Canções

imagem: Juraci Dórea

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Sete violas em clamores

O homem do sertão, seus amores, sua lida, seus costumes, a paisagem a sua volta: esses são os temas caros ao cancioneiro de Elomar, aspecto mais conhecido e difundido de sua obra. Operando tempos que convivem em multiplicidade – ou, talvez fosse mais acertado dizer, que convivem em fratura –, Elomar constrói um mundo ideal, simultaneamente feérico e fincado na materialidade, no qual honra e beleza, espírito heroico e amor pastoril transitam tendo, ao longe de suas fronteiras, o borrão da modernidade.

As sete canções aqui destacadas aproximam, como um padrão em miniatura, esse sertão mágico orquestrado pelo artífice. O cantador e violeiro, em sua saga heroica, adverte quem dele se achega a respeito de seus valores: “amor, furria e viola, nunca dinheiro”. Ou seja, trata-se de liberdade e da capacidade, fora das determinações de mercado, que possibilita tanto a contemplação da natureza prestes a explodir em chuva e trovão quanto a de se imaginar, assim como a amada, como príncipe e donzela e, ainda, de cantar a vida e a morte, de outros cantadores, heróis anônimos, aves cantadeiras, os quais se agigantam na dicção “sertaneza” de Elomar.

Nessas cantigas, a pátria do sertão mostra seu rosto doce e diabólico, prefigurado em “Naninha” e na beleza antropomórfica de “Dassanta”, mostra seu tempo sem tempo regido pelas luas, mostra a vontade da cigarra prevalecendo sobre as dúvidas da formiga. E, se a metrópole é signo de morte e dissolução, a cidadezinha e sua feira são adjutórias em todos os pedidos, ofertando brevidades e um sortimento de coisinhas e afetos. Saído dessas dobras do tempo, o cancioneiro de Elomar se projeta ímpar no cenário da música nacional.

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Seção de vídeo

Viagem pelo Sertão

Gilson Bonfim é professor, amigo de Elomar e pesquisador da Fundação Casa dos Carneiros. Trabalha no município de Bom Jesus da Serra, na Bahia, com alunos do ensino médio. Em 2013, concluiu o mestrado na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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Peão na Amarração

Inconto a sulina amansa
Ricostado aqui no chão
Na sombra dos imbuzêro
Vomo intrano in descursão
É o tempo qui os pé discança
E isfria os calo das mĩa mão
Vô poĩano nessa trança
A vida in descursão
Na sombra dos imbuzêro
No canto de amarração
Tomo falano da vida
Fela vida do pĩão
Inconto a sulina amansa
E isfria os calo da mão
U’a vontade é a qui me dá
Tali cuma u’a tentação
Dum dia arresolvê
Infiá os pé pelas mão
Pocá arrôcho pocá cia
Jogá a carga no chão
I rinchá nas ventania
Quebrada dos chapadão
Nunca mais vim nun currá
Nunca mais vê rancharia
É a ceguêra de dexá
Um dia de sê pĩão
Num dançá mais amarrado
Pru pescoço cum cordão
De num sê mais impregado
E tomém num sê patrão
U’a vontade é a qui me dá
Dum dia arresolvê
Jogá a carga no chão
Cumo a cigarra e a furmiga
Vô levano meu vivê
Trabaiano pra barriga
E cantano inté morrê

Venceno a má fé e a intriga
Do Tinhoso as tentação
Cortano foias pra amiga
Parano ponta c’as mão
Cumo a cigarra e a furmiga
Cantano e gaiano o pão
Vô cantano inconto posso
Apois sonhá nun posso não
No tempo qui acenta o almoço
Eu soĩn qui num sô mais pĩão
U’a vontade é a qui me dá
Dum dia arresolvê
Quebrá a cerca da manga
E dexá de sê boi-manso
Dexá carro dexá canga
De trabaiá sem discanso
Me alevantá nos carrasco
Lá nos derradêro sertão
Vazá as ponta afiá os casco
Boi turuna e barbatão
É a ceguêra de dexá
Um dia de sê pĩão
De num comprá nem vendê
Robá isso tomém não
De num sê mais impregado
I tomém num sê patrão
U’a vontade é a qui me dá
Dum dia arresolvê
Boi turuna e barbatão
Toda veiz qui vô cantá
O canto de amarração
Me dá um pirtucho na güela
E um nó no coração
Mais a canga no pescoço
Deus ponhô pru modi Adão
Dessa Lei nunca mi isqueço
Cum suó cumê o pão
Mermo Jesus cuano moço
Na Terra tomém foi pĩão
E toda veiz qui eu fô cantá
Pra mim livrá da tentação
Pr’essa cocêra cabá
Num canto mais amarração

Ouça abaixo a canção “Peão na Amarração”, do álbum Parcelada Malunga (1980).

