprios). Foi esse o seu primeiro contato com a literatura em geral? Qual sentimento essa passagem, hoje, causa em você? 
Não foi o primeiro contato, mas foi muito importante. No caso desse disco de Drummond, que meus pais tinham em casa (creio que produzido pela gravadora Festa), eram principalmente três poemas ditos pela voz do próprio poeta: “O Caso do Vestido”, “E Agora, José?” e “A Morte do Leiteiro”. Cansei de ouvir esses poemas. Para mim, era como escutar histórias, mas histórias diferentes, complexas, intrigantes, com ritmos inesperados e um palavreado interessante, nada a ver com os livros para crianças que tínhamos em casa. Tenho certeza de que eu, com meus 9 anos, não conseguiria ler esses textos. Mas ouvir, sim! Creio que a razão é simples: são poemas narrativos que utilizam a linguagem do cotidiano. Hoje, lembrando dessa experiência, não consigo deixar de questionar essa ideia tão disseminada de que seja possível e natural escrever para tal e tal faixa de idade. Acho que, por sorte, as coisas são um pouco mais complicadas do que isso.

Para você, o que é literatura? 
Não é fácil responder a essa pergunta. Imagino que a literatura seja a arte feita com palavras. Ou seja, ela pertence a uma frondosa árvore chamada arte, assim como o teatro e as artes plásticas, entre outras. E não creio que exista uma literatura. Existem várias e várias literaturas, galhos e mais galhos dessa imensa árvore cujo chão são as culturas e seus artistas. Fora isso, a meu ver, as literaturas quase sempre tratam de assuntos que não podem ser ensinados – mas, sim, apenas fruídos e compartilhados. São assuntos banais e espantosos: as paixões humanas; a busca do autoconhecimento e da identidade; a efemeridade e a morte (o tempo sempre passa, e por certo um dia morreremos); as injustiças do mundo; o despotismo; as lutas entre o velho (a tradição) e o novo (a inovação); sentimentos humanos como a solidariedade, a cobiça, a humilhação, a vaidade e a revolta; as contradições e as ambiguidades humanas; e por aí afora. Outra coisa: as literaturas, para ser literatura, sempre tratam desses temas por meio da ficção e das experimentações com a linguagem. Vale dizer que a poesia faz parte dessa árvore, embora quase sempre tenha seus próprios galhos (sem trocadilho).

Você faz livros para crianças e jovens? Quero dizer: você, ao escrever, pensa de modo específico nesse público leitor?
Como já disse, essa coisa de dividir a literatura por faixa etária é complicada. Veja, qualquer leitor em que eu pense, seja ele adulto, jovem ou criança, é um leitor imaginado por mim – portanto, é parte de mim, é um reflexo do que eu sou e do que imagino. Fora isso, a igualdade entre pessoas da mesma idade é uma simplificação racionalista ou um mito mercadológico, nada mais que isso. É claro que existem adultos, jovens e crianças, mas acreditar que eles possam formar grupos homogêneos de pessoas, embora seja prático em termos comerciais, é, creio, uma redução e um equívoco. Pessoas têm idiossincrasias, experiências pessoais, pertencem a grupos sociais, têm culturas, crenças, vivem em tais e tais lugares etc. Mesmo irmãos filhos dos mesmos pais e criados na mesma casa são pessoas por vezes completamente diferentes. Um leitor imaginário é tudo o que um escritor pode ter, e é a partir daí que ele trabalha. Eu, pelo menos, penso assim.

Sensibilidade tem idade?
Não!

O Livro das Casas, desenho feito com aquarela e lápis | ilustração: Ricardo Azevedo

Em sua opinião, o que é uma pessoa leitora de fato?
Costumo dizer que leitora é aquela pessoa que sabe utilizar livros em benefício próprio. Todos os tipos de livro: literatura de ficção, poesia, ciência, filosofia, religião, história, didático, técnico, entretenimento etc.

Como nascem as boas histórias em você?
No meu caso, parece que cada livro nasce de um jeito e tenho que descobrir como devo escrevê-lo. É sempre e sempre um aprendizado. Agora, ele nasce porque algo em mim precisa se expressar: ideias, energias, sentimentos, fantasias, sei lá.

O hábito da leitura só se transmite com amor pela leitura?
Para qualquer criança, ter contato com um adulto apaixonado pela leitura certamente é uma mão na roda. Mas duvido que seja a única maneira de uma pessoa aprender a usar livros em benefício próprio. As pessoas vão que vão, inventam seus caminhos e, se tiverem chance, vão longe. Para isso, a leitura pode ajudar e muito.

