Por Jullyanna Salles

A definição de quadrinhos como “histórias pictóricas justapostas em sequências deliberadas” foi dada pelo desenhista e teórico norte-americano Scott McCloud, uma das personalidades mais respeitadas na área. As histórias em quadrinhos, no entanto, têm uma trajetória marcada por movimentos independentes, como os zines, o que dificulta bastante a sua limitação dentro de um conceito. Além do mais, a arte nunca se mostrou muito suscetível a restrições. A Série Postal, um projeto contemplado pelo Rumos 2015-2016, veio mostrar que HQs podem enfrentar desafios de narrativa e de suporte e ainda sair do convencional.

O jornalista Ramon Vitral é o responsável pelo projeto que distribuirá, gratuitamente, postais cuja ilustração é uma história com começo, meio e fim, criada por quadrinistas de diferentes estados do país. O início da trajetória de Ramon com as HQs é semelhante ao de muitas crianças brasileiras: começou lendo A Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. Com o tempo foi conhecendo outros autores até que, na faculdade, ganhou bolsas de estudo para pesquisas com essa temática.

Ramon Vitral é jornalista e idealizador do Série PostalSérie Postal
Ramon Vitral é jornalista e idealizador do Série Postal

 

O interesse por histórias que experimentavam novas linguagens o levou a se aproximar do universo das produções independentes. “Acho que o que tem de mais interessante hoje são pessoas provando que você pode fazer qualquer coisa com HQ, tanto quanto outras artes como cinema e literatura. As possibilidades são muito vastas e foram muito pouco exploradas”, conta. Aos poucos os quadrinhos foram também se tornando uma de suas especialidades no jornalismo, de modo que o interesse em trabalhar com eles se tornou ainda maior.

Dessa vontade nasceu a Série Postal. “Nunca quis fazer quadrinhos, queria, de alguma forma, me envolver na produção deles, na parte de edição. Então pensei em formatos baratos e que, ainda assim, permitissem um exercício com a linguagem”, explica Ramon. Foi em Londres que o jornalista viu os bookplates, impressões de trechos de páginas de livros com ilustrações, geralmente autografados, e teve então a ideia dos cartões-postais.

O espaço limitado se tornou interessante na medida em que desafiaria os artistas a produzir uma narrativa completa em poucos quadros. O tamanho e a distribuição gratuita foram fatores importantes para o jornalista, que tem em mente ampliar o contato de um público que não pertence ao nicho dos quadrinhos e que não despenderia dinheiro ou muito tempo para entrar nesse universo. Agora, com o projeto já fechado, Ramon também pensa no contraponto que o formato traz ao mercado editorial atual: “Hoje são muito cultuadas as edições de luxo, encadernadas e com capa dura. Esse projeto é o contrário disso, é o simples. E são, talvez, os trabalhos mais autorais possíveis, sabe?”, diz.

Os artistas participantes do projeto também foram cuidadosamente escolhidos. Depois de listar muitos nomes, Ramon fez um recorte: “queria pessoas novas, com poucas publicações e que não entregassem algo convencional”. Além do cuidado de garantir um número igual entre homens e mulheres, o jornalista procurou trazer nomes de diversos estados brasileiros.

Metade dos artistas terá o nome divulgado, os outros seis serão mantidos em segredo até a data de publicação do postal, que ocorrerá mensalmente, com início em 28 de janeiro. A primeira publicação terá a contribuição de Pedro Franz, um dos poucos com trabalhos publicados. Além dele, Felipe Portugal, Taís Koshino, Bianca Pinheiro, Pedro Cobiaco e Manzanna integram o time de quadrinistas.

Série Postal; Pedro Franz
O primeiro postal é criação do quadrinista Pedro Franz

 

 

O lançamento do primeiro postal, no dia 28 de janeiro, será realizado na Ugra, localizada na Rua Augusta, 1371, em São Paulo. Locais de distribuição dos postais em outros estados, entrevistas com os artistas e conteúdos relacionados à Série Postal serão postados no site e na fanpage do projeto.

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