Criador de Coelhos

Em uma sala, dois amigos relembram Vladimir Herzog: Nemércio Nogueira e Luiz Weis, jornalistas que trabalharam com ele nas mídias televisiva e impressa, o descrevem.

Como defini-lo? Luiz tateia termos: “A coragem dele, a determinação, o compromisso…” – até que encontra um mais forte e o enfatiza: “…o engajamento. Vlado morreu porque se engajou”. Nemércio adiciona: “Esse engajamento não era só uma questão política. Era muito do íntimo dele. Ele era minucioso”. Engajar-se, aí, é fazer bom jornalismo.

A conversa continua. “Uma palavra que sempre me ocorre com relação ao Vlado”, segue Nemércio, “é que ele era doce. Ele era uma pessoa meiga. Era muito bom. Gostava de criar coelhos”. A leveza desse retrato contradiz o peso do destino de Herzog? “Ele é um mártir malgrado si mesmo”, conclui, “nunca teve vocação para herói, nada disso”.

“Sim, mas a riqueza da personalidade dele”, reelabora Luiz, “consiste nesse casamento, nesse entrosamento entre o engajamento e a doçura. Entre o jornalista preocupado e o criador de coelhos”. Eis assim o personagem desta seção: o terno e rigoroso Vlado.

Seção de vídeo

Perfil

Um perfil do jornalista Vladimir Herzog, em depoimentos da publicitária Nilce Tranjan, dos jornalistas Luiz Weis e Nemércio Nogueira, da publicitária Clarice Herzog, viúva de Herzog, e de um de seus filhos, o engenheiro Ivo Herzog.

Compartilhe

O Fotógrafo da Família

Vlado era visto frequentemente na companhia de sua câmera fotográfica, tanto em viagens quanto em situações cotidianas em família. Cultivava um olhar poético para paisagens, pessoas e objetos, como é possível ver em alguns registros de sua autoria.

Compartilhe

A Carta do Pai: Destaques na Voz de Milton Hatoum

O site da Ocupação possui uma playlist interativa. Quer saber como usá-la?
Você pode ouvir uma música clicando no botão play (localizado à esquerda do nome de cada música). Pode continuar ouvindo as músicas enquanto navega em outros conteúdos, clicando no botão + (localizado ao lado do botão play) e adicionar as faixas à sua playlist. E pode também interagir com a playlist, clicando no botão com ícone de áudio que aparecerá no canto inferior direito da tela.

Relato de Zigmund Herzog, pai de Vlado Herzog, escrito em 1968.

Milton Hatoum é escritor.

Compartilhe

A Carta do Pai: Texto Completo

São Paulo, 1968

 

Quero deixar ao meu querido filho Vlado a descrição do que aconteceu a nossa família na Segunda Guerra Mundial, da desgraça nossa e de todos nossos queridos parentes, dos perigos que passamos até alcançarmos a liberdade e, finalmente, da nossa emigração para o Brasil.

No dia 27 de março de 1941 soubemos que o príncipe-regente Paulo e o Primeiro-Ministro Markovitch tinham sido depostos em Belgrado, após terem feito um pacto com Hitler, assegurando a este facilidades, pondo nossas estradas de ferro a sua disposição, para que suas tropas, através da Iugoslávia, pudessem, sem impedimento, chegar à Grécia, país que aquele maníaco pretendia invadir. A Grécia, até então, tinha conseguido defender-se dos ataques que vinham do lado dos italianos.

A deposição destes dois homens públicos e a aniquilação do seu pacto vergonhoso foi obra de nossos militares, pois estes sabiam que a invasão pelos alemães significaria o fim da Iugoslávia. A colaboração entre as hordas nazistas e a quinta-coluna alemã em nosso país seria o fim do nosso povo.

