por Encontro com o Espectador – Kil Abreu

As operações de síntese poética para alcançar, através do teatro, questões urgentes da vida parecem mover a diretora Bia Lessa e a equipe de artistas com a qual ela faz o espetáculo Pi – Panorâmica Insana, recém-saído de cartaz no Teatro Novo, em São Paulo. A montagem foi objeto do 22º Encontro com o Espectador, em 29 de agosto, ação idealizada pelo site Teatrojornal – Leituras de Cena. Mediado pela jornalista Maria Eugênia de Menezes, o bate-papo entre Bia, a atriz Cláudia Abreu, críticos, jornalistas e o público presente lotou os 70 lugares da Sala Vermelha do Itaú Cultural.

Relações entre arte e vida pautaram as colocações. Para Bia, tanto a montagem atual quanto a anterior, Grande Sertão: Veredas (2017), “nascem de uma impossibilidade, que é a de ficar calado”. De fato, nas falas de todos e todas, convidados e plateia, sobressaíram a inquietação e o desejo de relacionar os materiais criados e vistos em cena com o comportamento do homem contemporâneo e com as diversas conjunturas do Brasil atual.

A atriz Cláudia Abreu falando sobre Pi – Panorâmica Insana - foto: Guilherme CastoldiA diretora Bia Lessa - foto: Guilherme CastoldiMaria Eugênia de Menezes mediou o bate-papo - foto: Guilherme CastoldiVárias pessoas da plateia já tinham visto a peça - foto: Guilherme Castoldi

 Pi – Panorâmica Insana tem dramaturgia de Jô Bilac, Júlia Spadaccini e André Sant’Anna, costurada a textos de Paul Auster e Kafka. O resultado é uma montagem formalmente fora da ordem se a expectativa for a de uma narrativa tradicional. Assim como a escolha pela representação em um teatro ainda inacabado, a maneira como o espetáculo é contado abraça como princípio expressivo o fragmento e a ideia de algo em trânsito, em plena construção ou desconstrução, a depender do ponto de vista.

Atores em cena de Pi – Panorâmica Insana | foto: João Caldas

A crítica Maria Eugênia chamou a atenção para essas vias complementares: o caos aparente que serve de material para a criação. Cláudia Abreu destacou o fato de que a aparência de caos e de improviso esconde um trabalho meticuloso em cada situação, em cada gesto. Ainda a respeito desse tema, Julia, da plateia, elogiou o que viu como um teatro espontâneo e perguntou de que forma as criadoras chegaram àquele resultado. “A espontaneidade por si não interessa tanto”, disse Bia Lessa. “Interessa mais o que se pode construir a partir dela. Primeiro é o improviso, mas o que nos transforma em pensadores da cena são as escolhas racionais, não é apenas a espontaneidade.”

Vários espectadores disseram ter assistido ao espetáculo mais de uma vez. Entre estes, João, que a certa altura da discussão perguntou se diante de um processo com tantos estímulos houve algum momento de “branco”, de “pane criativa”. Ao que a diretora respondeu: “Não vejo branco; o que havia aqui e ali era a angústia, talvez, de não saber aonde aquilo ia, vai dar”. E Cláudia complementou: “Angústia junto com o desejo de fazer com que as coisas virassem algo potente”.

A dramaturgia aberta parece ter estimulado a plateia a diferentes posições diante da representação, o que envolve não apenas juízos de gosto e considerações pessoais a respeito das questões apresentadas, como também expectativas quanto às formas mais ou menos eficazes, mobilizadoras ou não de empatia em relação ao que subiu à cena. Nesse aspecto há controvérsias. Para a aposentada Anette Fuks, por exemplo, a fragmentação narrativa rendeu o espetáculo ao superficial. Fã de Bernard Shaw, ela reclamou uma dramaturgia mais funda. Ainda sobre isso – as diferentes respostas que a montagem provoca –, a jornalista Ivana Moura perguntou às artistas sobre as reações dos espectadores nas passagens menos afirmativas – como a que trata de Deus –, em que as posições de pensamento parecem “dúbias”. “Para mim, é melhor que seja dúbio”, disse Bia. “Às vezes a plateia responde, às vezes não acontece nada. E tudo bem. Mais importante que a resposta é que estamos todos ali, pensando juntos.”

Nesta edição do Encontro com o Espectador, o pensar junto foi uma qualidade do debate. Chamou atenção o modo não teórico, e sim material – amparado na experiência efetiva da criação e da representação –, com que as artistas convidadas mostraram e discutiram aspectos do trabalho. Talvez por isso as relações buscadas entre a cena e as questões mais urgentes da vida presente, do Brasil presente, tenham alcançado maior evidência. O que se poderia intuir da matéria poética apresentada no espetáculo foi trazido para o primeiro plano da conversa de maneira franca, a partir de determinados pontos de vista, sem que, com isso, a obra se reduzisse a leituras fechadas.

A ação Encontro com o Espectador é promovida pelo Teatrojornal – Leituras de Cena com o apoio do Itaú Cultural, que a abriga sempre no último domingo do mês em sua sede, na Avenida Paulista. Em 26 de agosto o diálogo será em torno do espetáculo Love, Love, Love, com dramaturgia do inglês Mike Bartlett e encenação de Eric Lenate. A conversa com as atrizes convidadas Débora Falabella e Yara de Novaes acontecerá, excepcionalmente, entre 14h e 15h40. O horário do próximo evento foi adaptado por causa da sessão da peça no mesmo dia, às 18h, no Teatro Vivo, na Zona Sul da capital paulista, onde cumpre segunda temporada de 10 de agosto a 16 de setembro.

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