Nise

Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira

Nise da Silveira nasceu em 1905, em Maceió (AL). Filha única de Faustino Magalhães da Silveira, professor e jornalista, e de Maria Lídia da Silveira, pianista, Nise cresceu em um ambiente de muita liberdade, repleto de música, de arte e de poesia. Depois de concluir o curso secundário, aos 15 anos, mudou-se para Salvador onde frequentou a Faculdade de Medicina da Bahia. Na turma estava também seu primo, Mário Magalhães da Silveira – que se transformaria em um dos grandes médicos sanitaristas do Brasil e seu marido. Única mulher da turma, formou-se em 1926 e no ano seguinte, após a morte do pai, foi viver no Rio de Janeiro. Lá, especializou-se em neurologia e psiquiatria sendo aprovada em concurso público para trabalhar no Hospital da Praia Vermelha.

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Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira

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Legenda teste

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Minha querida mãe

Recebi ontem sua carta de 16. Muita alegria com suas notícias. Saúde e felicidades! para quem sabe viver como você. A primavera chegou. Um pouco atrasada em relação ao calendário, mas chegou belíssima. De uma hora para outra nota-se diferenças nas árvores. todas se cobrindo de folhas novas e tapetes de flores aparecendo no chão. como um milagre. ontem a tarde fui a um concerto a música em si bemol de Bach. Imagine em coro de 300 vozes, orquestra e quatro solistas: um tenor, um baixo, uma contralto e uma soprano. Muito mais que eu, você é que merecia ter assistido a este espetáculo.

No dia 24 pela manhã sigo para a Alemanha. Não sei se vai dar tempo de ir até Holanda pois preciso estar de volta em Zurique no dia 30 a fim de preparar minha viagem de volta. Creio que haverá tempo ainda para você escrever até o dia 27.

Lembranças afetuosas para todo o pessoal de casa.

 

Saudades e Beijos

Nise

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Letra escrita por Nise da Silveira para um dos improvisos compostos por Frédéric Chopin. A canção foi feita em 1927 em homenagem ao pai, Faustino Magalhães da Silveira, que havia falecido | arquivo Nise da Silveira

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Improviso de Chopim

A meu pai

do grande piano amplamente aberto as notas paraivam para o alto.
parecia-me que vias as ondas do som e seguias seus arabescos como o menino que olha um papagaio brincar ao espaço.

De repente ficavas estranhamente parado
Teus olhos se abarjavam
Tuas sobrancelhas se arqueavam para deixar tua alma partir

Eu ficava ao lado de cá do muro espesso humilhada
Contemplando teu corpo imóvel

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Foto da turma de formandos de 1926 da Universidade de Medicina da Bahia. Nise era a única mulher em uma sala de 75 alunos | foto: autor desconhecido/arquivo Nise da Silveira

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Seção de vídeo

Como era a personalidade de Nise?

Os entrevistados falam sobre sua personalidade forte, seu pensamento renovador e mobilizador, sobre como ela sempre valorizava a riqueza interior de cada uma das pessoas e o carinho e a simpatia que tinha em relação aos animais.

Com depoimentos de Gladys Schincariol, coordenadora do Museu de Imagens do Inconsciente (MII); Alexandre Magalhães, sobrinho; Vilma Arêas, escritora e amiga; Marco Lucchesi, escritor e amigo; Luiz Carlos Mello, diretor do MII; Martha Pires Ferreira, artista visual e ex-monitora do ateliê do MII, que hoje atua na Casa das Palmeiras.

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Nise entre professores e alunos durante uma aula de anatomia na Faculdade de Medicina da Bahia. À esquerda de Nise está Arthur Ramos, futuro antropólogo | foto: autor desconhecido/acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil

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“Em 1936, início da ditadura Vargas, uma enfermeira do hospital, percebendo na minha mesa, em meio a livros de psiquiatria, literatura, arte, livros sobre marxismo, que eu também estudava, denunciou-me à diretoria. Na mesma noite fui presa (...) Perdi o emprego e fiquei afastada do serviço público, obtido por concurso, durante oito anos, sob a alegação de pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia. Eu tinha contato com o partido comunista, mas não era uma militante política ativa.”

