Panmela Castro, professora há 18 anos, é idealizadora e fundadora da Rede Nami. Dando continuidade à reflexão sobre gêneros, a grafiteira fala sobre seu projeto que promove o direito das mulheres por meio das artes urbanas. Na conversa, Panmela comenta as ações de valorização das mulheres no universo do grafite, a atuação em diversas comunidades cariocas e como é levar a questão do gênero para os muros da cidade.

(foto: acervo pessoal)

 

Você pode falar sobre o surgimento da Nami e os principais desafios de atuação junto à comunidade Tavares Bastos?

Ainda muito nova, fui vítima de violência doméstica, e o grafite surgiu em minha vida como uma maneira de me ressocializar depois de uma separação que me tornou depressiva e isolada. Após conquistar visibilidade como grafiteira, percebi que poderia usar esta força para que outras moças não passassem pela mesma experiência negativa que eu havia vivenciado. Então, dois anos após a aprovação da Lei Maria da Penha, iniciei oficinas em que o grafite era ferramenta de comunicação para a promoção e o conhecimento da lei e, principalmente, para pensar a posição da mulher na sociedade. A metodologia das oficinas foi considerada inovadora e eu recebi minha primeira homenagem internacional na categoria de direitos humanos.

Com o crescimento da demanda e a percepção de que o trabalho funcionava de uma forma muito efetiva e positiva, convidei minhas amigas para fundar a Nami; estas chamaram outras amigas, e foi assim que fundamos essa rede que hoje possui mais de 500 participantes e que já dialogou com mais de cinco mil mulheres pelo Brasil. Na Rede Nami nós acreditamos que homens e mulheres são iguais em seus direitos, e é a partir dessa ideia que são construídas as políticas e os projetos da ONG. Propomos uma busca pela superação das desigualdades de gênero que levam, apenas no Brasil, à morte de uma mulher vítima de violência doméstica a cada meia hora. Exigimos respeito aos direitos das mulheres sobre suas vidas e o rompimento do legado histórico de opressão por gênero no plano pessoal, econômico, político e social.

O escritório da Nami fica na comunidade Tavares Bastos, que possui um grande museu de street art (arte de rua) em construção, criado pela rede. Mas se limita aí a atenção especial com o local, já que a nossa proposta é visitar e dialogar com mulheres de diferentes comunidades.

(foto: acervo pessoal)

 

Existe diálogo entre a Rede Nami e as ações de valorização das mulheres e políticas culturais (secretarias de cultura, centros culturais, Secretaria de Políticas para as Mulheres) desenvolvidas na comunidade? Como ele acontece?

Apesar do desejo de atuar com certa independência, desde a criação da organização fomos abraçadas e fortalecidas pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, tanto em nível federal quanto em estadual e municipal. Formalmente, para os tipos de projetos que realizamos é necessário, em sua maioria, fortalecer parcerias com a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, por exemplo. Isso porque inserimos no calendário das escolas do Estado as oficinas do projeto Graffiti pelo Fim da Violência Doméstica e o Centro Integrado de Atenção à Mulher (Ciam), que encaminha a esses espaços profissionais especialistas em violência doméstica que sejam qualificadas para facilitar os debates nessas oficinas.

Nosso foco principal é uma transformação íntima, que acontece com o diálogo de mulher para mulher. Mas, de toda forma, algumas vezes é necessário ir além. Neste ano enviamos para o Marcelo Dughettu, presidente do Instituto Eixo Rio – plataforma de articulação criada pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro para potencializar a cena urbana da cidade –, e para a Ana Rocha, secretária na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Rio de Janeiro (SPM-Rio), uma carta abordando a necessidade de diálogo entre os dois espaços. Isso porque o Instituto Eixo Rio faz um trabalho relevante com os grafiteiros da cidade, no entanto, sem qualquer tipo de política de gênero, o que se traduz em ações opressoras e não inclusivas em relação às artistas mulheres. Um caso em que isso fica evidente é o da inauguração da primeira galeria municipal de arte urbana, em Botafogo, onde também está localizada a sede do Instituto Eixo Rio. Na estreia do espaço não foi convidada nenhuma artista mulher. Então, na carta, pedimos ainda que sejam trazidos à tona os processos curatoriais e as prestações de contas – e, semanas depois, continuamos sem receber um retorno.

O grafite é o meio que vocês utilizam como manifestação artística e como posicionamento contra o machismo (incluindo a conscientização da Lei Maria da Penha e o Disque 180, entre outros). Você pode comentar sobre o processo de inclusão e formação das mulheres dentro do universo do grafite e se existe alguma ação de desenvolvimento dessas artistas?

Desde o surgimento da Nami houve a preocupação de inserir mais mulheres nessa cena que é tão machista. Os processos tradicionais de entrada na arte urbana acabam excluindo a participação das mulheres, então, tratamos de construir espaços em que elas possam dar seus primeiros passos rumo a seu fortalecimento como artista ou arte-educadora. Grande parte das artistas grafiteiras que temos no Rio de Janeiro de alguma forma se formaram ou se fortaleceram a partir dessas políticas internas abordadas pela Nami.

Em 2015, apoiadas pela Fundação Ford, realizamos um curso de formação de seis meses para mulheres negras e habitantes de periferias, que denominamos AfroGrafiteiras. Nos encontros, elas aprenderam e aperfeiçoaram a técnica do grafite e também abordaram a questão do pensamento acerca da arte urbana. Mas, ainda mais importante, essas mulheres receberam noções de empreendedorismo social e economia criativa, discutindo as novas tecnologias de comunicação e informação e o feminismo negro. Ao final da formação, elas expuseram obras criadas especialmente para seus lançamentos com artistas na Galeria Scenarium e no Espaço Cultural Heloneida Studart (Cedim), com apoio da Brazil Foundation, e estagiaram como arte-educadoras em seis oficinas da Nami realizadas em diferentes locais do estado do Rio de Janeiro, como na escola prisional do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase).

