O teatro dentro de mim

Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) para confrontar a falta de representatividade e dignidade do negro nas artes cênicas nacionais. De 1944 a 1961, a companhia encenou textos estrangeiros de destaque e propiciou a criação de uma dramaturgia própria afro-brasileira.

Também atuou além dos palcos. Promoveu cursos de alfabetização e debates, fez seu próprio jornal, o Quilombo, e ofereceu apoio psicológico para pessoas negras. O TEN levou a luta antirracista à Constituinte de 1946 e influenciou a proposição da Lei Afonso Arinos, primeira legislação voltada a coibir o racismo.

Abdias Nascimento como Othelo, personagem de Shakespeare, no Teatro Fênix, Rio de Janeiro (RJ) | Acervo Ipeafro

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Seção de vídeo

Teatro Experimental do Negro: história e legado

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Cronologia - Teatro Experimental do Negro

1943 – Abdias deixa a prisão depois de advogar em causa própria. Ainda em São Paulo, procura apoio para desenvolver o projeto de um teatro negro e, através do escritor Fernando Góes, encontra-se com Mário de Andrade, que não demonstra entusiasmo pela ideia. Retorna ao Rio de Janeiro, onde começa a trabalhar como bibliotecário temporário do Palácio do Catete. Cria o Teatro Experimental do Negro (TEN).

1945 – O TEN estreia a peça O Imperador Jones, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Junto com intelectuais da antiga Frente Negra Brasileira, Abdias organiza a Convenção Política do Negro Brasileiro, na qual, pronunciando-se sobre o tema O Negro e a Democracia, torna públicas (através do Manifesto da Convenção Nacional do Negro à Nação Brasileira) as razões do seu rompimento com o integralismo e prenuncia a primeira lei antirracismo, tendo como horizonte a sua inclusão na futura Constituição celebrada em 1946.

1946 – Promove junto ao TEN a II Convenção Nacional do Negro, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O evento dá origem ao Manifesto à Nação Brasileira, que irá subsidiar as propostas destinadas à Assembleia Nacional Constituinte, reunida em 1946.

1949 – Em visita ao Brasil, Albert Camus assiste à leitura da peça Calígula, de sua autoria, realizada pelos atores do TEN.

1950 – Junto ao TEN, Abdias organiza o I Congresso do Negro Brasileiro e, como fruto dos debates travados durante o evento, surge a ideia de criar um Museu de Arte Negra, sob a sua curadoria.

1957 – O TEN encena, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o espetáculo Sortilégio – Mistério Negro, peça escrita por Abdias em 1951.

1960 – Participa do filme Cinco Vezes Favela.

1961 – Abdias viaja a Cuba, a convite do Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos, para a celebração do segundo aniversário da Revolução. Na ocasião, expõe fotos do TEN e faz uma conferência na Casa de las Américas e no Departamento de Arte Dramática do Teatro Nacional, dirigido na época por Mirta Aguirre. Reunindo textos escritos por diversos autores para o TEN, Abdias coordena a publicação do livro Dramas para Negros e Prólogo para Brancos.

1962 – Abdias se filia ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Leonel Brizola.

1963 – Viaja novamente a Cuba e conhece o ativista negro Carlos Moore.

1964 – O TEN comemora 20 anos organizando um Curso de Introdução ao Teatro Negro e às Artes Negras. Entre os conferencistas, destacam-se Florestan Fernandes, Grande Otelo, Alceu Amoroso Lima, Thiers Martins Moreira, Raimundo Souza Dantas, Edison Carneiro, Nelson Pereira dos Santos e o próprio Abdias.

1968 – Exposição inaugural do Museu de Arte Negra no MIS do Rio de Janeiro, idealizada por Abdias Nascimento. Orientado por Sebastião Januário, Abdias começa a se dedicar à pintura.

Publica O Negro Revoltado e organiza um seminário e um livro sobre os 80 anos da abolição para a revista Cadernos Brasileiros. Em outubro, chega aos Estados Unidos como bolsista da Fundação Fairfield. Prevista para um mês de duração, o fim da viagem coincide com o decreto do AI-5 e Abdias Nascimento fica impedido de retornar ao Brasil. Exilado, retornará ao país somente em 1981.

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Todos os Filhos de Deus Têm Asas: Ruth de Souza e Abdias Nascimento | Acervo Ipeafro

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Muito mais que um teatro

Sede da UNE no Flamengo, Rio de Janeiro (RJ), 1944: aula de alfabetização e cultura geral para adultos, organizada pelo do TEN e ministrada pelo professor Ironides Rodrigues | Acervo Ipeafro

 

 

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Lista das peças do TEN

Palmares

O Teatro Experimental do Negro existia há alguns meses quando, em dezembro de 1944, fez uma participação especial em uma cena da peça Palmares, da poetisa Stella Leonardos (1923). O elenco da encenação era formado por integrantes do Teatro do Estudante do Brasil (TEB).
O Imperador Jones

Foi vendo a encenação desta peça em Lima, no Peru, com elenco formado por atores brancos com os rostos pintados de preto, que Abdias Nascimento começou a pensar no que viria a ser o Teatro Experimental do Negro. Escrito por Eugene O’Neill (1888-1953), o texto foi encenado na estreia do TEN, em 1945, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com direção de Abdias.

 

Othello

O clássico do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) foi montado como esquete em dezembro de 1946, integrando a programação do Festival do Segundo Aniversário do TEN. Os protagonistas foram Abdias (Othello) e Cacilda Becker (Desdêmona).