Trecho do livro "Nise da Silveira – caminhos de uma psiquiatria rebelde", de Luiz Carlos Mello

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Ficha Policial de Nise no Departamento Federal de Segurança Pública | Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

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Em 1935, durante o governo de Getúlio Vargas, uma série de revoltas lideradas pelo Partido Comunista Brasileiro explodiu pelo país. Como repressão – que anos depois, em 1937, daria início ao Estado Novo –, o governo Vargas iniciou a perseguição não só a integrantes do partido, como também a intelectuais, escritores e artistas. Nise foi presa pela primeira vez em 20 de fevereiro de 1936, por ter trabalhado como médica voluntária na União Feminina Brasileira – sendo solta no mesmo dia. Presa pela segunda vez quase um mês depois, em 26 de março, a médica foi levada ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e depois transferida para o Presídio Lemos de Brito, na Rua Frei Caneca, onde permaneceu até 21 de junho de 1937.

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Memórias de 455 dias no cárcere

por Mariana Sgarioni

O ano é 1969. Bairro do Flamengo, Rio de Janeiro. Para a polícia do regime militar, o apartamento 503 da Rua Marquês de Abrantes era um lugar, no mínimo, suspeito. Muita gente entrava e saía. Todas as quartas-feiras havia discretas reuniões ali. Sabia-se que no apartamento existia um radiotransmissor. Encafifado, Jayme Florêncio da Silva, então agente auxiliar da polícia do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), passava seus dias no local, anotando placas de carros, fazendo escutas telefônicas, vigiando tudo. Em seu relatório final, Jayme escreve: “O apartamento foi locado para assembleias, em que comparecem inúmeros indivíduos. Tais reuniões são presididas por Mário Magalhães da Silveira e sua esposa, Nise Magalhães da Silveira, ambos comunistas militantes com antecedentes no Dops. Apurou-se que Dona Nise mantém correspondências com Cuba e outros países comunistas. Consta ainda que Dona Nise cogita viajar para a Europa”.

O informante Jayme assinou e protocolou o documento. Solicitou uma “busca ostensiva” no local. E assim foi feito. Pouco tempo depois, o delegado Carlos Alves de Albuquerque, também do Dops, expedia um documento em que narrava o resultado de sua busca. No suspeito apartamento foram encontrados… gatos. Dezenas deles. E uma empregada doméstica para cuidar dos felinos, afinal. Nise adorava gatos e os recolhia das ruas. Alugou o apartamento só para eles, já que o casal morava em outro andar. As tais “assembleias” eram reuniões de estudiosos sobre o psicanalista Carl Jung. “Não encontramos livros ou objetos subversivos. No apartamento do casal, residem apenas a mãe paralítica da Dra. Nise e uma empregada doméstica. No 503, além dos gatos, da doméstica, apenas livros sobre o assunto ‘população’, tema de estudo do Dr. Mário. O radiotransmissor é velho, fora de uso, e quebrado”, diz o documento assinado pelo delegado do Dops em 16 de maio de 1969 – mais de 30 anos após a prisão de Nise.

Mesmo depois de presa, julgada e inocentada pelo Tribunal de Segurança Nacional, em 1938, Nise da Silveira nunca deixou de ser vigiada e perseguida. O cárcere é um dos capítulos mais obscuros de sua biografia – os motivos e o que aconteceu exatamente durante os dias em que esteve presa nunca foram esclarecidos. Uma busca nos arquivos do Dops do Rio de Janeiro, onde estão todos os prontuários, ajuda um pouco a jogar luz sobre esse período. A médica foi presa em 20 de fevereiro de 1936. Nessa mesma data foi solta. Entretanto, em 26 de março de 1936 foi novamente presa, desta vez “recolhida como medida de ordem e segurança política e social”. Foi solta somente no ano seguinte, em 21 de junho de 1937.

Nise conta que foi denunciada por subversão por uma enfermeira que trabalhava com ela no Hospício Nacional. De fato, além de ser filiada ao Partido Comunista, ela tinha em sua biblioteca pessoal livros marxistas, que foram encontrados nas buscas em sua casa. Entretanto, este não foi o motivo alegado nos documentos de sua prisão – até porque a participação efetiva de Nise na política era pífia. Consta que a médica foi detida por pertencer à União Feminina Brasileira e à Ala Reivindicadora dos Médicos.

