obra: Bonecas Quebradas
selecionado: Bonecas Quebradas Produções Artísticas Ltda

Idealizado por Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz, o projeto surgiu do desejo de falar da imagem da boneca quebrada e da violência contra o corpo. Para iniciar a pesquisa, elas se basearam na teoria do corpo roto – da doutora e pesquisadora mexicana Ileana Diéguez –, que fala da violência a que o corpo é submetido, especialmente quando assassinado. Com isso descobriram a Isla de las Muñecas (Ilha das Bonecas), no México, local muito procurado por turistas curiosos. O nome da ilha vem de diferentes versões de uma lenda sobre o aparecimento de bonecas despedaçadas em suas margens após a morte de uma menina por afogamento – um morador passou a recolhê-las e a pendurá-las nas árvores do local, onde se encontram até hoje.

O projeto começou a tomar forma quando as artistas, ao lado da diretora Verônica Fabrini, da atriz Isa Kopelman, do dramaturgo João das Neves e de sua equipe, foram ao México para se aproximar da realidade que permeava a pesquisa. Ao chegar lá, e em conversas com Ileana e outros artistas, se depararam com uma realidade muito mais assustadora: o assassinato de mulheres em Ciudad Juárez, que faz fronteira com os Estados Unidos. Conhecida por ser a cidade com o maior número de mortes de mulheres no mundo, Juárez esconde uma triste história de feminicídio como afirmação de poder e demarcação de território. Apesar das denúncias sobre a situação do local, os crimes nunca são investigados ou julgados, pois aqueles que matam de forma premeditada são pessoas que detêm o poder.

A partir do conhecimento dessa realidade em que o corpo da mulher não tem valor – que parece tão distante, mas ainda assim é muito próxima à do Brasil –, o grupo decidiu abordar a importante questão do feminicídio, traçando um paralelo entre os dois países e chamando a atenção para essa triste situação.

Como resultado da pesquisa, a companhia realizou um evento com duração de cinco dias no Itaú Cultural. A programação incluiu dois minicursos com Ileana Diéguez e dois encontros de debate (um intitulado Feminicídio no México e no Brasil: Patriarcado, Capitalismo e Globalização e o outro Artivismo em Cena – um Cenário de Corpos Quebrados), além da exibição da peça Bonecas Quebradas durante quatro dias.

Para saber mais sobre a pesquisa e a construção do projeto, leia a seguir uma entrevista com a diretora Verônica Fabrini, a atriz Isa Kopelman e as idealizadoras e atrizes Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz.


Vocês podem falar um pouco da ida ao México e de todo o processo de criação até chegarem ao espetáculo apresentado no Itaú Cultural?

Verônica: Já existia um desejo de trabalhar com a ideia mais geral da violência contra a mulher e de se perguntar sobre os diversos tipos de violência, desde os mais culturais e massificantes – que dizem que você deve ser desta forma ou daquela – até os mais concretos, como a violência social.

Isa: Nós começamos a pesquisa aqui no Brasil e em conversas com Ileana Diéguez, autora do livro Corpo Roto, no qual analisa os traumas do despedaçamento [do corpo], especialmente em relação às mulheres, mas ainda assim nós não pensávamos que a história fosse tão contundente.

Lígia: Nós chegamos ao México com esse quebra-cabeça e, na nossa primeira imersão, a Ileana começou a trazer materiais, muitos deles sobre as mulheres mortas de Juárez. A proposta inicial do processo era investir nessas imagens/sintomas e ver o que essa imagem/sintoma da boneca quebrada trazia para nós.

Verônica: Eu acho bacana como essas peças separadas foram pouco a pouco construindo um link. Por exemplo, eu conhecia a Isa da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e ela tem um trabalho com as ideias do Tadeusz Kantor – tinha acabado de traduzir o Teatro da Morte. Então eu pensei que seria uma pessoa legal para chamarmos para se juntar ao trabalho, até porque ela também já havia trabalhado com o João das Neves, nosso dramaturgo. Mas nós não imaginávamos que essas peças juntas fossem ter esse resultado e conduzir a gente para uma realidade mais pontual, concreta e tão universal e reveladora.

