por Fernanda Castello Branco

O cenário mundial não é animador: segundo relatório da Unesco e do Conselho Internacional de Museus (Icom, em inglês), 85 mil museus e centros culturais estão fechados em todo o mundo, e aproximadamente 13% deles podem não retomar suas atividades após a liberação para a reabertura.

Ainda em meio a todas as incertezas trazidas com a pandemia de covid-19, São Paulo (SP) começa a se organizar para o reencontro histórico do público com os institutos de arte e suas exposições, depois de pouco mais de quatro meses de interrupção nas programações. A maior cidade do Brasil, conhecida pela oferta imensa de atividades culturais, tanto pagas quanto gratuitas, terá, provavelmente a partir de setembro, centros culturais de portas abertas, mas em uma realidade totalmente nova.

O Itaú Cultural (IC) definiu que, ao abrir as portas, será para a retomada das duas exposições que estavam em cartaz quando começou o isolamento social e que devem ficar disponíveis até o final de 2020: a Ocupação Rino Levi, inaugurada pouco mais de duas semanas antes de o IC ser fechado para o público, e a exposição com obras de Sandra Cinto, aberta no dia 11 de março. A ideia inicial é que as visitas sejam agendadas on-line, para grupos de cinco a dez pessoas no máximo. O Espaço Olavo Setubal, exposição permanente que reúne obras das coleções Brasiliana Itaú e Itaú Numismática, também poderá ser visitado. Os agendamentos, no entanto, valerão para apenas uma das três mostras, ou seja, o visitante não poderá circular pelo prédio sem a reserva prévia.

A Ocupação Rino Levi , inaugurada pouco mais de duas semanas antes de o Itaú Cultural ser fechado para o público, também estará disponível quando o instituto reabrir (imagem: Anna Carolina Bueno)

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“A pessoa vai ser recebida, conduzida e acompanhada até o final da visita. Entre um grupo e outro, a equipe da limpeza vai fazer toda a higienização dos espaços. Álcool em gel e máscara serão exigências. Vamos medir também a temperatura das pessoas na entrada. Se o visitante estiver com mais de 37,5 graus de temperatura, não vai poder acessar o espaço e vamos recomendar que ele procure atendimento médico”, explica Gilberto Labor, gerente de Infraestrutura e Produção do Itaú Cultural.

Exposição com obras de Sandra Cinto, no Itaú Cultural, terá visitas com agendamento on-line (imagem: Anna Carolina Bueno)

Entre as mudanças nas exposições, os fones de ouvido já serão diferentes. “Os fones eram embutidos. A gente trouxe os plugs para fora e a pessoa vai ter autonomia de plugar seu fone pessoal ou um que ela vai receber na entrada, nos moldes dos fones de avião”, conta Gilberto.

Para quem não conseguir esperar, um drive-thru de exposição foi inaugurado em São Paulo na sexta-feira 17 de julho. Por 40 reais (mais taxas) por carro, com até quatro passageiros cada um, a experiência oferece 18 painéis gigantes, exibindo arte digital, fotografia e pintura. 

Um mundo digital

Com a pandemia, a única alternativa possível foi mergulhar totalmente no mundo digital, e alguns institutos passaram a ter programação on-line, como é o caso do Palco Virtual e do Festival Arte como Respiro, no IC. O Diálogos Itaú Cultural estreou no final de maio e acontece toda quarta-feira. Eduardo Saron, diretor da organização, conversa com dirigentes e agentes de diferentes áreas de expressão e regiões do Brasil sobre desafios da cultura no atual cenário.

O Instituto Moreira Salles (IMS) lançou o projeto #IMSquarentena na primeira semana de abril, com o objetivo de contribuir com reflexões sobre o cenário e sobre a criação artística. No site, também foi criado o espaço #IMSdecasa, com visitas virtuais a exposições, acervos e programações do instituto. Ainda foi lançado o Programa Convida, de incentivo à criação artística. Em sua primeira etapa, participaram mais de 60 artistas e coletivos convidados, com a produção de obras inéditas, comissionadas, publicadas no site da instituição diariamente.