No início reinava grande satisfação e alegria, mas a maioria do povo sabia que dias negros haveriam de vir. Todos os homens até cinqüenta anos de idade foram mobilizados. Entre os chamados, além de mim, estavam teus tios Fritz e Albert. Felizmente ficamos na caserna de nossa cidade, Banja Luka. Mandaram-me para a administração do hospital militar, onde eu já tinha trabalhado durante a Primeira Guerra Mundial; eu tinha então dezessete anos ao ser recrutado e fiquei de 1916 até 1919 em serviço ativo.

No dia 6 de abril de 1941, o rádio anunciava que Hitler tinha declarado guerra à Iugoslávia às oito da manhã, mas às seis da madrugada nossa capital, aberta e indefesa, já estava sendo bombardeada. Era domingo. O povo estava cedo nas ruas para ir à missa e depois aproveitar o dia livre. Conseqüentemente, houve muitas vítimas do bombardeio. Falava-se em trinta mil, entre mortos e feridos.

Sabíamos todos, então, o que nos esperava. Tinha chegado o momento em que só Deus sabia o que aconteceria conosco, até que os nazistas fossem vencidos e expulsos. Na tarde do mesmo dia apareceram no céu os caças, vindos da Áustria ocupada, para metralhar nossas tropas que se achavam no campo aberto da caserna de Banja Luka. Por conhecermos a tática dos alemães, sabíamos que logo após o metralhamento viriam os bombardeios. Por causa disso, seu tio Poli, ainda na mesma tarde, pegou vovó Gisela, tia Frieda com a pequena Lea, sua mãe e você para levar todos de carro a Joschavka, lugarejo a 28 quilômetros de distância, como já havia sido combinado anteriormente, para casa de uma professora, Vilma, freguesa de nossa loja. Muitas vezes ela tinha oferecido sua residência para casos de emergência.

Dias sombrios envolveram a cidade de Banja Luka. Os bombardeiros vieram com suas cargas nefastas semear a destruição sobre casas, escolas e igrejas, matando civis de todas as idades. Um dia foi-me dada permissão para deixar a caserna e fazer uma visita ao vovô Moritz, meu pai, que ficou em casa, na cidade. Mal cheguei quando as sirenes começaram a uivar, avisando do perigo, pois o inimigo estava se aproximando. Neste instante, os tios Fritz e Poli estavam em casa. Vovô Moritz achava-se fora da cidade. Fui imediatamente à rua, enquanto os tios ficaram dentro de casa. Atrás de mim já ouvi a explosão das primeiras bombas. Corri em direção ao ginásio, mas antes entrei na casa de um velho conhecido nosso, que muito tempo atrás tinha sido aprendiz de vovô Moritz. Sua casa ficava escondida embaixo de árvores enormes, de maneira que não se notava do alto.

Meus irmãos, Fritz e Poli, no instante em que tentaram deixar a casa, viram uma bomba espatifar-se na casa bem ao lado da nossa, numa loja de secos e molhados que foi completamente destruída. Foi nossa sorte a bomba ter vindo do outro lado da casa, poderia ter atingido a nossa. Todos os vidros de nossas janelas e das casas em volta quebraram com o deslocamento de ar. A casa do tio Albert e de tia Frieda, um pouco mais para baixo, na mesma rua, também ficou intacta. Naturalmente ficamos todos apavorados com os bombardeios. Durante este mesmo ataque, a tia Serina com seu netinho foi refugiar-se no porão de sua casa, onde pensou estar segura a ali ficou soterrada entre os escombros. Morreram ela e o neto.

A estas alturas, todo o pessoal militar da caserna deixou a cidade para fixar-se mais longe, em direção a Sarajevo. Muito dentre eles vestiram roupa civil, voltando para a sua casa, o que também nós três irmãos fizemos. Tudo estava acéfalo, não havia como combater os invasores. Reinava grande confusão, até que a quinta-coluna de alemães fez anunciar que a qualquer momento as primeiras tropas do exército de Hitler pudessem chegar. Infelizmente, esse dia desolador amanheceu e, se não me engano, foi em 16 de abril. Na parte da manhã, grandes colunas de tanques de assalto entraram na cidade, abrindo caminho, continuando viagem. Imediatamente após a chegada do inimigo, surgiram os homens da colônia alemã do nosso país — a quinta-coluna por excelência, uma vez que falavam corretamente nossa língua e conheciam nossos costumes. Apareceram também os “pavelitcheski” (o líder dos croatas chamava-se Pavelitch) e não faltaram os Krstachi, uma seita religiosa croata que usava uma grande cruz no peito, todos trabalhando, a todo vapor, ao lado dos inimigos.