A primeira foi fundada por intelectuais e militantes feministas, como Maria Werneck e Eugênia Álvaro Moreyra, companheiras de cela de Nise. Menos de dois meses após sua criação, o então presidente Getúlio Vargas determinou o fechamento da organização, acusando-a de subversiva, uma vez que defendia mudanças na legislação brasileira que davam às mulheres certos direitos, como o de manter a guarda dos filhos em caso de separação e o de receber salários iguais aos dos homens. Isso era considerado crime aos olhos do governo. Já a Ala Reivindicadora dos Médicos era ligada à Aliança Nacional Libertadora (ANL), órgão notadamente de esquerda. Ao ser presa, Nise declarou que sim, prestava serviços médicos nas duas organizações, atendendo mulheres carentes duas vezes por semana.

Nise era filiada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), tinha muitos amigos comunistas, mas não era atuante por não concordar com todas as ideias da turma. “Minha experiência no partido não foi muito boa, não, porque eu sempre tive muita dificuldade de me acomodar em organizações. Talvez, por causa da minha vida de filha única, de menina rebelde, eu não me acomodava dentro dos esquemas do Partido Comunista… Os companheiros do Partido não aprovavam que eu me dedicasse tanto aos estudos, por exemplo”, contou Nise em entrevista a Dulce Pandolfi, para seu livro Camaradas e Companheiros, Memória e História do PCB, de 1995. Tanto é que Nise foi expulsa do partido pouco tempo depois. “Eu discordava de certas coisas, e eles achavam que esses pontos de vista meus eram trotskistas. Eu não era trotskista nem nada. Eu também achava que o material que o Partido recebia, o material stalinista, era muito pouco simpático. Então entramos em atrito.”

Pelos seus próprios relatos, Nise só continuava no partido para estar com amigos próximos, participar de debates e conviver com pessoas intelectualmente interessantes. Entretanto, sua militância era nula.

Na prisão

Nise foi abordada por policiais durante a noite e levada para o presídio da Rua Frei Caneca. Ela conta que foi colocada numa cela no andar térreo, cheia de baratas, e um dos presos comuns – que, segundo ela, eram muito amáveis – varreu a sala. De manhã, petulante, ela disse aos policiais: “Eu sei que há aqui um local onde estão presas várias mulheres. Por que eu estou aqui, no local das presas comuns, ladras, e nessa imundice tremenda?”. Foi a partir dessa bronca que os agentes a levaram para a chamada Sala 4, onde estavam conhecidas como Maria Werneck e Olga Benario.

Nessa sala, chamada “sala das damas”, Nise da Silveira viveu por 455 dias. A rotina na prisão não foi documentada nos arquivos oficiais do Estado – e ela parecia não gostar de dar muitos detalhes. Nise conta que comia mal, porque a comida era sempre um “feijão duro, servido pelos presos comuns”, e dormia como uma pedra. Não sofreu torturas nem interrogatórios rígidos. Mas confessa o clima tenso ao contar que presenciou uma de suas companheiras de cela ser levada para tortura: Elisa Berger, que, na volta, sempre mostrava as marcas de queimaduras no corpo e nos seios. “Eu nunca fui torturada, mas ouvir aquilo me atingiu muito. Porque, naquela ocasião, para mim, tudo isso era inimaginável. Eu não tinha formação revolucionária para aguentar ouvir aquilo”, contou.

Embora em todas as entrevistas Nise pareça amenizar o tempo de prisão, descrevendo-o como nada relevante, é possível imaginar que foram dias de intenso sofrimento. E também de leitura e estudo. Foi nesse período que ela desenvolveu a ideia de que o encarceramento era um dos motores da loucura. Em uma carta de outubro de 1936, escrita de próprio punho, endereçada diretamente ao chefe da Polícia do Distrito Federal, Nise relata problemas de saúde e solicita transferência hospitalar. “Dado o agravamento do meu estado de saúde, venho requerer a Vossa Excelência a minha transferência para um hospital. Não podendo responsabilizar-me pelo pagamento de um quarto particular, aceito internação mesmo num serviço de indigentes”, escreveu.