O Sesc Digital é uma plataforma de conteúdo com mais de 10 mil itens, entre shows, espetáculos, seminários, reproduções de obras de arte, publicações, programas do SescTV, álbuns do Selo Sesc, receitas, palestras e bate-papos. Há também o EAD Sesc Digital, que oferece cursos on-line gratuitos.

Além de ter reforçado sua presença nas mídias sociais, especialmente no Instagram (agora com duas postagens diárias), o Masp intensificou a participação da equipe curatorial e dos colaboradores do museu, que passaram a escrever textos autorais sobre lembranças e relatos que envolvem suas atividades. “Migramos para o digital diversas atividades de mediação e programas públicos, como os cursos do Masp Escola, os Diálogos no acervo, palestras e seminários. Por fim, criamos dois programas novos, um de lives com convidados, todas às quintas, e um desafio de desenhos, em que escolhemos toda semana uma obra da coleção para ser desenhada e reinterpretada por nossos seguidores”, conta Tomás Toledo, curador-chefe do museu. 

Acervo em Transformação, do Masp. “Os avanços conquistados durante a pandemia no campo digital devem ser incorporados após a retomada normal das atividades, porém com adaptações”, explica Tomás Toledo, curador-chefe do museu (imagem: Eduardo Ortega)

Inhotim está com cinco exposições virtuais no Google Arts & Culture. A mais recente, aberta em junho, é Resistência, Diversidade e Sabedoria: os Segredos do Jardim Desértico, primeira exposição botânica do instituto na plataforma. Outros conteúdos disponíveis são webséries no canal do YouTube, no Facebook e no Instagram.

Diferentemente dos institutos, abertos o tempo todo até a pandemia, a Bienal de São Paulo sempre apostou no digital como forma de manter viva a mostra que só acontece a cada dois anos, na capital paulista. A aposta atual, desde antes da pandemia, é o Instagram. Em junho, foi lançada digitalmente a publicação educativa da 34a Bienal, o que resultou na implementação de grupos de estudos on-line, conduzidos por mediadores, sobre os conteúdos da publicação, que devem se estender por meses.

Público no exterior

Duas brasileiras morando no exterior, duas formas distintas de lidar com a reabertura dos museus nas cidades onde vivem. Fabia Fuzeti mora em Barcelona, na Espanha, e recentemente visitou a exposição Objetos de Desejo: Surrealismo e Design 1924-2020 , no CaixaForum, acompanhada da esposa.

A brasileira Fabia Fuzeti mora em Barcelona e visitou uma exposição logo que foi possível. “Acredito que, tomando as precauções, o risco é baixo”, conta (imagem: Fabia Fuzeti)

“Estávamos ansiosas para voltar a visitar os espaços culturais e acredito que, tomando as precauções, o risco é baixo”, afirma Fabia, que teve covid-19 e acredita que, por isso, estava mais tranquila. “Como ainda não se sabe com certeza se as pessoas que já se infectaram desenvolvem imunidade prolongada, eu evito encostar em superfícies, tocar portas, corrimões, objetos na lojinha do museu...”, completa.

Entre os cuidados adotados pelos museus na Espanha estão o uso obrigatório de máscara, agendamento prévio para evitar aglomerações, álcool em gel na entrada, barreira de acrílico nos guichês de atendimento e entrada e saída por portas diferentes. Na exposição que visitou, Fabia conta que havia monitores disponíveis para quem quisesse saber mais das obras, já que serviços de audioguias foram dispensados por alguns museus. 

Exposição na CaixaForum, em Barcelona. Entre os cuidados adotados pelos museus na Espanha estão o uso obrigatório de máscara e agendamento prévio para evitar aglomerações (imagem: Fabia Fuzeti)

Já Alexsandra Bentemuller, que mora desde dezembro de 2017 em Chicago, nos Estados Unidos, com o marido e dois filhos ainda na primeira infância, decidiu que só voltará a frequentar espaços culturais fechados quando alguma medicação ou a vacina para a covid-19 estiverem disponíveis. “Adoro muitos museus da cidade, especialmente o Instituto de Arte de Chicago. Eles reabriram no final de junho, mas não tenho urgência em voltar a frequentar. Os ambientes fechados facilitam a transmissão do vírus, e não me sinto confortável para ir e me arriscar”, explica.

