Um projeto brasileiro de educação

Conhecer a trajetória de Anísio Teixeira não só nos coloca em contato com a biografia de um homem, mas também com a biografia do Brasil. É em Salvador, Rio de Janeiro e Brasília, as três cidades capitais do país, onde ele atuou com mais força, acompanhando as transformações nacionais ao longo do século XX e fazendo o que de melhor sabia fazer: políticas públicas. Políticas públicas, devemos lembrar, são programas e ações desenvolvidos por Estados democráticos visando à garantia dos direitos de todos os cidadãos e à resolução de problemas. E, para Anísio, o principal problema brasileiro é a educação. Do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, de 1932, aos princípios da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, promulgada em 1996), que remontam anos 1960, do trabalho no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) – criado em 1937 e que, hoje, leva o nome do nosso homenageado – à criação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 1951, Anísio dedicou-se tanto a teoria quanto a prática, levando os debates da filosofia da educação para o campo da gestão pública. Um sujeito empenhado em tirar as ideias do abstrato e colocá-las no mundo concreto. Como sintetizou o professor Afrânio Coutinho: Anísio pensava e agia. Pensava com as mãos.

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Neste vídeo, a professora Libânia Nacif Xavier aborda a importância do “Manifesto dos pioneiros da Educação Nova”, publicado em 1932, para a educação pública brasileira. Ela apresenta alguns dos princípios defendidos no documento, como um ensino democrático, gratuito, laico, aberto a todos e sob responsabilidade do Estado, contextualizando também os debates e as reações provocados por essas ideias. Libânia destaca, ainda, a atuação de Anísio Teixeira entre os intelectuais envolvidos no movimento e a defesa de uma escola em que os alunos tivessem protagonismo na construção do conhecimento.

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A Escola Fundação Itaú disponibiliza o curso livre e autoformativo intitulado “Educação Integral na perspectiva de Anísio Teixeira”. Voltado para educadores, gestores, estudantes e interessados no tema, o curso possui quatro horas de duração e foi desenvolvido pela pesquisadora Libânea Nacif Xavier, especialista na obra e trajetória de Anísio. Para acessar o curso, é necessário se cadastrar gratuitamente em  fundacaoitau.org.br/escola.

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Infância e educação do corpo: uma aprendizagem direta para a cidadania

por Ingrid Dittrich Wiggers

Anísio Teixeira foi um intelectual que se destacou no cenário brasileiro do século XX, no qual atuou como pioneiro da educação integral. Seu trabalho foi marcado pelo reformismo educacional e pela inovação pedagógica, bem como pelo compromisso com a educação pública, gratuita e laica, que ele considerava ser uma condição para a democracia.

A Escola-Parque representa um símbolo da educação idealizada e implementada por Anísio nas cidades onde atuou como liderança da gestão educacional pública. Já na década de 1930, no Rio de Janeiro (RJ), implantou um programa inovador composto de diversos tipos de escola, entre eles o chamado Playground, que, frequentado pelas crianças no contraturno, proporcionava uma educação integral.

O Playground, por sua vez, evoluiu para a denominada Escola Parque, inaugurada em Salvador (BA) em 1950 e, posteriormente, em 1960, na nova capital do país, Brasília. Para cada conjunto de quatro Escolas-Classe – onde se realiza a educação intelectual sistemática, ou seja, o ensino das disciplinas conforme o currículo tradicional – circunvizinhas, foi planejada uma Escola-Parque, com a finalidade de promover o desenvolvimento artístico, físico, recreativo e social do estudante, bem como sua iniciação para o trabalho. O Playground, assim como a Escola-Parque, representa um complemento à Escola-Classe.