Já em 12 de abril, um tal de “Estado Croata Independente”, incluindo Bósnia-Herzegovina, tinha sido proclamado. O quartel-general dos Ustachi, correspondente à Gauleitung do inimigo, instalou-se em Baja Luka, sendo o Gauleiter um advogado de nome Victor Gutitch que era um bêbado inveterado, sujeito desclassificado como o eram muitos daqueles colaboracionistas que nada tinham a perder, sem escrúpulos e servis aos novos donos. Victor, com seus ajudantes, logo iniciou um trabalho sangrento e bárbaro. Dois dias após serem empossados, as recém-instituídas autoridades dos ustachi nomearam comissários para todas as lojas e estabelecimentos pertencentes a judeus; confiscaram os bens destes, mobiliários e imobiliários, em proveito do tal Estado Croata Independente.

Os proprietários judeus eram obrigados a continuar dirigindo seus negócios junto ao comissário que nada entendia do ramo. Nunca esquecerei o instante em que o bom vovô Moritz chorou. Mas era tarde demais, pois ele vislumbrava que tínhamos praticamente perdido tudo que possuíamos. Bem que ele tinha sido aconselhado antes pelo tio Fritz para liquidar tudo e deixar o país com o restante da família.

O comissário de nossa loja era um negociante mulçumano falido, que também se tinha colocado ao lado dos croatas. No dia anterior esteve nos visitando, acompanhado pelo antigo prefeito e ele gostou bastante da loja bonita, calculando já, no íntimo, que seria uma boa oportunidade para abastecer-se de tudo que havia de mais fino e de boa qualidade. Então a situação passou a ser a seguinte: eu, proprietário deserdado, fui obrigado a trabalhar junto aos empregados, o dia todo, mas a minha situação era pior. Eles, pelo menos, receberiam seus salários; eu precisei trabalhar de graça. Que ironia do destino! De noite, o comissário levava a féria do dia embora, para entregá-la à Gauleitung. Naturalmente, ele quis pôr de lado algo para si próprio, não podendo fazê-lo sem que eu o percebesse e assim viu-se obrigado a ceder-me uma parcela do que surrupiava e que, de direito, era nosso, da família.

Este foi o começo de uma existência incerta; mas coisas bem piores ainda estavam por acontecer. Como já mencionei, vovó Gisela, tia Frieda, sua priminha Lea, mamãe e você estavam em Joschavka. De algum modo inexplicável, as autoridades souberam do seu paradeiro. Sempre desconfiei que foi nosso empregado Alija quem revelara o segredo. Dois ou três dias após a chegada do inimigo, agentes da polícia foram até onde vocês moravam, liderados pelo famigerado detetive Tomitch, apelidado “cão sanguinário”, para submeter vocês a uma investigação sob o pretexto de que vocês tinham escondido ouro e jóias. Ninguém pode imaginar o medo e o pavor das mulheres, principalmente da querida vovó. Tomitch a interrogou para ver se ela não cairia em contradição. Tia Frieda e sua mãe por um esforço sobre-humano conseguiram ficar calmas salvando a situação. Depois desse incidente, vovó Moritz foi buscá-los trazendo vocês novamente para dentro de casa, já que o perigo dos bombardeios não mais existia, no país invadido e ocupado.