A volta

A preparação para a reabertura está bem parecida em várias instituições culturais. Incertezas estão em todas as agendas, além, claro, de uma lista de novos cuidados a ser tomados. Confira, abaixo, o que já foi pensado por algumas delas.

Sesc Avenida Paulista – São Paulo (SP)

Quando volta? Com data ainda a definir, a volta será gradual e faseada.

Programação: ainda não houve definição do calendário e as ações nos meios virtuais continuarão a ser oferecidas nos próximos meses.

Mudanças: possibilidade de agendamento do público, revisão do horário de funcionamento e do projeto expográfico (suportes permitirão espaçamento para facilitar o fluxo e a distância entre o público), bem como a continuidade de ambientes on-line para o desenvolvimento de ações educativas.

Masp – São Paulo (SP)

Quando volta? Data ainda a definir.

Programação: voltará com as duas exposições montadas no museu – Hélio Oiticica: a Dança na Minha Experiência e Trisha Brown: Coreografar a Vida.

Mudanças: “Os avanços conquistados durante a pandemia no campo digital devem ser incorporados após a retomada normal das atividades, porém com adaptações”, explica Tomás Toledo, curador-chefe.

O Masp ainda não tem data para reabrir, mas o público poderá ver as duas exposições montadas no museu – Hélio Oiticica: a Dança na Minha Experiência e Trisha Brown: Coreografar a Vida (imagem: Eduardo Ortega)

Instituto Moreira Salles – Poços de Caldas (MG), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ)

Quando volta? O IMS Poços retorna no dia 15 de agosto; o IMS Paulista, em 1o de setembro; e o IMS Rio, no dia 15 de setembro. “São datas previstas, que podem ser adiadas de acordo com o desenvolvimento do quadro da pandemia nas três cidades”, alerta a equipe de Comunicação do instituto.

Programação:

IMS Poços: reabre com uma nova exposição, dedicada ao trabalho da fotógrafa Maureen Bisilliat.

IMS Paulista: reabre com as exposições que estavam em cartaz, todas com data de término prorrogada. Uma delas, em cartaz desde janeiro, é dedicada ao trabalho do fotógrafo Peter Scheier. A mostra com o trabalho da fotógrafa chilena Paz Errázuriz abriria em 17 de março, dia em que o instituto foi fechado. A terceira exposição, também inaugurada em janeiro, é dedicada ao trabalho de Maureen Bisilliat, cujo acervo está sob a guarda do IMS, assim como o de Peter Scheier.

IMS Rio: reabre com a Ocupação Eduardo Coutinho, montada no Itaú Cultural em 2019 e que estava prevista para abril.

Mudanças: “Todas as exposições que já estavam em cartaz passarão por uma revisão na expografia. Estamos trabalhando na sinalização dos centros culturais e nos protocolos de distanciamento entre pessoas, manutenção de ar-condicionado e regras para visitação, com agendamento, tempo determinado e roteiros de visita”, avisa a equipe de Comunicação do IMS.

34a Bienal

Quando volta? A 34a Bienal acontecerá entre 4 de setembro e 5 de dezembro de 2021, no Pavilhão da Bienal.

Programação: “Estamos trabalhando em uma programação intermediária, que deve se desenvolver em espaços físicos e também em meios digitais, mas ainda não temos as datas de lançamento dessas ações”, diz José Olympio da Veiga Pereira, presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

Mudanças: ainda não há nenhuma definição sobre mudanças no espaço. A organização segue acompanhando as orientações do governo e dos órgãos de saúde. 

Inhotim

Quando volta? Somente quando houver consenso entre as autoridades, especialmente as de saúde.

Mudanças: a equipe técnica está aproveitando o período de fechamento para fazer manutenções maiores em galerias como a Psicoativa, dedicada ao artista pernambucano Tunga. As dinâmicas de reabertura estão sendo definidas semana a semana, com base nas orientações dos órgãos oficiais de saúde e, num momento posterior, dos de turismo.

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