Com efeito, ao analisarmos os documentos referentes ao currículo escolar, bem como o acervo fotográfico da primeira Escola-Parque inaugurada em Brasília, localizada na Entrequadra 307/308 Sul, identificamos brincadeiras, aulas de natação, competições esportivas, desfiles cívicos e, ainda, aulas de educação física propriamente ditas. Além das atividades recreativas e esportivas, observamos atividades de caráter artístico, como aulas de dança, teatro, música, artes visuais e trabalhos manuais. Isso é possível porque o espaço arquitetônico da Escola-Parque foi desenhado privilegiando áreas e equipamentos para recreação, prática de esportes e artes. Essas atividades se caracterizam pela valorização da educação do corpo, o que sugere a aderência do currículo ao projeto de renovação pedagógica, mas sobretudo à filosofia pragmatista educacional1.

A educação do corpo, embora não fosse mencionada por Anísio de maneira explícita, tem um sentido pedagógico, inscrito na filosofia pragmatista, que embasa sua formação e atuação como intelectual no cenário educacional. De acordo com esse pensamento, a educação deve ser orientada pela experiência, o que privilegia a interação entre a criança e os elementos que compõem seu ambiente, entre eles a escola, provocando uma constante transformação por meio da aprendizagem. A experiência, portanto, não se refere apenas ao âmbito pessoal e particular, mas diz respeito à experiência humana de modo geral. O ser humano pode recorrer à experiência como instrumento que oferece suporte e subsídio às novas situações que vive a cada momento, no contexto histórico e social. O corpo, por sua vez, é a dimensão orgânica mediadora da experiência infantil, propiciando o desenvolvimento dessa pedagogia. A proposta do educador, nesse sentido, não se circunscreve a uma crítica didática à escola tradicional, mas, sim, se caracteriza como uma crítica filosófica.

Considerando que Anísio implantou uma série de escolas experimentais orientadas pela filosofia pragmatista, para além de ideias, ele marcou a educação com políticas e gestos de relevância histórica. Embora muitos projetos tenham sofrido rupturas, alguns permanecem ativos até os dias de hoje, mesmo que tenham sido marcados pela passagem do tempo. Na trama urbana de Brasília, ao percorrer os entremeios das quadras residenciais do Plano Piloto, pode-se sentir a agitação infantil que habita os amplos espaços que as Escolas-Parque oferecem para crianças e adolescentes. Sobretudo, a Escola-Parque é testemunha ainda pouco ouvida da experiência como mediação do processo de ensino-aprendizagem.

Observando a Escola-Parque como experiência acumulada pela história da educação brasileira, no sentido de buscar um elo de articulação entre gerações, devemos nos perguntar: quais sentidos/significados relevantes ela poderia nos oferecer no atual contexto social? Parece claro que o currículo estruturado em torno de atividades corporais e artísticas pode ser interessante como alternativa às telas, buscando evitar ou pelo menos minimizar os seus efeitos sobre uma frágil educação do corpo a que a infância se vê submetida. Em relação à receptividade das crianças, diferentemente do que prega o senso comum, podemos ter boas expectativas. Em uma pesquisa recente desenvolvida com crianças de Brasília, a maioria delas apontou, entre suas brincadeiras preferidas, as tradicionais e as esportivas, sugerindo que a atração pelas mídias ainda não é hegemônica2.

Contudo, a referência da educação integral, estruturada no par “Escola-Classe e Escola-Parque”, poderia vir a ter um alcance político mais profundo na educação de crianças. Trata-se de assegurar, na rede pública de ensino, educação integral de qualidade, por meio da qual a escola seria uma mediadora da relação dinâmica entre indivíduo e sociedade, integrando-se como mecanismo de transformação social. Em decorrência, teremos uma educação dirigida à formação para a cidadania, por intermédio de uma aprendizagem adquirida de modo direto, como nas experiências sociais.


Notas

  1. WIGGERS, Ingrid Dittrich. Memórias da Escola-Parque de Brasília. Brasília, DF: UnB, 2023.
  2. WIGGERS, Ingrid Dittrich; OLIVEIRA, Mariana da Silva; FERREIRA, Ivan Vilela. Infância e educação do corpo: as mídias diante das brincadeiras tradicionais. Em Aberto, Brasília, DF, v. 31, n. 102, p. 177-190, maio-ago. 2018.


