Arte e psiquiatria

Nise no ateliê na companhia de alguns clientes | fotos: autores desconhecidos/Arquivo Nise da Silveira

Nise foi readmitida no serviço público em 1944 e começou a trabalhar no Centro Psiquiátrico Pedro II. Lá teve contato com os “progressos” da medicina no campo da psiquiatria, como a lobotomia, o eletrochoque e o choque insulínico. Foi preciso um curto período de tempo para que Nise discordasse de tais tratamentos e buscasse novas formas terapêuticas, até que em 1946 fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (Stor), cujo principal objetivo era estimular os pacientes – que ela preferia chamar de clientes – a se expressar por meio da arte.

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Emoção de Lidar

Com a intenção de fazer com que cada um pudesse expressar seu mundo interior, Nise foi abrindo espaço no hospital, na mente de médicos e no coração de seus clientes. Fundou setores dedicados a trabalhos manuais, como marcenaria e sapataria; oficinas de teatro, aulas de esportes variados e ateliês de desenho e pintura, todos eles ligados pelo laço do afeto e da compreensão

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O ateliê de pintura do hospital de Engenho de Dentro foi inaugurado em 9 de setembro de 1946 e após quatro meses Nise promoveu a primeira exposição das obras. Daí em diante o reconhecimento dos trabalhos – tanto no campo de estudos da psiquiatria quanto no campo artístico – se fortaleceu, consolidando-se com o olhar atento de pessoas como o crítico Mário Pedrosa. Ele, ao lado de Leon Degand, na época diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), assinou em 1949 a curadoria da exposição Nove Artistas de Engenho de Dentro, realizada no Salão Nobre da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No ano seguinte, outra mostra, Arte Psicopatológica, aconteceu no I Congresso Internacional de Psiquiatria, em Paris, com 91 desenhos e pinturas e 9 esculturas. A partir de então, quase que anualmente são realizadas exposições nacionais e internacionais com a produção dos frequentadores do ateliê.

Em 1952, para possibilitar as pesquisas sobre o estudo das imagens e dos símbolos e para acompanhar os casos clínicos, Nise da Silveira fundou o Museu de Imagens do Inconsciente (MII) – ampliado em 1956.

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Seção de vídeo

Arqueologia da psique

Coordenadora do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), Gladys Schincariol apresenta um breve histórico da situação dos hospitais psiquiátricos e do papel de Nise da Silveira para acelerar a reforma psiquiátrica. Erika Pontes, diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, fala sobre como a instituição conseguiu diminuir progressivamente o número de internos e sobre a continuidade do trabalho de Nise. Comenta a importância de desenvolver projetos como o bloco Loucura Suburbana, que visa aproximar cada vez mais a comunidade da região do instituto, ampliando a convivência da sociedade com os clientes.

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“A atividade artística é uma coisa que não depende, pois, de leis estratificadas, frutos da experiência de apenas
uma época na história da evolução da arte. Essa atividade se estende a todos os seres humanos, e não é mais ocupação exclusiva de uma confraria especializada que exige diploma para nela se ter acesso. A vontade de arte se manifesta em qualquer homem de nossa terra, independente do seu meridiano, seja ele papua ou cafuzo, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado.”

Trecho da conferência Arte, Necessidade Vital pronunciada por Mário Pedrosa (1900-1981) na ocasião do encerramento da exposição de pintura dos pacientes do Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro, realizada em 1947, no salão do Ministério de Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, e publicada no mês seguinte no jornal "Correio da Manhã".

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Nise com Mário Pedrosa no lançamento do livro da Coleção Museus, na Sala Funarte, no Museu de Belas Artes do Rio de janeiro (1980) | foto: autor desconhecido/Arquivo Nise da Silveira

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Fotos da exposição "Nove Artistas de Engenho de Dentro", em 1949, no Museu de Arte Moderna de São Paulo

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Algumas obras

Os estudos realizados por Nise da Silveira com base na produção do ateliê eram realizados de maneira completamente individualizada, sem a criação de códigos rígidos que pudessem ser aplicados indiscriminadamente aos clientes. O afeto e o exercício de escuta que Nise fez nascer entre seus auxiliares e clientes estimulavam cada um a produzir livremente. A análise da série de imagens de um autor possibilitava a ela deduzir significados da produção.

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Mário Pedrosa: Da Natureza Afetiva da Forma

Em agosto de 2017, o Museu Reina Sofia, em Madri, na Espanha, reuniu cerca de 230 obras de 42 artistas sobre os quais o crítico e um dos mais importantes intelectuais do século XX, o pernambucano Mário Pedrosa, escreveu ou conviveu ao longo da vida. Entre nomes como Candido Portinari, Di Cavalcanti, Lygia Clark e Hélio Oiticica, figuraram Raphael Domingues e Emygdio de Barros – clientes de Nise da Silveira e artistas visuais de destaque. Mário Pedrosa: da Natureza Afetiva da Forma contou com a curadoria de Michelle Sommer e Gabriel Pérez-Barreiro.

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foto: autor desconhecido/arquivo Nise da Silveira

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Outro pilar dos tratamentos propostos por Nise é a aproximação dos clientes dos animais de estimação – principalmente os gatos. Eles sempre foram muito importantes na vida de Nise e em muitas de suas fotos a psiquiatra aparece acompanhada de algum bichano. Ela inclusive dedicou a seus companheiros o livro, Gatos, a Emoção do Lidar (1998).

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fotos: autor desconhecido/arquivo Nise da Silveira

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Fotografias de Nise da Silveira em companhia de seus animais. Em casa, no trabalho, sozinha ou em companhia de clientes e amigos, não tinha cerimônia nem restrição à presença de cães e gatos | fotos: autor desconhecido/arquivo Nise da Silveira

Em 1955, Nise encontrou próximo ao Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro uma cadela doente, a quem deu o nome Caralâmpia. Alfredo, um dos clientes de Nise, dedicou-se a cuidar do animal, que apresentou melhora, assim como o próprio paciente, que se tornou mais receptivo ao tratamento. A partir de então, Nise passou a adotar os animais abandonados que apareciam no hospital e a designar seus cuidados aos ali presentes – contrariando a opinião de muitos funcionários do centro psiquiátrico. Essa experiência fez com que a psiquiatra desenvolvesse pesquisas e tratamentos focados na relação dos internos com os animais, sobretudo os cães, que ela definia como um ponto de referência estável no mundo externo, que nunca provoca frustrações e dá afeto incondicional, sem pedir nada em troca.

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Além dos muros dos hospitais psiquiátricos

Coordenadora do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), Gladys Schincariol apresenta um breve histórico da situação dos hospitais psiquiátricos e do papel de Nise da Silveira para acelerar a reforma psiquiátrica. Erika Pontes, diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, fala sobre como a instituição conseguiu diminuir progressivamente o número de internos e sobre a continuidade do trabalho de Nise. Comenta a importância de desenvolver projetos como o bloco Loucura Suburbana, que visa aproximar cada vez mais a comunidade da região do instituto, ampliando a convivência da sociedade com os clientes.