Sertão Profundo

Arredores da Casa dos Carneiros, fazenda de Elomar, no povoado da Gameleira | imagem: Andre Seiti

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O semiárido brasileiro

O semiárido brasileiro é uma das mais povoadas regiões de terras secas do planeta. Historicamente castigado pela estiagem e pelo descaso político, foi marcado com a brasa do trágico em nosso imaginário – vidas secas, retirantes, asa branca e diadorins, em todos a dor e a perda latejam.

Como a economia rural da região sempre foi frágil, a população de lá por anos muniu o país de mão de obra na mais representativa diáspora brasileira – sertanejos construíram as capitais do Sudeste e desbravaram as selvas do Norte e os serrados do Centro-Oeste. Por onde foram levaram seus hábitos e sua cultura. Carne-seca e farinha, religiosidade e superstição, música e poesia.

No sertão da Bahia estão três fazendas que marcaram a vida de Elomar:

– A Casa dos Carneiros, no povoado da Gameleira, distrito do Iguá, Vitória da Conquista;

– A Fazenda Duas Passagens, Tanhaçu, divisa com Anagé, no curso do Rio Gavião – geralmente chamada por ele de Gavião;

– A Fazenda Lagoa dos Patos, na encosta da Chapada Diamantina. Situada em Livramento de Nossa Senhora, é comumente posta por Elomar no município próximo, Lagoa Real, conhecido pelas Festa e Missa do Vaqueiro.

Cenários e habitantes dessas terras estão presentes em sua obra, convivendo com suas fantasias. Há lugares que existem e outros que ainda não foram encontrados. Há pessoas de carne e osso e outras vaporosas.

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Juraci Dórea – Sobre o Sertão Profundo

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Juraci Dórea, artista responsável pelas ilustrações que representam Elomar nesta edição da Ocupação, contextualiza o sertão profundo, que existe tanto em sua obra, como na obra do músico. Juraci trabalha com poesia, pintura, escultura, desenho e fotografia e tem como principal referência a cultura sertaneja.

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imagem: Juraci Dórea

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Paisagem próxima à Fazenda Duas Passagens, Tanhaçu, divisa com Anagé, no curso do Rio Gavião – geralmente chamada por Elomar de Gavião | imagem: André Seiti

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A Pergunta

do auto “O Tropeiro Gonsalin”

GONSALIN:
– Ô Quilimero assunta meu irirmão
Iantes mêrmo qui nóis dois saudemo
Eu te prigunto naquele refrão
Qui na fartura nóis sempre cantemo
Na catinga tá chuveno?
Ribeirão istão incheno?
Na catinga tá chuveno?
Ribeirão istão incheno?
Me arresponda meu irirmão
Cuma o povo de lá tão?

QUILIMERO:
– Só a terra qui você dexô
Quinda tá lá num ritirô-se não
Os povo as gente os bicho as coisa tudo
Uns ritirô-se in pirigrinação
Os ôtro os mais velho mais cabiçudo
Voltaro pru qui era pru pó do chão
Adispois de cumê tudo
Cumêr’ precata surrão
Cumêr’ côro de rabudo
Cumêr’ cururu rodão
E as cacimba do Ri Gavião
Já deu mais de duas cova d’ um cristão
Inté aquela a da cara fêa
Se veno só dexô a terra alêa
Foi nas pidrĩa cova de serêa
Vê sua madrĩa
E vêi de mão c’ũa véa
Adispois de cumê tudo
Fôro ao ri cumer’ arêa
Cumêr’ côro de rabudo
Capa de cangaia véa
Na cantiga morreu tudo
Qui nem percisô caxão
Meu cumpade Juão Barbudo
Num cumpriu obrigação

Vai pra mais de duas lũa
Qui meu pai mandô eu í no Nazaré
Buscá u’a quarta de farĩa
Eu e o irirmão Zé Bento vinha andano a pé
Mãe lũa magrĩa qui está no céu
Será qui cuano eu chegue in minha terra
Aina vô incontrá o qui é meu
Será qui Deus do céu aqui na terra
De nosso povo intonce se isqueceu
Na catinga morreu tudo
Qui nem percisô caxão
Meu cumpadre Juão Barbudo
Num cumpriu a obrigação

Canção “A Pergunta”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978)

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Entrada da Casa dos Carneiros, no povoado da Gameleira, distrito do Iguá, Vitória da Conquista | imagem: André Seiti

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Patra Vea do Sertão

Após ter aceito a proposta de fuga da prima, deixando os demais em plano de fundo e finalizando a cena I, Maria vem até o procênio onde num lamento pungente se despede de sua terra, sua Patra Vea do Sertão.

