por Heloísa Iaconis

O glamour de um tempo em que artistas trans tinham destaque no cenário teatral e, concomitantemente, um debate acerca da violência sofrida por essa população: eis a dicotomia a partir da qual é construído o espetáculo Quem Tem Medo de Travesti, escrito e dirigido por Silvero Pereira e Jezebel de Carli. O trabalho faz parte do projeto Travestis Itinerantes, iniciativa que possibilita a excursão da peça para além de teatros convencionais: a turnê passa por praças públicas e espaços abertos, em cidades como Belém (PA), Palmas (TO) e Petrolina (PE). Para alcançar essa diversidade de locais, o coletivo As Travestidas, grupo responsável pela empreitada, conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural – e, por esse motivo, em setembro, o espetáculo integrou a programação de O Tempo das Coisas – Mostra Rumos 2017-2018.

Mas não é apenas o palco que é morada da arte de Silvero. Na pele de Lunga, cangaceiro queer do longa Bacurau (2019), o ator explode nas telonas: entre sangue, facão e unhas pintadas, o personagem veste a palavra resistência e se põe na função de líder no combate contra os invasores. Em sua composição, como acontece a cada novo papel, o intérprete carrega, fora o talento próprio, uma bagagem constituída por títulos que são referências para ele. No campo cinematográfico, por exemplo, Silvero destaca cinco filmes, todos brasileiros, que bem conversam com seu trajeto e sua sensibilidade. Conheça (e veja) os escolhidos.

Silvero Pereira | foto: Jerônimo Neto

Central do Brasil (1998)
Indicação nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (para Fernanda Montenegro) no Oscar de 1999: eis duas das conquistas pertencentes à película de Walter Salles. Professora aposentada e ranzinza, Dora, personagem de Fernanda, escreve cartas para pessoas analfabetas na mais famosa estação de trem nacional. Apesar de receber pagamento pelo serviço, a ex-educadora não posta as correspondências, um ciclo de trambique que só é rompido quando ela conhece Josué, menino de 9 anos, órfão de mãe. Em busca pelo seu pai, a criança ganha a companhia de Dora em uma viagem pelo interior nordestino.

“Trata-se de uma bela visão do Nordeste, concebido com uma direção brilhante de Walter Salles e uma atuação memorável de Fernanda Montenegro”, ressalta Silvero. Para ele, a senhora protagonista, que muito se aproveitava dos transeuntes, tem sua humanidade revelada por meio do contato com o garoto. “Acho uma bonita obra sobre afeto e sociedade”, resume.

Cidade de Deus (2002)
“O que faz desse filme algo fundamental são as suas entranhas: personagens saídos diretamente da comunidade e feitos por atores da comunidade”, afirma Silvero. Dirigida por Fernando Meirelles e Kátia Lund, a história é uma adaptação do livro homônimo de Paulo Lins e retrata o crescimento do crime organizado na favela Cidade de Deus. Buscapé é quem apresenta esse cotidiano de aspereza e morte para o espectador: o jovem, que sonha em ser fotógrafo, narra tanto seu percurso quanto os passos dos demais, toda uma gente embrenhada na expressão “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Com quatro indicações no Oscar de 2004, o longa é, segundo Silvero, “um marco na forma de pensar e produzir cinema no Brasil”.

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Aquarius (2016)
Na orla de Boa Viagem, praia do Recife (PE), localiza-se o prédio Aquarius. O terreno desperta o interesse da Construtora Bonfim, empresa que visa levantar, no local, um edifício moderno. Para que o negócio ocorra, porém, a firma precisa adquirir o único apartamento que resta: a residência de Clara, jornalista aposentada, viúva e mãe de três filhos adultos, moradora resistente à especulação imobiliária. A direção fica a cargo de Kleber Mendonça Filho e Sônia Braga dá corpo à protagonista – dupla, aliás, que trabalha com Silvero em Bacurau.

“Com roteiro e direções de arte e de fotografia excepcionais, a obra traz Sônia Braga deslumbrante em um papel que dialoga com a estrutura social em que vivemos. Existem alusões diversas à música brasileira, ao amor, à família, à memória, ao valor do passado enquanto alicerce para o presente”, comenta Silvero. Decidida em sua oposição à construtora e ao que a companhia representa, Clara desmonta estereótipos relacionados a uma mulher de 65 anos e entrega à trama intensidade semelhante à encontrada em canções de Maria Bethânia.

Divinas Divas (2017)
Rogéria, Jane Di Castro, Camille K, Valéria, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios: oito são as homenageadas no documentário de Leandra Leal, artistas trans e travestis que na década de 1970 fizeram sua arte reinar a despeito das carcaças preconceituosas do país. Em razão do filme, as estrelas se reuniram em 2014 para dois shows no Rival, teatro que testemunhou o auge de todas elas. De maneira cuidadosa, Leandra – que desde 2016 administra a casa fundada por seu avô, Américo Leal – revela traços de cada personalidade, das suas paixões aos seus esforços. Na opinião de Silvero, o projeto possui a capacidade de emocionar e também de fazer rir. “É uma grande celebração dessas divas e da importância delas em um processo social de aceitação”, enfatiza o ator.

Estou me Guardando pra Quando o Carnaval Chegar (2019)
“Talvez esse seja o documentário brasileiro que mais me comoveu. A obra é um soco no estômago e uma forte catarse”: é assim que Silvero define o impacto que nele causou o título de Marcelo Gomes. Situado em Toritama, no agreste pernambucano, o enredo finca-se em proprietários de fábricas de jeans, sujeitos que só param a labuta quando o Carnaval finalmente chega. No período festivo, vendem eletrodomésticos e outros pertences e vão para as praias, deleite anual daqueles que se orgulham por serem os próprios patrões – sem, contudo, notarem a espécie de autoprisão em que se inseriram.

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