O escritor João Anzanello Carrascoza prepara um novo livro de contos, Catálogo de Perdas, que tem lançamento previsto para setembro de 2017, pela Sesi-SP Editora. Realizada com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural, a obra ainda trará fotos assinadas por Juliana Monteiro Carrascoza, mulher do autor.

Os contos do livro são narrados por personagens marcados pela experiência – quase sempre dolorosa – da perda. “Em geral”, comenta João, “essas perdas estão relacionadas à morte de pessoas, mas também há outros tipos de perda no centro das narrativas: a perda de amor, de confiança, de fé, de oportunidades.”

Cada uma dessas coisas perdidas é representada por um objeto, uma manifestação concreta, palpável, visível do que se perdeu. Fotografados por Juliana, esses restos do que já não existe são apresentados com os relatos. “Narrar suas perdas traz aos protagonistas recordações da dor passada e a angústia da ausência presente, mas, ao mesmo tempo, aciona a lembrança dos afetos, do vínculo forte que existia entre eles e a pessoa querida que se foi”, conclui o escritor.

A seguir, confira em primeira mão um dos contos – com sua respectiva foto – do catálogo de João e Juliana.

Guardanapo

foto: Juliana Monteiro Carrascoza
foto: Juliana Monteiro Carrascoza
foto: Juliana Monteiro Carrascoza


Ingênuos, não; éramos apenas jovens. E, para nós, aqueles foram tempos de sol. Inevitável o que o futuro haveria de trazer, nós sabíamos, mas estávamos presos à nossa condição de recém-casados. Os filhos aguardavam, lá adiante, no espaço dos sonhos. Não havia lugar para os imprevistos. A vida – uma fruta doce que colhíamos a cada dia, e dividíamos em partes iguais, um gomo para mim, outro para ela. Nada era mais prazeroso que, à mesa da cozinha, tomarmos o café da manhã juntos, quando, então, fazíamos o mundo, de novo, girar as nossas vontades. Lá estávamos nós, recomeçando, felizes, a vida a dois. Sentir o quanto um queria estar com o outro, a toda hora, dava-nos a certeza de que nosso amor era indestrutível. Só conhecíamos, da saudade, a epiderme; ignorávamos que havia outras camadas até chegar a seu osso. Eram tempos de sol. Eu levantava primeiro, coava o café, fazia as torradas e, depois, ia despertá-la – ela adorava ficar um pouco mais na cama, recebendo, com preguiça, o novo dia. Comíamos sem pressa, entre conversas e afagos, e, quase sempre, nos atrasávamos. Ela entrava no trabalho mais cedo, caminhava até a estação do metrô a duas quadras dali; eu saía, em seguida, pegava ônibus na rua em frente de casa. Desde os primeiros dias do casamento, ela me deixava mensagem no guardanapo usado no café da manhã: “eu te amo”, “você é meu amor”, “quero ficar velhinha ao seu lado”. Às vezes, desenhava um coração, lábios carnudos, dois pombos se beijando – ao menos era o que aqueles traços rudes me levavam a concluir. Apesar de julgar pueril seu gesto, eu gostava, eu sorria, eu me sentia querido. Um dia, quando ela saiu às pressas, dei com o guardanapo em branco, fiquei desapontado. Reclamei. Ela riu e, para ampliar a brincadeira, passou a deixar os bilhetes não mais à mostra: escondia-os dentro do forno, debaixo da toalha de mesa, prendia com imã na geladeira. Não foram poucas as mensagens que encontrei no bolso do paletó, na mochila, na carteira. No último guardanapo que deixou, visível sobre a nossa cama, na manhã em que aconteceu o acidente no metrô, ela desenhou meu rosto e escreveu: “tchau, amor”. Como se soubesse que os tempos de sol iam terminar.

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