Como a questão do feminicídio é abordada no espetáculo? Como ele é construído?

Verônica: Nessa estadia no México, juntamos uma série de materiais, que resultaram em três fatias. A primeira delas é uma fatia sensível, da experiência das atrizes ao entrar em contato com o material – como era a sensação de perceber que aqueles corpos não valiam nada? Principalmente porque viemos do teatro ou da dança, áreas em que há essa ideia do corpo como algo vital, glorioso. Essa primeira parte mostra como é entrar em contato com uma realidade na qual o corpo é despedaçado, destroçado, distorcido, inglório... E não vale nada.

Outra fatia do trabalho é toda a parte documental, que aborda como trazer o assunto para a cena e como tratar sensivelmente os documentos – imagens e entrevistas. E a última fatia são os textos, o olhar do João das Neves como dramaturgo. Acho que os textos que ele produziu não são nem só documento nem só algo sensível.

Lígia: Como já estava na proposta inicial do projeto, a dramaturgia acabou virando um espaço de colaboração. O que aconteceu foi que ele propôs alguns textos e nós propusemos uma série de outros textos a partir do registro documental.

O que é o corpo roto e por que ele foi tão importante para o trabalho?

Verônica: O corpo rotoé usado para marcar seu território. No caso dos feminicídios, a descrição do que fazem com os corpos das mulheres é muito bárbara: elas não são encontradas onde morreram, mas são expostas em determinados lugares estratégicos com o corpo destroçado, despedaçado, que pode estar sem cabeça ou sem um seio e com o outro arrancado a mordidas, com marcas de desenhos feitos com faca nas costas, queimaduras, costelas quebradas… Então, não é simplesmente matar.

Luciana: Nós assistimos a um seminário da Ileana em 2011, no qual ela trazia essa questão da violência, principalmente na América Latina – foco do trabalho dela –, se perguntando como as artes estão tratando essa violência generalizada. Ela fala do matar, do rematar e do contramatar. O corpo é despedaçado, queimado, jogado no ácido; ele é picotado e desaparece, ou seja, não é só o sofrimento de quem morre, mas também o de todos os que ficam, porque desaparecem com a humanidade e com a dignidade daquela pessoa, e isso afeta toda a sociedade.

A parte documental entra nessa questão?

Luciana: Sim, porque o estuprador estupra e mata para que a vítima não o denuncie. No caso do que vimos no projeto, é muito mais do que isso, pois a intenção já está no ato. Ele vai sequestrar, torturar, estuprar, maltratar aquele corpo de todas as maneiras e então matar. Isso já está predeterminado. Em alguns casos, esconde-se o corpo em um frigorífico para, em outro momento, fazê-los aparecer em determinados lugares da cidade. Então o corpo roto é também querer dizer alguma coisa com isso, na disputa de territórios entre grupos de criminosos distintos.

Vêronica: Quando nós lemos a respeito, vemos esse tipo de situação por causa da própria impunidade – os casos nunca são investigados, porque envolvem o Exército, a polícia, os políticos, os empresários, ou seja, envolvem todos os poderosos, que nunca passam por investigação. Então, nesse mar de impunidade, há a ideia de que “podemos matar mulher porque ninguém vai nos prender”.


Vocês sabem a origem disso?

Verônica: Esse problema aumentou terrivelmente quando foi assinado o Nafta [Acordo de Livre Comércio da América do Norte] entre o México e os Estados Unidos, que permitiu que as grandes montadoras transnacionais estabelecessem suas fábricas na fronteira. Com isso, passou-se a utilizar mão de obra muito barata, o que se juntou a toda uma questão de trabalho análogo ao escravo, com corpos substituíveis. E utiliza-se muita mão de obra feminina, porque é mais barata também. Nos manuais de criminologia, elas são chamadas de “vítimas de baixo risco”, ou seja, você pode matar porque ninguém vai investigar e não tem problema.