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Peão na Amarração”, do álbum Parcelada Malunga (1980)

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Seção de vídeo

O Aboio

Xangai é cantor, compositor e violeiro. Lançou seu primeiro álbum, Acontecivento, em 1976. Em 1980, em conjunto com Elomar e Arthur Moreira Lima, apresentou o disco Parcelada Malunga, pelo selo Marcus Pereira. Seu terceiro disco solo, Mutirão da Vida (1984), teve a direção de Jacques Morelenbaum e acompanhamento do grupo Cumeno cum Cuentro.

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Chula no Terreiro

Mais cadê meus cumpanhêro, cadê
Qui cantava aqui mais eu, cadê
Na calçada no terrêro, cadê
Cadê os cumpanhêros meus, cadê
Caíro na lapa do mundo, cadê
Lapa do mundão de Deus, cadê

Mais tinha um qui dexô o qui era seu
Pra í corrê o trêcho no chão de Son Palo
Num durô um ano o cumpanhêro se perdeu
Cabô se atrapaiano c’ũa lua no céu
Num certo dia num fim de labuta
Pelas Ave-Maria chegô o fim da luta
Foi cuano ia atravessano a rua
Parô iscupiu no chão pois se ispantô com a lua
Ficô dibaxo das roda dos carro
Purriba dos iscarro oiano pra lua, ai sôdade
Naquela hora na porta do rancho
Ela tamém viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
Pertô o caçulo contra o peito seu
O coração deu um pulo os peito istremeceu
Soltô um gemido fundo as vista iscureceu
Valei-me Sinhô Deus meu apois eu vi Remundo
Nas porta do céu, ai sôdade

Mais tinha um qui só pidia qui a vida fosse
U’a função noite e dia qui a vida fosse
Regada cum galinha vin queijo e doce
Sonhano a vida assim arriscô mêrmo sem posse
Dexano a vida ruim intão se arritirô-se
Levô-lhe um ridimúin e a festa se acabô-se, ai sôdade

Mais tinha um qui só vivia pra dá risada
Cuano ele aparicia a turma na calçada
Dizia evém Fulô das aligria
Covêro da tristeza e das dori maguada
Pegava a viola e riscava u’a toada
Ispantava a tristeza ispaiava a zuada, ai
Lovava os cumpanhêro nũa buniteza
Qui aos pôco pru terrêro voltava a tristeza
Esse malungo alegre e de alma manêra
Tamém tinha nos peito a febre perdedêra
Se paxonô pr’ũa moça num dia de fêra
Norano qui a mucama já era cumpanhêra
De um valentão de fama e acabadô de fêra
O cujo cuano sôbe vêi feito u’a fera
Pois tinha fama de nobe e de qualqué manêra
Calô c’ũa punhalada a ave cantadêra
Covêro da tristeza e das dori maguada
Morreu, cuma me dói, d’ũa moda mangada
C’ũa lágrima nos ói e na bôca u’a risada, ai sôdade

E mais cadê aquele vaquêro Antenôro
Cum seu burro trechêro e seu gibão de côro
Esse era um cantadô dos bem adeferente
Cantano sem viola alegrava a gente
No ano passado na derradêra inchente
O Gavião danado urrava valente, ai sôdade
Chegô intão u’a boiada do Norte
O dono e os vaquêro arriscaro a sorte
O risultado dessa travissia
Foi um sucesso triste, Virge-Ave-Maria
O risultado da bramura foi
Qui o ri levô os vaquêro o dono os burro e os boi, ai sôdade
Derna dintão Antenôro sumiu
Dos muito qui aqui passa jura qui já viu
Na Carantonha, na serra incantada
Pelas hora medonha vaga u’a boiada
O trem siguin’ um vaquêro canôro
A tuada e o rompante jura é de Antenôro
Ah, ah, ah, ah, ê boi
Ê ê boi lá ê boi lá ê boi lá.

Ouça abaixo a canção “Chula no Terreiro”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978).

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“Chula no Terreiro”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978)

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O Pidido

4º canto de “O Auto da Catingueira”