Em mais de um ano de cárcere, Nise não recebeu a visita de nenhum parente ou amigo. A única visitante cadastrada era Zoila Teixeira, mulher de Isnard Teixeira, também preso político. Zoila era quem levava frutas e roupas para Nise – a pedido de Mário Magalhães, seu marido.

A saída

Nise foi solta no dia 21 de junho de 1937. Foi liberada porque não encontraram nenhuma ligação revolucionária dela. “Não me deram bola”, dizia. Nesse dia, a médica tomou um banho, trocou de roupa e foi ao encontro de sua mãe, que a esperava na saída. Foram jantar na casa de Zoila Teixeira e, como era época de São João, Nise ficava vendo os balões da janela. “Fiquei muito com mania de liberdade. Depois, eu tomava um bonde ao acaso, e ia até o fim da linha e voltava, descia, tomava ao acaso outro bonde… [risos] Havia uma série de bondes que saíam da Praça Tiradentes, e eu vi um bonde chamado Alegria. Eu digo: É nesse que eu vou! [risos]”, disse em depoimento a Dulce Pandolfi.

Mesmo em liberdade, Nise foi exonerada do Hospício Nacional, uma vez que a Justiça entendeu que “as tendências ideológicas da ré seriam incompatíveis com o exercício da função pública.” Por receio de novas perseguições, manteve-se na clandestinidade até 1944, quando foi anistiada e autorizada a retomar a função pública para a qual havia prestado concurso dez anos antes. Durante mais de 30 anos, porém, ela continuou sendo vigiada. Em arquivos confidenciais da Divisão da Polícia Política e Social de outubro de 1959, por exemplo, Nise é fichada e descrita como:

– “Psiquiatra, foi signatária do apelo das mulheres da América Latina ao dar seu apoio e colaboração à ‘Conferência Latino-Americana de Mulheres’, que se realizaria em 27 de agosto de 1954, na Capital Federal”;
– “Médica psiquiatra que, segundo a ‘Imprensa Popular’ de 17 de abril de 1955, foi uma das signatárias da ‘Convocação do Congresso Internacional de Mães’”;
-“Médica que, segundo a ‘Imprensa Popular’ de 25 de março de 1956, foi uma das signatárias da ‘Mensagem’ lançada pela ‘Comissão Nacional Feminina pela Anistia’, conclamando a mulher brasileira a apoiar o projeto de anistia”.

Dez anos depois, em 1969, auge do regime militar, Nise teve seu apartamento – aquele da Marquês de Abrantes – denunciado e vasculhado pela polícia. Como os arapongas nem sempre se entendiam, em vez de livros marxistas, desta vez foram encontrados apenas gatos. Dezenas. Por que gatos, Nise, afinal, tantos? “O gato não tem a capacidade de perdoar. Como eu não tenho.”

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Capa da ficha policial de Nise, registrada em 15 de novembro de 1941 | Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

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Nise e Mário Magalhães da Silveira, seu marido | foto: Mário Magalhães da Silveira/arquivo Nise da Silveira

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Em junho de 1937, Nise saiu da prisão, mas alguns meses depois, por causa da nova onda de censura, partiu para a Bahia e por oito anos viveu na clandestinidade. Passou por outros estados do Norte e do Nordeste do país, como Manaus, Maceió e Recife – onde se casou, em 1940, com Mário Magalhães da Silveira.

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Nise e Mário Magalhães da Silveira | foto: Mário Magalhães da Silveira

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Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira

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Da esquerda para a direita: Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck (em pé) e a escritora Beatriz Bandeira Ryff, em 1988 | foto: autor desconhecido/ Arquivo Nise da Silveira

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Nise ficou presa um pouco mais de um ano no Presídio Lemos de Brito. Nessa época ocupou a famosa sala 4, onde estavam outras mulheres pelas quais, além de amizade, nutria grande admiração. Entre elas, as militantes comunistas alemãs Olga Benário Prestes, grávida de Luís Carlos Prestes, e Elise Ewert, conhecida como Sabo. Maria Werneck era uma das internas e documenta, no livro Sala 4 (1988), como era a cela e a rotina das internas.