Apenas alguns dias após sua volta, apareceram uns oficiais alemães para requisitar nossas moradias, tanto a dos avós, de três cômodos como a nossa, de dois cômodos. Avisaram-nos que dentro de trinta minutos teríamos que deixar os recintos. Foi-nos permitido levar somente nossa roupa de vestir, tendo que deixar todo o resto “no lugar onde se encontrava naquele momento”. Nosso pedido de deixar, pelo menos, o apartamento menor para as duas famílias foi em vão. Como eram em número de dois, os oficiais brutalmente nos negaram esta opção.

Ficou-me na memória, principalmente, o cinismo do tenente Dr. Koch, originário de Darmstadt onde, na vida civil, era funcionário do museu da cidade. Foi a primeira vez que você, coitadinho, defrontou-se com a maldade gratuita e com a injustiça dos mais fortes contra os mais fracos. No começo de sua existência, você acreditava que todos os homens fossem bons como aqueles que o cercavam nos primeiros quatro anos de vida. Agora você estava sendo uma das vítimas do ódio racial, antes mesmo de saber o significado de ódio e de raça. Fitava, com seus grandes olhos verdes, aquela ordenança de uniforme, plantada em frente à mãe, apontando a baioneta para a rua, gritando: “raus” – fora!

Sua mãe implorava para que lhe dessem um pouco mais de tempo, você estava doente, com diarréia. Você sempre foi franzino, adoecendo facilmente, mas o militar pouco se importava com isso. Para ele nós não éramos gente. Onde acharíamos um lugar para descansar nossas cabeças cansadas? Era um dia chuvoso de primavera. O querido vovô Moritz convalescendo de uma enfermidade. Trinta minutos somente para arrumar as malas. Soldados já estavam chegando, a trazer os pertences do Dr. Koch. Ouvimos as observações que faziam entre eles. Um deles disse a vovó Gisela:

— Considere-se feliz, ainda. Na Alemanha quebramos e queimamos tudo o que os judeus possuíam.

Esses soldados eram os típicos seguidores nazistas que aprenderam a fundo os ensinamentos de seu mestre, Hitler. Prepotente, como era grande parte desse povo, quando encontrava mais fracos a sua frente, Dr. Koch disse a sua ordenança:

— Se não forem executadas as ordens como mandei, ainda me resta o uso do revólver para esse pessoal.

Depressa colocamos tudo o que foi possível em malas e ficamos com estas parados na entrada do prédio a nos perguntar:

— O que faremos agora? Para onde nos dirigir?

Você chorava, enfraquecido pela diarréia, não querendo deixar sua casa. Quase não parava em pé. Como explicar a uma criança o que houve? Como explicar mesmo hoje? Nem um brinquedo podíamos levar. Quem pensaria em brinquedo numa hora dessas?

Os avós, expulsos de seu apartamento, foram chamados para viver com a família do rabino. Nós três ficamos alguns dias com os Baum, no segundo andar de nosso prédio, e depois fomos morar com os Rosner.

Poucos dias depois, as novas autoridades chamaram os tios Albert, Poli e Fritz juntos com outros homens da comunidade judaica: comerciantes, advogados e um dentista, para executar trabalhos forçados. Durante o bombardeio pela aviação alemã, a igreja ortodoxa tinha sido atingida. Era uma igreja maravilhosa, imponente, em estilo bizantino, bem no centro da cidade. Sempre tinha sido um osso atravessado na garganta dos croatas como tudo que pertencia ao povo sérvio. Por isso deram ordem para demolir a igreja completamente, ao invés de mandar restaurá-la. Os croatas quiseram assim atingir a alma dos sérvios, mostrando-lhes que seus amigos judeus foram destacados para executar o trabalho vandálico de acabar com aquela casa de Deus. Não foi tarefa fácil, pois nenhum de nós estava acostumado ao serviço pesado. À noite, os homens em casa alquebrados, exaustos, sempre a interrogar-se: “O que será de nós, amanhã?”