O Moleque Sonhador

Também integrando a programação do Festival do Segundo Aniversário do TEN, a peça O Moleque Sonhador, escrita por Eugene O’Neill (1888-1953), teve Abdias no papel principal. Também integraram o elenco as atrizes Ruth de Souza, Marina Gonçalves e Ilena Teixeira. A direção foi de Willy Keller.

 

Todos os Filhos de Deus Têm Asas

Devido ao sucesso da primeira montagem de um texto de Eugene O’Neill (1888-1953), o TEN resolveu apostar em outra peça do autor e, em julho de 1946, estreou Todos os Filhos de Deus Têm Asas, com direção de Aguinaldo Camargo (1918-1952).

 

O Filho Pródigo

Primeiro texto criado especialmente para o TEN, O Filho Pródigo, assinado por Lúcio Cardoso (1913-1968), era uma livre adaptação da parábola bíblica homônima. Foi a primeira peça de dramaturgo brasileiro levada ao palco pelo TEN, tendo sido encenada em dezembro de 1947 (cenários de Santa Rosa e figurino de Nadir de Andrade), maio de 1953 e julho de 1955 (com cenários e figurino de Anízio Medeiros).

 

Recital Castro Alves
Realizado em 31 de março de 1947, no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro, o recital teve direção de Abdias Nascimento, cenografia de Santa Rosa e colaboração musical de Gentil Puget e Abgail Moura. Entre os artistas que se apresentaram, em números variados, estavam Ruth de Souza, Marina Gonçalves, Aguinaldo Camargo e Neusa Paladino.


Terras do Sem Fim

Em agosto de 1947, o TEN encenou Terras do sem Fim, em colaboração com Os Comediantes. Escrita por Jorge Amado (1912-2001), a peça foi adaptada pelo ator Graça Mello (1914-1979) e contou com direção do polonês Zygmunt Turkov (1896-1970) e cenários de Santa Rosa.
Aruanda
Em cartaz de 23 de dezembro de 1948 a 2 de janeiro de 1949, Aruanda, de Joaquim Ribeiro, misturava dança, poesia e canto para falar sobre a convivência dos deuses afro-brasileiros com os mortais. A montagem deu origem ao Brasiliana, grupo que, formado por dançarinos, cantores e percussionistas, excursionou pela Europa por quase dez anos.

 

A Família e a Festa na Roça

Em parceria com o Serviço Nacional do Teatro, o TEN encenou em dezembro de 1948 o espetáculo A Família e a Festa na Roça, de Martins Pena. Com direção de Dulcina de Moraes, que também atuava na montagem, e cenografia e figurino assinados por Santa Rosa, a peça tinha no elenco Abdias Nascimento, Ruth de Souza, Bibi Ferreira e Jardel Filho, entre outros.

 

Filhos de Santo

Encenada em março e abril de 1949, em dois teatros – o Ginástico e o Regina, no Rio de Janeiro –, com texto de José Morais de Pinheiro e direção de Abdias, a peça conta a história de trabalhadores do Recife, em Pernambuco, entre o candomblé e a perseguição policial.  A cenografia é de Santa Rosa.

 

Calígula

Montagem do texto do filósofo argelino Albert Camus (1913-1960), o espetáculo não conseguiu os recursos para ser encenado, tendo apenas uma apresentação do 1º ato feita para o autor, no Teatro Ginástico, em 1949, seguida de algumas músicas da Orquestra Afro-Brasileira e exibição de danças por Mercedes Batista. A direção era de Abdias; figurino e cenografia de Santa Rosa.

 

Rapsódia Negra

Com texto e direção de Abdias, a peça montada em 1952 “lançou duas artistas de grande destaque”, segundo o diretor: a dançarina Mercedes Batista e a atriz Léa Garcia. O espetáculo foi encenado em julho, outubro e novembro daquele ano, com coreógrafos e compositores diferentes a cada edição.

 

Festival O’Neill

Realizado em 1954 no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, trata-se da exibição de cenas das peças de Eugene O´Neill (1888-1953). Foram encenados trechos de Todos os Filhos de Deus Têm Asas, Onde Está Marcada a Cruz e O Imperador Jones – esta última, texto com que estreou o TEN. Abdias dirigiu e atuou.

 

Orfeu da Conceição

Com texto de Vinicius de Moraes, música de Tom Jobim (sendo essa a primeira colaboração entre os dois), cenografia de Oscar Niemeyer e elenco formado por Abdias e outros atores do TEN, a peça – que mescla a mitologia grega e o imaginário das favelas cariocas – ocorreu em 1956.

 

Perdoa-me por Me Traíres

Escrita pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, a peça foi exibida em 1957, com atuação de Abdias e do próprio Nelson Rodrigues.

 

Sortilégio – Mistério Negro

Este texto de Abdias discute a busca de identidade por meio do percurso de um homem negro que se vê distante tanto da cultura europeia quanto da africana. Foi montada em 1957, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

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Convite para o Grande Baile Caipira em homenagem ao concurso Boneca de Pixe de 1948, promovido pelo TEN. O evento aconteceu dia 26 de junho de 1948 na Casa do Estudante do Brasil | Acervo Ipeafro

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Matrizes do jornal Quilombo, editado por Abdias Nascimento e que discutia vários temas relacionados às questões raciais no Brasil | Acervo Ipeafro

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O Nosso Jornal de 5 de junho de 1943: primeiro exemplar de publicação dos sentenciados da Penitenciária de São Paulo | Acervo Ipeafro

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Programa original do espetáculo Sortilégio: Mistério Negro, apresentado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro nos dias 21, 23, 24 e 25 de agosto de 1957 | Acervo Ipeafro

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Jornal do Brasil (31/05/1989) - Caderno Cidade – Tim Lopes: "Cidade revê musical com elenco negro"