Já qui tu vai lá prá fêra
Traga di lá para mim
Água da fulô qui chêra
Um nuvêlo e um carrin
Trais um pacote de misse
Meu amigo ah se tu visse
Aquele cego cantadô!
Um dia ele me disse
Jogano um mote de amô
Qui eu havéra de vivê
Pur esse mundo
E morrê aina em flô
Passa naquela barraca
Daquela mulé reizêra
Onde almuçamo paca
Panelada e frigidêra
Inté você disse ũa loa
Gabano a bóia boa
Qui das casa da cidade
Aquela era a primêra
Trais pra mim ũas brividade
Qui eu quero matá a sôdade
Faiz tempo qui fui na fêra
Ai sôdade…
Apois sim vê se num isquece
Quinda nessa lũa chêa
Nóis vai brincá na quermesse
Lá no Riacho d’Arêa
Na casa daquele home
Feitecêro e curadô
Qui o dia intêro é home
Filho do Nosso Sinhô
Mais dispois da mêa noite
É lubisome cumedô
Dos pagão qui as mãe isqueceu
Do batismo salvadô
E tem mais dois garrafão
Cum dois canguin responsadô
Apois sim vê se num isquece
De trazê ruge e carmim
Ah se o dinhêro desse
Eu quiria um trancilin
E mais treis met’ de chita
Qui é preu fazê um vistido
E ficá bem mais bunita
Qui Madô de Juca Dido
Qui Zefa de Nhô Joaquim
Já qui tu vai lá prá fêra
Meu amigo traiz
Essas coisinha para mim
Já qui tu vai lá prá fêra
Meu amigo traiz
Essas coisinha para mim

Ouça abaixo a canção “Do Pidido”, 4º Canto do Auto da Catingueira (1984). A música é interpretada por Andrea Daltro.

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“Do Pidido”, 4º Canto do Auto da Catingueira (1984). A música é interpretada por Andrea Daltro

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(Des)erança

Elomar Figueira Mello canta um sertão cruzado por referências múltiplas: da tradição ibérica à África, da liturgia cristã à música erudita. Essas relações são operadas num processo radical de mestiçagem cultural: um bordado intrincado no qual se conforma a criação de um sertão singular, seco, de batalhas entre o bem e o mal, lugar ambíguo de degredo e epifanias. Nesse sentido destacam-se três linhas de força: o medievo, a Península Ibérica sob a influência mourisca e as Áfricas no Brasil.

Buscando na Europa medieval uma tradução capaz de levantar uma arquitetura para essa paisagem, Elomar constrói um lugar no qual os afetos, as vontades, as determinações são marcados pelo espírito combativo cavaleiresco, por uma poética trovadoresca – na qual a mulher é uma senhora idealizada em tons sobrenaturais, como em “Naninha” e “Cantiga de Amigo” – e por certos traços de uma hagiografia, não compondo exatamente vidas de santos, mas um espírito sagrado que transparece na feitura de alguns personagens, como os cantadores mártires da canção “Chula no Terreiro”.

Vêm ainda dessa tradição ibérica alguns traços arabizados do universo do cantador sertanezo, seja no tom   quase monocórdico de algumas de suas composições, seja no acento espanhol de sua viola. Elomar recria também essa herança oriental na temática. É o caso, por exemplo, de “A Donzela Tiadora”. Câmara Cascudo é quem aponta as origens árabes dessa história, que chegou ao Brasil no século XVIII e se popularizou no cordel de Leandro Gomes de Barros: “A moça entre os doutores não aparece na literatura oral ocidental em documento do meu conhecimento” (1953, p. 52).

Finalmente, muito embora Elomar divida a Bahia em duas – uma negra e litorânea e a outra a da pátria do sertão –, a África “diaspórica” se encontra presente em sua obra, seja por meio do cantador que pede “viola, forria, amor, dinheiro não”, seja por meio do boi encantado, metáfora para o escravo que foge e passa anos sem que o feitor ou o capitão do mato encontrem suas trilhas. Aliás, cantador, boi e homem escravizado se confundem, se espelham.

Sobre isso, Câmara Cascudo salienta: “Esses versos são espelho da mentalidade do sertão. O cantador é a defesa única mas completa e contínua do animal perseguido. […] surgem esses versos nos moldes mnemônicos dos A.B.C., nos versos, quadras, sextilhas e décimas, narrando a odisseia completa” (p. 19). Não por acaso, em “Cantiga do Boi Incantado”, o vaqueiro lança a pergunta/desafio: “ê boi incantado e aruá, ê boi, quem haverá de pegar?”.

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imagem: Juraci Dórea

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Naninha

6º canto de “O Mendigo e o Cantador”

Certa veiz um certo prinspe
paxonô-se prũa donzela
Intiada de um rei
Lá do rêno de Castela
Mala sorte a qui li foi
Morreno de amô pru ela
Pru modi das Arma o rei
Li negô intão a mão dela
Imbuçado cum um velo
Com o semblante ocultado
Pelas porta do castelo
Mindigava paxonado
Té qui um dia essa princesa
Desceu feito um Sarafim
Ele intonci pidiu ela
Qui li insinasse o camin
Rompe mais Naninha
Mais um bucadin
Vê qui o pobre cego
Nun inxerga o camin
Vê meu peito sua
E fria a fronte mĩa

Rompe mais Naninha
Mais um bucadin
Vê qui o pobre cego
Nun inxerga o camin
Vê meu peito sua
Ó sĩora mĩa
Pela sina tua
Triste sina é a mĩa
De vivê atôa
De pená assim
Eu só sem Naninha
E Naninha sem mim
Olha pra lagoa
Tua camarĩa
Vê o lençol qui a lua
Teceu pra Naninha
Nessa noite tua
Tu serás só mĩa
Junto da lagoa
Ó noiva do céu
Amada perdoa
Sou o prinspe teu

Ouça abaixo a canção “Naninha”, do álbum Cartas Catingueiras (1983).