Paralelamente à perseguição aos judeus, também começou a pior perseguição e a matança bestial dos sérvios pelos ustachi. O primeiro a ser morto de maneira cruel foi o Pope sérvio, Vladica Platon. Depois foi a vez do nosso vizinho Churchia, dono de um restaurante e de centenas de outros sérvios. Foram encarcerados, à noite, levados à beira do rio Vrbas, onde suas mãos foram amarradas com fios e depois foram fuzilados e jogados ao rio. A mesma desgraça abateu-se, pouco tempo depois, sobre os sacerdotes sérvios. Se não me engano, foi em fins de maio. À tarde, grandes caminhões repletos de sacerdotes sérvios atravessaram a cidade, escoltados por ustachi, armados até os dentes. Estes tinham dito aos sacerdotes que seriam transferidos para um lugar nas imediações e de lá despachados a Belgrado. Porém, o que foi que essas feras fizeram? Alinharam os coitados à margem do rio Vrbas, mataram-nos e os jogaram ao rio, com a observação cínica que, desse modo, iriam viajar para Belgrado. Nunca esquecerei a visão dos caminhões com as vítimas inocentes passando perto de mim.

Centenas de outros sérvios foram despachados, em vagões de gado, para Belgrado. Foi-lhes permitido levar somente o estritamente necessário, todo o resto do que possuíam foi confiscado em benefício do sempre citado Estado Croata Independente. Ao despachar esse gado humano, a que infelizes estava reduzidos, houve cenas dilacerantes. Mulheres com criancinhas que tinha levado água ou leite em garrafas térmicas — porque depois de cheios, os vagões seriam lacrados — foram despojadas de suas garrafas e, ao quebrar estas, os ustachi gritavam:

— Que morram todas essas crianças.

Fuzilamentos e enforcamentos de sérvios pelos croatas tomaram grande impulso, sendo o instigador principal o Gauleiter Victor Gutitch. Seu irmão, Blaz, era chefe de polícia, e assim lhes foi possível trabalharem juntos. Os dois pagaram depois com suas vidas, como muitos outros pagaram, mesmo quando tentaram declarar-se inocentes ao cair na mão dos “partisans”. Costumavam chorar, dizendo ter somente cumprido ordens. Nos momentos de perigo próprio, esses indivíduos, iguais aos seus mestres nazistas, não passaram de grandes covardes, como se soube mais tarde. Acharam-se uns heróis ao matar, de maneira bestial, pessoas indefesas, mas depois nunca quiseram assumir seus atos.

Após nossa família ter ficado acomodada com os Rosner, por duas semanas, mudamos para a casa dos Schnitzler. Eles tinham uma menininha adorável, de dois anos, de nome Mirka. Cederam-nos um quarto, ficando a cozinha para uso comum. Como você não tinha mais brinquedos, divertia-se, em casa, com botões e outros apetrechos do gênero. Às vezes, quando você passava em frente a nossa antiga moradia, você se escondia atrás de sua mãe e perguntava:

— Ali ainda moram homens maus?

E sua querida mãe ficava triste quando pensava em tudo que deixou em nosso apartamento, talvez perdido para sempre. Tudo que representava o lar, o aconchego, a tradição, a segurança. Os novos ocupantes pouco se importariam em cuidar, em preservar móveis, cobertores, roupa de cama e mesa, cristais, talheres, prataria, peças sólidas que eram para durar por várias gerações.

Uma vez por semana, sua mãe tinha que ir trocar a roupa de seu próprio enxoval, confeccionado peça por peça, desde seu tempo de mocinha. Trocar, lavar e passar, para que o senhor tenente Koch pudesse dormir em lençóis limpos. Levar e trazer, como se fosse empregada dele. Foi feita essa exigência para humilhar mais ainda os que pertenciam à “raça inferior”. Era normal que estes servissem de criados aos futuros donos do mundo, arianos puros que pretendiam ser. Enquanto sua mãe trocava a roupa de cama do tenente, era vigiada por um soldado para que não levasse nada do que lhe pertencia daquela casa. Era como se jamais tivesse sido dona das coisas, como se ela fosse uma mulher de limpeza que não merecia confiança. Chorava de desgosto quando vinha para o quarto onde morávamos. A despensa no antigo lar estava cheia de vidros de conservas de frutas e legumes que sua avó de Osijek tinha mandado à filha para que não faltasse nada ao netinho. Ficaram para o oficial Koch.