Ingrid Dittrich Wiggers
é doutora em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desde 2007, atua como professora na Universidade de Brasília (UnB), na graduação e na pós-graduação em educação física. Coordena o Imagem – Grupo de Pesquisa sobre Infância, Corpo e Educação. Além disso, desenvolve pesquisa sobre a história do sistema escolar público na capital do país, tendo publicado artigos e capítulos de livros, com destaque para a obra Memórias da Escola-Parque de Brasília (Editora UnB, 2023). É consultora da Ocupação Anísio Teixeira.

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“Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública”

– Anísio Teixeira em “Educação para a democracia: introdução à administração educacional”, de 1936

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Neste vídeo, a professora Ingrid Dittrich Wiggers conduz uma aula-passeio pela quadra 308 Sul, em Brasília, para apresentar como o projeto educacional elaborado por Anísio Teixeira se integra à arquitetura, ao paisagismo e à organização da cidade. Ao percorrer espaços como o jardim de infância, a escola-classe e a escola-parque, ela explica como essas estruturas foram pensadas para proporcionar uma formação integral às crianças, articulando a educação com a arte, o esporte, a comunidade e o espaço urbano.

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“A filosofia da escola visa oferecer à criança um retrato da vida em sociedade, com as suas atividades diversificadas e o seu ritmo de preparação e execução, dando-lhe experiências de estudo e de ação responsáveis”

– Anísio Teixeira no texto “Uma experiência de educação primária integral no Brasil”, 1962

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Neste vídeo, José Mendes de Oliveira, ex-aluno e ex-administrador da Escola-Parque de Salvador, compartilha memórias de uma vida profundamente ligada à instituição. Ele relembra a sua chegada como estudante, as diferentes atividades que fizeram parte de sua formação e o caminho que percorreu até se tornar funcionário da escola e, mais tarde, administrador. Ao apresentar os espaços e contar histórias vividas ao longo de décadas, José também revela como o projeto de educação integral idealizado por Anísio Teixeira fez parte de sua própria trajetória e da formação de diferentes gerações de alunos.

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Centro Educacional Carneiro Ribeiro

O projeto anisiano de educação distancia-se totalmente da ideia de que um processo pedagógico corresponde apenas à memorização de conteúdos. Pelo contrário: para o professor, o ensino e a aprendizagem devem oferecer aos estudantes, desde crianças, ferramentas e vivências para a atuação na vida social de modo livre e responsável. Com isso em mente, Anísio Teixeira criou, no âmbito da educação básica, as escolas-classe e escolas-parque: as primeiras ocupam-se das disciplinas voltadas às ciências humanas, exatas e biológicas; as outras, por sua vez, trazem atividades artísticas, de educação física, questões ligadas ao mundo do trabalho e às finanças, incentivos à sensibilidade e socialização. Almejando um ensino integral e integrado à sociedade, Anísio inaugurou em 1950, na cidade de Salvador, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, a Escola-Parque pioneira. Mas é uma década depois, em 1960, na Escola-Parque 307/308 Sul, localizada em Brasília (referência adotada, posteriormente, para outras escolas-parque da capital), que as propostas do educador ganham uma materialidade ainda mais fiel aos ideais por ele defendidos, já que, nesse caso, o programa educacional estava integrado a um novo desenho de cidade e país.

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“A verdadeira nova escola será então o retrato mais lúcido da sociedade a que vai servir. Nela encontraremos, cuidado e cultivado, tudo que a sociedade mais preza, os seus hábitos, as suas rotinas, as suas peculiaridades, e também as suas aspirações, os seus ideais, os seus propósitos, as suas reivindicações”

– Anísio Teixeira em conferência feita no Ministério da Educação e Cultura em 1954