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“Naninha”, do álbum Cartas Catingueiras (1983)

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Dassanta

fragmento do 1º canto de “O Auto da Catingueira”

Mais o pió qui era qui sua buniteza
Virô u’a besta fera naquelas redondeza
In todas brincadêra adonde ela chegava
As mulé dançadêra assombrada ficava
Já pois dela nas fêra os cantadô dizia
Qui a dô e as aligria na sombra dela andava
E adonde ela tivesse a véa da foice istava
A véa da foice istava
In todas as brincadêra adonde ela ia
Iantes dela chegava na frente as aligria
Dispois só se uvia era o trincá dos ferro
As mãe soltano uns berro chorano maldizia
E triste no ôtro dia era só chôro e intêrro
chôro e intêrro, chôro e intêrro
chôro e intêrro, chôro e intêrro
Dassanta era bunita qui inté fazia horrô
No sertão pru via dela muito saingue derramô
Conta os antigos quela dispois da morte virô
Passo das asa amarela jaçanã pomba-fulô
Fulô roxa do Panela só lá tem essa fulô
Dispois da morte virô passo japiassoca assú
Dispois da morte virô passo japiassoca assú
passo japiassoca assú passo japiassoca assú
Dispois da morte virô passo japiassoca assú
passo japiassoca assú passo japiassoca assú

Ouça abaixo a canção “Dassanta”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978).

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“Dassanta”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978).

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imagem: Juraci Dórea

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Arrumação

Jusifina sai cá fora e vem vê
Olha os fôrro ramiado vai chuvê
Vai trimina riduzi toda a criação
Das banda de lá do ri Gavião
Chiquêra pra cá já ronca o truvão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó
Mãe Purdença inda num culheu o ái
O ái roxo essa lavôra tardã
Diligença pega panicum balai
Vai cum tua irmã, vai num pulo só
Vai culhê o ái, ái da tua avó
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó
Lũa nova sussarana vai passá
Seda Branca na passada ela levô
Ponta d’unha, lũa fina risca no céu
A onça prisunha a cara de réu
O pai do chiquêro a gata comeu
Foi um truvejo c’ũa zagaia só
Foi tanto sangue de dá dó
Os cigano já subiro bêra ri
É só danos todo ano nunca vi
Paciênça já num guento a pirsiguição
Já sô um caco véi nesse meu sertão
Tudo qui juntei foi só pra ladrão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá feijão no pó

Ouça abaixo a canção “Arrumação”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978).

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“Arrumação”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978)

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imagem: Juraci Dórea

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O Violeiro

Vô cantá no cantori primêro
As coisa lá da mĩa mudernage
Qui mi fizero errante e violêro
Eu falo sero e num é vadiage
E pra você qui agora está me ôvino
Juro inté pelo Santo Minino
Virge Maria qui ôve o qui eu digo
Se fô mintira mi manda o castigo

Apois pra o cantadô e violero
Só há treis coisa nesse mundo vão
Amô, furria, viola, nunca dinhêro
Viola, furria, amo, dinhêro não

Cantadô de trovas e martelo
De gabinete, ligêra e moirão
Ai cantadô já curri o mundo intêro
Já inté cantei nas porta de um castelo
De um rei qui se chamava de João
Pode acreditá meu companhêro
Dispois de tê cantado o dia intêro
O rei me disse fica eu disse não

Si eu tivesse di vivê obrigado
Um dia iantes desse dia eu morro
Deus fez os home e os bicho tudo fôrro
Já vi iscrito no Livro Sagrado
Qui a vida nessa terra é u’a passage
E cada um leva um fardo pesado
É um insinament’ qui derna a mudernage
Eu trago bem dent’ do coração guardado

Tive muita dô de não tê nada
Pensano qui esse mundo é tudo tê
Mais só dispois de pená pela istrada
Beleza na pobreza é qui vim vê
Vim vê na procissão o lôvado seja
O malassombro das casa abandonada
Coro de ceg’ nas porta das igreja
E o ermo da solidão das istrada

Pispiano tudo do começo
eu vô mostrá como faz um pachola
Qui inforca o pescoço da viola
Rivira toda a moda pelo avesso
E sem arrepará se é noite ou dia
Vai longe cantá o bem da furria
Sem um tustão na cuia o cantadô
Canta inté morrê o bem do amô

Ouça abaixo a canção “O Violeiro”, do álbum Das Barrancas do Rio Gavião (1972).

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“O Violeiro”, versão do álbum Parcelada Malunga (1980)