Lígia: Há ainda a questão de quanto a mulher, por séculos, foi entendida como uma posse do homem. E, por essas mulheres serem tidas como de menos-valia, os homens se sentem no direito de dispor delas com mais facilidade, até porque existe uma questão socioeconômica e de gênero nessa história toda. É também interessante observar o quanto a gente se assusta com essa situação, mas, quando olhamos os dados do Brasil, percebemos que nossa relação com o feminicídio também é assustadora, com 50 mil mulheres mortas por ano.

Luciana: Mas o porquê [dessas mortes] é uma grande questão. O que sabemos é isto: a mulher é muito desvalorizada nas sociedades latino-americanas, e a mulher pobre tem ainda esse componente de se tornar uma vítima de baixo risco.

Isa: Sem contar que no México existe uma cultura machista muito forte também. Nenhum motivo justifica.

Verônica: Isso tudo leva à questão do patriarcado, quer ele tome uma forma de preconceito em termos de comportamento, quer ele tome essa característica econômica do capitalismo transnacional.

Vocês tiveram essa ideia a partir do feminismo ou ele se juntou depois?

Luciana: Nosso projeto surgiu [do conhecimento] de uma ilha no México chamada Isla de las Muñecas, onde há bonecas velhas penduradas em árvores numa propriedade, e isso está ligado à lenda sobre uma menina que morreu afogada naquelas águas. Desde então, o caseiro da propriedade encontra bonecas nos canais que margeiam a ilha. Ele começou a recolher essas bonecas e a fazer uma instalação a céu aberto. Então eu poderia dizer que a gente partiu do feminino e chegamos a esse ativismo feminista, porque nós só descobrimos a história de Ciudad Juárez na viagem ao México.

Verônica: Em relação ao feminismo, desde 2010 eu estava fazendo um trabalho sobre violência e, da minha parte, foi isso que despertou muito meu interesse pelo trabalho das meninas. E eu faço um espetáculo que se chama Mulheres Violentas, sobre a ideia de como essa violência fica no corpo como uma sombra que não a abandona – é uma coisa que vai acompanhá-la sempre.

Isa: Da minha parte, eu sempre estive perto de movimentos feministas, mas nunca havia participado deles. Por coincidência, a peça em que trabalhei há muitos anos com o João das Neves era uma obra feminista chamada Mural Mulher, e foi um trabalho que me marcou muito, porque era de tom épico, jornalístico – e isso imprimiu algo em mim. Depois, eu comecei a me aproximar do assunto da violência e fiquei muito interessada quando elas me convidaram para fazer este trabalho. Fiquei intrigada ao pensar em como era possível falar desse tipo de trauma. Isso também porque sou judia, tenho a marca da memória de uma guerra e, atualmente, de uma guerra que está acontecendo com outro povo – os palestinos – e na qual os judeus são os vilões. Eu acho que, no mínimo, tenho de enfrentar essas questões e essas discussões.

Lígia: Eu acho que nossa bandeira como grupo não é uma bandeira feminista, mas são temas que estão aí, muito fortes, e que mobilizam. Então, quando você vê que no Brasil a cada hora e meia uma mulher é assassinada por questão de gênero, não tem como não falar disso – independentemente de você ser intimamente ligada ao movimento de defesa das mulheres ou não. Essa é uma discussão muito séria e nos diz respeito o tempo todo.

Eu e a Luciana somos parceiras de trabalho há muitos anos, com a produtora Bonecas Quebradas, e todos os trabalhos que fizemos são ligados ao feminino: a peça O Chá, que aborda o feminino e as mulheres numa esfera pessoal, conforme elas lidam com suas frustrações e suas relações; em seguida As Polacas, com direção e dramaturgia de João das Neves, sobre as prostitutas polacas no Brasil; e este nosso projeto atual, Bonecas Quebradas, que investiga primeiro a imagem da boneca quebrada como um sintoma e depois o que ele revela nesse processo de busca.

Então, o projeto foi como um canal para trazer um tema e, por acaso, todas nós, mobilizadas por essas emoções, sensações e perguntas, nos encontramos nesse lugar para falar dessas questões. É claro que elas se encontram com muitos tópicos feministas, mas não partem somente da bandeira feminista.

Luciana: Afinal, somos todas mulheres, como você pode reparar.