(foto: Elisete Maisão)

 

Na pesquisa Percepção da Sociedade sobre Violência e Assassinato de Mulheres, realizada pelo Data Popular junto ao Instituto Patrícia Galvão, 91% consideraram que hoje os assassinatos de mulheres por parceiros, atuais ou não, são mais cruéis em comparação com o passado (confira a pesquisa aqui). Com base em suas percepções, qual é a realidade vivida nas comunidades em que a Rede Nami tem atuado?

A Rede Nami tem atuado em comunidades por toda a cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. Pela minha experiência pessoal nas andanças, e conversando com diversas pessoas, eu acredito que esse dado vem à tona não pelo fato de que hoje a violência se agrava, mas por acreditar que depois da Lei Maria da Penha e de todas as campanhas privadas e públicas sobre o assunto, as mulheres estão denunciando e falando mais sobre o tema. Apesar de ainda ser tabu, hoje a mulher está mais confiante para se expor, pois existe um movimento que não aceita mais a violência contra a mulher e que acredita que falando a respeito ela conseguirá algum tipo de apoio.

Eu percebo essa transformação principalmente nas oficinas em escolas, quando vejo que uma parte considerável da nova geração de homens que está se formando deixa de agredir a mulher. E isso acontece não porque ele tem medo de ser preso, mas porque realmente entende a mulher de outra forma, como um ser autônomo e que precisa ser verdadeiramente respeitado.

A Rede Nami faz algum mapeamento ou registro histórico dos impactos e mudanças nas comunidades por onde desenvolvem oficinas e outras ações?

É importante entender o trabalho da Nami como uma semente plantada no imaginário de cada pessoa participante de uma oficina. Semente essa que cresce conforme a pessoa passa e observa as situações debatidas nos encontros. Cada oficina é realizada apenas uma vez em cada lugar, deixando nele o conhecimento e seguindo para a multiplicação no próximo. Assim, pretendemos levar as ideias para o maior número de pessoas possível dentro de nossa capacidade institucional.

Em 2014, apoiados pelo Instituto Avon, realizamos a pesquisa Geração Maria da Penha: Percepções sobre a Violência Doméstica contra a Mulher, com alunos de 14 a 19 anos de escolas do município e do Estado participantes de nossas oficinas. 

(foto: Clarissa Pivetta)

 

Como foi a criação do mural Diversidade, que aconteceu no evento Semana Global da Cufa (Central Única das Favelas), em Nova York? O que foi apresentado e debatido no evento? (Para mais informações sobre o evento, acesse aqui.)

Você acredita em uma corrente do bem? Ainda muito nova no grafite, fui homenageada em um prêmio nacional muito importante, com grafiteiras da década, e escolhida em uma categoria que era, teoricamente. masculina. A partir desse reconhecimento, eu despontei para o mundo. Esse prêmio era o Hutúz, organizado durante a primeira década do século pela Cufa. Foi lá também que participei de meu primeiro evento importante e ganhei meu primeiro cachê.

A Cufa investe no pobre favelado, naquele que ninguém espera que vá se tornar nada. De onde eu vim, nós crescemos vendo nossos amigos morrer e torcemos para nos manter vivos, o máximo que pensamos em ser é um doutor e passear talvez em um estado diferente. Celso Athayde (fundador da Cufa) sempre foi um espelho para mim e um exemplo de empreendedor, afinal, ele é um cara que morava debaixo de um viaduto e hoje transformou sua casa em um grande espaço de multiplicação de conhecimento.

Em 2015, a Cufa abriu seu primeiro escritório em Nova York e me convidou para participar deste momento de crescimento tão especial. Com tudo isso eu aprendi a pensar no poder da multiplicação, e espero que muitas moças que passem por aqui levem a ideia adiante, como já tenho visto acontecer. Desejo ainda que em alguns anos a Nami possa trilhar o mesmo caminho de crescimento que a Cufa traçou e alcançar cada vez mais mulheres.

Quais você acredita que sejam os principais desafios para uma aplicação mais efetiva de políticas públicas voltadas à questão do machismo e da violência contra a mulher na sociedade brasileira?

A violência de gênero é um problema estrutural, não só de nosso país, mas da sociedade de uma forma geral. A estrutura familiar criada para sustentar o modelo capitalista inseriu a mulher dentro desse processo que acabou a objetificando. Hoje, com alguma autonomia conquistada, trabalhamos pensando na nossa posição no mundo e tentando desconstruir o passado para chegar a um ponto ideal – e também utópico.

Há alguns meses, a filósofa Marcia Tiburi me procurou com a ideia de criar o Partido Feminista Democrático, e essa ideia seguiu com uma formação horizontal, em todo o país, debatendo os melhores meios de se criar um partido político com uma ética feminista e de se fazer isso em um cenário político com um sistema muitas vezes apontado como falido, em que o presidente da Câmara dos Deputados não permite passar nada que tenha a palavra "gênero".

Assim foi criado esse movimento, conhecido como #partidA, que pensa em uma nova forma de se fazer política e de criar políticas. A conclusão a que quero chegar aqui é de que sempre houve outro alguém para pensar o que nós mulheres queríamos. Mas já há algum tempo lideranças femininas têm mostrado que é importante decidirmos por nós mesmas. Com isso, sugiro um pensamento coletivo, uma construção de todas para todas nós.

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