(Sola um contralto popular)

Maria
Patra vea do sertão
terra donde eu nasci
teus campos de sequidão
me alembra ôtro sertão
qui a sagrada letra canta
bem muito longe daqui
pl’as banda da Terra Santa
nos campos de Abraão
no sertão do rei Davi.
Amanhã vô te dêxá
por um tempo qui nem sei
também se eu vô voltá
sabe Deus isto num sei
vô com o coração partido
aquí no peito firido
cuma qui apunhalado
vô mora in terra longe
distante dos meus amado.
Estas lágrimas qui choro
derramadas no teu chão
mais priciosas do que o ôro
não são lágrimas de chôro não
não são salgadas nem dôce
não são brancas são vermêa
cumo as brasas qu’incendêa
a foguêra de São João
priciosas são das vêa
lágrimas do coração.

Ouça ao lado a canção gravada pela primeira vez no álbum Árias Sertânicas (1993).

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Canção “Patra Vea do Sertão”, do álbum Árias Sertânicas (1993)

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imagem: André Seiti

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imagem: Andre Seiti

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Na Quadrada das Águas Perdidas

Da Carantonha mili légua a caminhá
Muito mais, inda mais, muito mais, inda mais
Da Vaca Seca, Sete Vage inda pra lá
Muito mais, inda mais, muito mais, inda mais
Dispois dos derradêro cantão do sertão
Lá na quadrada das água perdida
Reis, Mãe-Sĩora
Beleza isquicida
Bens, a lagoa arriscosa função
Ô Câindo chiquera as cabra mais cedo
Aparta os cabrito mi cura Segredo
Chincha Lubião, esse bode malvado,
Travanca o chiquêro
Ti avia a cuidá
Alas qui as polda di Sheda rincháro ao lũá
Na madrugada suadas de medo pra lá
Runcas levando acesas candeia inlusão

Da Carantonha mili légua a caminhá
Muito mais, inda mais, muito mais, inda mais
Mil badaronha tem qui tê pra chegá lá
Muito mais, inda mais, muito mais, inda mais
Sete jinela sete sala um casarão
Laço dos Môra
Varge dos Trumento
Velhos Domingos
Casa dos Sarmentos
Moças, sĩoras
Mitriosa função
Dá pressa in Guilora a ingomá nossos terno
Albarda as jumenta cum as capa de inverno
Cuida as ferramenta num dêxa ela vê
Si não pode ela num anuí nois í
Onte pr’os norte de Mina o relampo raiô
Mucadim a mãe-do-ri as água já tomô
Anda muntemo o mondengo pra nois í pra lá

Da Carantonha mili légua a caminhá
Muito mais, inda mais, muito mais, inda mais
Mil badaronha tem qui tê pra chegá lá
Muito mais, inda mais, muito mais, inda mais
Sete jinela sete sala um casarão
Lá na quadrada das água perdida
Laço dos Môra
Beleza isquicida
Reis, Mãe-Sĩora
Varge dos Trumento
Velhos Domingos
Casa dos Sarmentos
Lá na quadrada das água perdida
Laço dos Môra
Beleza isquicida
Reis, Mãe-Sĩora
Varge dos Trumento
Velhos Domingos
Casa dos Sarmentos
Lá na quadrada das água perdida

Ouça ao lado a canção gravada pela primeira vez no álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978).

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Canção “Na Quadrada das Águas Perdidas”, do álbum Na Quadrada das Águas Perdidas (1978)”

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Na foto, Serra da Tromba, Vitória da Conquista (BA) | imagem: André Seiti

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imagem: Juraci Dórea

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imagem: André Seiti