No apartamento maior, do mesmo andar, onde um major alemão se tinha instalado na moradia de meus pais, também sua mãe foi obrigada a trocar a roupa de cama. Esse major não resistiu à tentação de apropriar-se das coisas bonitas que havia. Logo tirou o que encontrava de mais fino e valioso, despachando-o para sua própria casa, na Alemanha. Numa vitrine havia antiguidades, trabalhos de artesanato, bordados, gobelins e rendas preciosas. Tudo agradava aos olhos do major e logo sumia de onde estava. Também ali a despensa, cheia de reservas alimentícias, foi logo pilhada. O que se podia fazer? Era a força bruta contra o simples direito do cidadão.

Em fins de maio sua querida mãe viajou com você para ver como estavam os avós maternos e outros parentes em Osijek. Para fazê-lo, ela precisava de uma permissão especial dos ustachi, pois era proibido sair da cidade sem aviso. Vocês fizeram o trajeto de noite, num trem de carga.

A situação naquela cidade era parecida à nossa, com a diferença de os familiares de Osijek ainda continuarem em suas próprias moradias. Depois, sua mãe muitas vezes lembrou aqueles momentos. Era véspera de schavout, festa religiosa, e sua vó tinha feito um barches. Sua tia Hilda, irmã de mamãe, que também morava em Osijek, participou da reunião e, para felicidade de todos, no dia seguinte chegou tio Robi que tinha sido feito prisioneiro de guerra na Bulgária. Como ele era residente da Croácia, foi libertado. Mamãe não imaginava que ali estivesse vendo a maioria de seus parentes pela última vez. Aliás, somente o tio Robi se salvaria. Um ano depois, todos os outros tinham sido exterminados, em campos de concentração.

No começo de junho, vovô de Osijek ainda nos fez visita inesperada, a última, Nunca esquecerei sua calma e sua confiança num futuro melhor. Disse-nos: “Se Deus quiser, tudo acabará bem. Não desanimem, não percam a cabeça!”

Infelizmente, por causa do sacrifício que fez, não querendo abandonar a congregação israelita de sua cidade, ele também tornou-se uma das vítimas do nazismo. Teria tido oportunidade de deixar o país e de salvar-se da morte junto com sua família, mas sempre enfatizou que não podia pensar em si, em detrimento da congregação. Ficou e morreu com ela.

No fim de junho de 1941, o Estado Croata Independente se arrogou o direito de vender, como se fosse de sua propriedade, a nossa loja a um “Volksdeutscher”. O nome do comprador era Josef Bloms de Aleksandrovca, perto de Banja Luka. Ele comprou a loja para seu filho Rudi, que havia aprendido o ofício conosco. Devo confessar que Bloms fez essa transação muito a contragosto, pois o procedimento ilegal não condizia com sua índole e com seus princípios de honradez. Ele e sua família tinham sido fregueses nossos durante quarenta anos e vovô Moritz os tinha ajudado muito, como tinha ajudado a outros Volksdeutsche. Mas Bloms, após muita insistência de nossa parte, fez a compra, entregando o valor correspondente aos ustachi. Vovô Moritz pensou que fosse possível, com sua ajuda, receber pelo menos algum pagamento e que Josef evitaria que a mercadoria fosse vendida muito depressa. Naquela hora, meu pobre pai ainda pensava reaver sua loja um dia.

A guerra ia se alongando e para os nossos queridos tudo acabou tragicamente. No intuito de oprimir os judeus ainda mais, estes foram chamados à delegacia de polícia. Ali lhes foi entregue a “estela dos judeus”, uma estrela de Davi, amarela, de doze centímetros, de tecido, com a letra “J”

em preto no meio que deveria ser usada por homens, mulheres e crianças, pregada na roupa, bem visível, no peito do lado esquerdo. Deste modo queriam carimbar-nos para que fôssemos facilmente identificáveis, como gado marcado.

