por Milena Buarque Lopes Bandeira

Em uma metrópole carente de mobiliário público, a artista Sandra Cinto faz um convite a quem atravessa uma das avenidas mais movimentadas da cidade: por que não se sentar em estrelas? “Pensei em trazer as estrelas para a Terra e fiquei imaginando as pessoas sentadas ou deitadas nelas. Muitos me perguntam se é gelo ou talvez a molécula da água. Pode ser estrela, pode ser gelo ou pode ser o que se quiser. Qualquer leitura cabe ali, porque a obra é aberta”, explica.

A obra em questão é o banco que compõe a fachada do Itaú Cultural (IC), que há três anos recebe o trabalho de diferentes artistas brasileiros. Com tinta de parede azul e canetas à base de água e óleo nas cores prata e branco, a pintura pensada por Sandra dialoga diretamente com a exposição Sandra Cinto: das Ideias na Cabeça aos Olhos no Céu, que abre para visitação do público nesta quinta-feira, 12 de março.

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Nascida em Santo André, no ABC Paulista, a artista constantemente deixa pequenos pedaços de seus céus e mares pelas cidades. As obras Céu e Mar para Presente (Japonismo), The Great Sun e The Invisible Telescope, para citar apenas alguns exemplos, integram a paisagem de lugares dedicados à educação e à cultura em sua cidade natal e nas cidades norte-americanas de Nova York e São Petersburgo, respectivamente.

imagem: Anna Carolina Bueno

“Obra pública é um desafio e também um prazer muito grande para o artista, porque ela fala direto, sem intermediação. Muitas vezes ela fica exposta ao tempo, ao sol, à chuva e ao vento. Eu sempre busco pensar um pouco sobre o lugar onde a obra está sendo instalada, quem são as pessoas que frequentam esse lugar e sua história”, afirma. “Acho muito importante que na cidade existam obras públicas, justamente porque elas conversam com todos, já que nem todas as pessoas têm o hábito de visitar exposições. A obra deve dialogar com a arquitetura e com o entorno.”

O banco na Avenida Paulista não é o primeiro mobiliário de Sandra em São Paulo. No centro histórico da cidade, uma cama de bronze desperta a atenção de quem passa por sua inusitada sustentação composta de livros. “Fiz um trabalho que é uma cama de bronze no centro da cidade; ela é muito usada pelas pessoas como um banco. Lembro que, quando eu instalei, as pessoas diziam que não ia durar uma semana, que o material seria furtado ou danificado. Ela está lá há 20 anos, tem resistido ao tempo. Acho que porque a comunidade assimilou aquilo como dela.”

A artista conta que, enquanto desenhava no banco do IC, um senhor a abordou com o seguinte conselho: a colocação de uma placa para que as pessoas não colocassem os pés, pois a pintura era muito bonita. Para Sandra, o trabalho não acaba quando é concluído – ele se prolonga em quem estabelece uma relação com ele. “Uma vez que eu entrego a obra, ela não é mais minha. Ela não acaba, mas é um filho que eu lancei no mundo. E aí ele vai ter de sobreviver sozinho e dialogar com as outras coisas e pessoas que estão no mundo. Acho que, quando o público entende que aquela obra lhe pertence, ele cuida”, diz.

Com a montagem da mostra em andamento – uma panorâmica de 30 anos de sua produção –, a artista contou com a ajuda do assistente Wilian de Souza, que ficou responsável pelo preenchimento das estrelas, e dos pintores que cobriram o banco com a base azul e, posteriormente, o verniz.

imagem: Anna Carolina Bueno

Arte Urbana
Sandra Cinto é a sétima convidada a dar cara nova à fachada do Itaú Cultural no projeto Arte Urbana, que, desde sua criação, em 2017, já contou com os kene dos Huni Kuĩ e com a arte de Erica MizutaniGuilherme KramerJota Cunha, Luna Bastos e Denilson Baniwa.

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