por Heloísa Iaconis

O mês de outubro em 2018 chega acompanhado de axé e potência: a 42a edição do programa Ocupação Itaú Cultural homenageia o primeiro bloco afro do Brasil – o Ilê Aiyê, fundado em 1974, em Salvador (BA). Muito se engana, no entanto, quem pensa que o tributo se restringe ao espaço expositivo. O mundo negro vindo do Curuzu se faz presente logo na entrada do instituto: a fachada, entre buzinas e faróis da Avenida Paulista, ostenta, agora, um trabalho de Jota Cunha, criador da identidade do conjunto de Mãe Hilda e companhia.

Parte do projeto Arte Urbana (o qual, desde 2017, já contou com os kene dos Huni Kuĩ, com Erica Mizutani e Guilherme Kramer), a intervenção é um abre-alas de toda a mostra. “Com um colorido grande, que chama atenção, temos uma espécie de enorme outdoor dessa cultura negra nacional”, resume Jota. Um convite para que o público entre e se banhe no fascínio do Ilê.

Das forças que não morrem

Diferentemente de cismas lógicas ou leis naturais, há elementos que, apesar do tempo, não perdem o viço. As tramas e as lutas do Ilê Aiyê são assim, resistentes e vivas, vivas como as lembranças de José Antonio Cunha, baiano nascido em 1948. A relação dele com a arte africana surgiu em 1970, data de seus traços inaugurais acerca desse universo. Cinco anos depois, passou a estudar desenho e gravura na Escola de Belas Artes da Bahia. E foi nesse período que ele virou parceiro do bloco, colaboração que durou até 1995. Concomitantemente, Jota participou da Bienal de São Paulo e conquistou reconhecimento no exterior, da Europa aos Estados Unidos.

“Viajei durante 28 anos, como artista visual, como bailarino. Conheci tantos países, abri a minha cabeça. O dia em que vi um Picasso, gritei: 'Les Demoiselles d'Avignon!'. Sempre procurava por museus ou outros lugares onde há arte”, recorda o artista.

União de quatro cores

“No Ilê, fiz uma revolução! Eles não tinham uma direção artística. Era tudo instintivo, um atavismo que estava ali. Faltava alguém para direcionar aquilo. Entrei na hora certa”, afirma Jota. Amparado em seus estudos, elaborou uma obra identitária para o bloco: uma máscara com quatro búzios abertos a formar uma cruz na testa – batizado de perfil azeviche, mineral associado ao barro preto e à pele negra.

O autor pontua, porém, que o termo máscara é uma denominação utilizada no Brasil. “Com certeza, cada etnia, no continente africano, tem o seu próprio nome para esse símbolo”, explica. Objetos ritualísticos significativos, essas expressões reúnem a natureza e o humano, uma transcendência de formas espirituais arraigadas no coletivo. “Transportei arquétipos não conhecidos, da nossa realidade, já que a história brasileira à qual a maioria da população tem acesso é aquela feita pelos conquistadores. Eu me empenhei em mostrar a outra história: construí uma imagem de todos. Não era uma coisa sofisticada, e sim objetiva”, esclarece o artista.

Além das figuras, Jota costurou a harmonia do intento com cores: branco, preto, amarelo e vermelho, que representam, respectivamente, a paz, a pele, a fartura cultural e a beleza, e o sangue derramado nas batalhas pela libertação.

Com uma trajetória voltada para a esfera gráfica, o baiano salienta que a juventude precisa conhecer e preservar o Ilê, fonte de ancestralidade, sabedoria e beleza. “O Ilê Aiyê existe, existe no Brasil e é vivo. Acho de extrema importância que nichos construtivos sejam prestigiados, que a cultura negra seja tratada com igualdade, bem como a indígena e as demais manifestações não hegemônicas”, pondera. E completa: “Se o país tiver essa compreensão sociocultural, irá crescer e se tornar digno de honrar a sua cidadania”.

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Ocupação Ilê Aiyê

Exposição resgata e homenageia trajetória do primeiro bloco afro do Brasil
onde: Itaú Cultural