por Heloísa Iaconis

Em 1888, a literatura brasileira ganhou o enredo sobre Sérgio, garoto matriculado pelo pai em um colégio interno, ambiente com regras severas: esta é a base da trama de O Ateneu, de Raul Pompeia, clássico que suscita debates em torno de um modelo específico de escola. Uma escola do século XIX e aristocrática. É verdade que também José Lins do Rego e Martha Antiero, por exemplo, dedicaram páginas ao universo colegial – no entanto, nenhuma delas se aproxima do que o professor Rodrigo Ciríaco encontra na instituição onde trabalha. Uma escola do século XXI e pública. E não só: trata-se do segundo pior ginásio da capital paulista e o oitavo pior do estado de São Paulo. Dos problemas de infiltração e elétricos à falta de ânimo dos estudantes, Rodrigo encontrou de um tudo em 15 anos de atuação.
 

O professor Rodrigo Ciríaco cercado por estudantes e livros | foto: Maurício Pisani

Colecionador de causos, todos resultantes de seu ofício, o educador ouvia frequentemente: você precisa contar esses relatos para que mais pessoas saibam o que se passa em sala. De muito escutar, ele se colocou a escrever e, em 2008, publicou Te Pego Lá Fora, uma reunião de contos baseados em suas experiências como docente. Após a feitura de outros livros, agora, selecionado pela edição 2017-2018 do Rumos Itaú Cultural, prepara o romance Tá com Medo por que Veio?, projeto que, ainda com um título provisório, tem uma narrativa bem definida: trata-se da vida de um professor que, na infância, morou na rua e, graças à educação, passou a vislumbrar um futuro para si e para os outros. Apesar, é claro, dos reveses.
 

Obras de Rodrigo Ciríaco | foto: Guilherme Santana

O que é e o que não é ficção?

Essas duas perguntas, que podem enganar até um leitor atento, entremeiam-se no decorrer das linhas de Rodrigo. A vontade de percorrer um campo extenso, o romance, surge já quando o autor produzia escritos anteriores: há o desejo de esmiuçar mais e mais. Gênero escolhido, junta-se a ele um adendo não menos importante: autoficção. Romance de autoficção, portanto. A partir desse nome-sobrenome, explicam-se os questionamentos: quais trechos ocorreram de fato, quais foram inventados? “As minhas vivências são o material para a minha criação literária. Gosto bastante das obras do Ferréz, com quem me identifico nesse sentido. A situação exposta é surreal. Será que isso aconteceu mesmo? Pois posso afirmar que as partes mais absurdas são as verídicas”, diz o artista.
 

Escola onde Rodrigo leciona | foto: Rodrigo Ciríaco

E propriedade para esse testemunho o escritor tem de sobra: no segundo ano da faculdade de história, em 2001, tornou-se estagiário em uma escola na região da Mooca, bairro paulistano. “Eu era tão novo e me falavam coisas como ‘toma cuidado!’ e ‘aqui só existe animal dentro da jaula’ ”, recorda. No início de 2006, assumiu o cargo de efetivo em um colégio na zona leste da cidade – a tal instituição com índices espantosos. “Uma indisciplina enorme, um cotidiano desgastante. Sentia-me, volta e meia, impotente e frustrado. Em vários momentos, pensei em desistir. E é aí que se manifestava a literatura: por meio dela, recarreguei as energias, consegui outra visão. A literatura é o meu contrapeso e me faz continuar o exercício de educador”, pondera Rodrigo.

A ferramenta que equilibra o docente ganha, enfim, o apoio do programa Rumos: depois de se inscrever em três edições diferentes do edital, a proposta foi contemplada. “Além da contribuição financeira, assumo o compromisso de ter uma organização maior, um cronograma”, avalia.

Força, coragem e estudo

Eis os três elementos que Rodrigo julga imprescindíveis para aqueles que sonham em lecionar: força, coragem e estudo. “Há dificuldades financeiras, estruturais, pedagógicas. Mas acredito que vale a pena: crianças e jovens precisam dessa referência, de alguém que esteja implicado no processo de desenvolvimento deles”, pondera o professor, que não abre mão de uma postura crítica dentro e fora das salas de aula. Mostrar que, apesar dos desafios, é possível se encantar com a carreira – um passo rumo ao reconhecimento de um profissional que anda desvalorizado, com parca remuneração. Seja com lousa e giz, seja com capa e miolo, Rodrigo Ciríaco deixa explícito um recado: a peça principal da educação é o humano. O que ensina, o que aprende, o que aprende, o que ensina.
 

Uma selfie do educador Rodrigo com seus alunos | foto: Rodrigo Ciríaco
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