A ilustração, para você, é um texto? 
Não tenho dúvida que sim.

O que vem primeiro: o texto escrito ou a ilustração? De uma ilustração feita já surgiu um conto ou um poema, por exemplo? 
No meu trabalho, sempre o texto vem antes, com pouquíssimas exceções. Agora, quando estou escrevendo um texto que deverá ser ilustrado, surgem imagens na minha cabeça e vou anotando. A maioria delas é ruim e óbvia. Só depois que o texto está concluído, parece que me liberto dele e, aí sim, começam a vir ideias e imagens capazes de enriquecê-lo e de dialogar com o que foi escrito.

O que o encanta na cultura popular? E, em particular, em contos vindos da oralidade?
Tudo me encanta e muito! A cultura popular tende a falar muito mais do ponto de vista do “nós” do que do ponto de vista do “eu”. Como basicamente ela é informal, o aprendizado se dá por meio da oralidade, por meio da interação social, e não por meio de livros e compêndios. O pescador aprende a pescar pescando e vendo como pescam os pescadores mais velhos. E o violeiro escutando outros violeiros tocar. Por outro lado, mesmo quando escrevemos, podemos adotar um modo que equivale a escrever como quem escreve para ser lido. Disso resulta certo tipo de texto, que pode ser mais abstrato, pode recorrer a sintaxes não usuais, pode usar vocabulários eruditos, enfim, muitas vezes demanda releitura e interpretação. Mas também podemos escrever mais ou menos como quem fala em um contato face a face. A tendência desse segundo texto é utilizar o vocabulário público, ser mais claro, conciso e direto, e recorrer a fórmulas (frases feitas, ditados etc.) tendo em vista ser compreensível e compartilhável. É um assunto imenso. Fiz um estudo – Abençoado e Danado do Samba – um Estudo sobre o Discurso Popular, publicado pela Edusp em 2013 – que trata desse tema.

Há algum assunto que não possa ser dito para uma criança?
Conheço uma versão de “Branca de Neve”, recolhida em Portugal por Ana de Castro Osório, na virada do século XIX para o XX, que conta a história de uma princesa que não queria se casar. Seu pai propõe que ela se case com o príncipe que trouxesse a prenda mais linda. Um deles traz um espelho falante, que afirma ser ela a mais linda mulher do reino. Ela se casa com o tal príncipe e tem uma filha. Anos depois, a filha cresce, o espelho diz que a menina é agora a mulher mais linda do reino, e a princesa, sua mãe, manda matá-la. Poderia citar “Maria Gomes”, que precisa se disfarçar de homem para sobreviver. Ou “João e Maria”, abandonados no mato pelos pais. A vida é complexa e a literatura é uma forma de falar da vida, mesmo. A questão é como ou em que tom falar. Isso vai determinar se o texto é acessível à criança ou não.

A sua carreira é grande e consistente. Após tantos anos, o que o motiva a continuar a escrever?
Gosto de inventar histórias e de imaginar situações que não aconteceram, mas poderiam ter acontecido. Além disso, como disse, algo em mim precisa ser colocado para fora, seja ideias, angústias, revoltas ou observações das coisas que vejo ao meu redor. Escrever, para mim, é um modo de me organizar internamente e também de me comunicar com as pessoas.

A literatura, em sua visão, melhora o ser humano em alguma medida?
Para Richard Rorty (1931-2007), grande filósofo norte-americano, a literatura e a poesia, assim como a filosofia, são formas de “redescrever” a vida e o mundo. Em suma, neste caso, o escritor anda insatisfeito com o que vê ou consigo mesmo. Ao criar seu trabalho, parte para uma redescrição de si mesmo e/ou do mundo. Vale notar que a metáfora – recurso fundamental da literatura e da arte – nada mais é do que uma redescrição. Segundo Rorty, desde a infância recebemos “descrições” do que é o mundo e de quem somos nós, feitas pelos pais, pela família, pela escola, pela cultura, pela sociedade etc. Em geral, pelo menos em parte, acreditamos nelas. Quando adultos, podemos sentir vontade de mudar, de estabelecer uma nova visão, de fazer, enfim, uma redescrição de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Não se trata de fuga ou escapismo. Trata-se de redescrições que busquem uma reflexão sobre a vida ou aproximar a gente da gente mesmo e a gente do mundo. Nesse sentido, sim, talvez a literatura possa contribuir para aprimorar a qualidade de nossas buscas e, portanto, de nossa vida.

 

 

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