Em fins de junho, os ustachi começaram a prender os judeus e um dia vieram buscar tio Albert para encarcerá-lo, sem explicações nem acusação. Somente naquela hora percebemos, finalmente, que o perigo de morte pairava sobre nós. Conhecidos nossos, sérvios bem informados, que tinham pena de nós, vieram avisar para que fugíssemos pois logo viria uma ordem para que fôssemos para o campo de concentração.

Várias famílias judias já tinham ido embora, deixando para trás tudo que possuíam. Os tios Poli e Fritz tentaram fugira via Sarajevo, até Split, região ocupada pelos italianos, mas não conseguiram. Chegaram até Metcovitsh, pequeno porto, sendo obrigados a regressar. Durante a viagem foram regiamente despojados de seus pertences, além de quase morrerem de medo. Depois disso decidimos que toda a família teria de fugir para o território ocupado pelos italianos, pois ouvimos dizer que muitos o fizeram e que as autoridades italianas não lhes criaram dificuldade.

Meu cunhado, Albert, ainda estava preso. Com a ajuda de pessoas influentes conseguimos sua soltura e, em vinte e quatro horas, achamos quem nos levasse além da linha sob influência alemã. Era um oficial alemão que fazia o trafico de refugiados, nas horas vagas. Cobrava, fazia-se de salvador, enriquecendo sem sujar as mãos que, de tanto lavar, ficaram alvinhas. O plano falhou em parte.

Empregamos quase todo o dinheiro que nos restava para subornar esse oficial. Ele veio de Zagreb com o automóvel para buscar-nos. Na primeira viagem foram-se tio Poli, tia Frieda e a pequena Lea. Chegaram bem em Ljubljana. No dia seguinte, 1º. de agosto, o carro voltou e, desta vez, fomos nós três e tio Albert. Durante o trajeto até Zagreb tivemos um acidente. O oficial alemão e seu chofer tinham bebido além da conta. Em conseqüência abalroaram um veículo militar alemão, um desses carros-socorro para viaturas militares, jogando-o numa valeta. Esse incidente seria a causa do fim trágico dos queridos avós, meus pais.

Quando vimos que nosso carro tinha derrubado uma viatura do exército alemão, entreolhamo-nos, dando nossa vida por acabada. Mantivemos calma enquanto o oficial conseguia, aparentemente, contornar o perigo da situação. Mas os ocupantes do outro veículo devem ter percebido que ele estava bêbado em pleno dia de serviço.

Levou-nos até Zagreb. Ali nos instalou num quarto da casa de um de seus cúmplices, prometendo que voltaria, na mesma noite, para trazer os vovós de Banja Luka. Na manhã seguinte, às cinco horas, os dois velhinhos chegaram. O oficial prometeu que ainda na mesma noite iríamos todos juntos com ele prosseguir viagem até Ljubljana. Nossas malas tinham sido deixadas na secção de guarda-bagagem da estação ferroviária pois o oficial as tinha despachado por trem, ficando ele com os respectivos comprovantes em seu bolso.

As horas nos pareciam intermináveis até que pudéssemos continuar viagem, pois tínhamos medo que alguém no prédio denunciasse nossa presença como suspeita. À noite esperamos em vão. Amanheceu o dia seguinte mas o oficial não apareceu. Ficamos quase loucos. Você se tornou irrequieto, queria falar, brincar, sair. Eu, nervoso, peguei-o pelo pescoço, sacudindo-o.

— Fique calado; quer que eles nos peguem, que morramos todos?

Sua querida mãe, feito leoa, puxou-me para trás e veio em socorro de você.

— Tire as mãos do menino; ele é criança. Pobre filhinho!

Envergonhei-me do meu gesto. Criança você era, porém nos anos a seguir queríamos que você tivesse a compreensão de um adulto. Era vital.

— Não mexa, não converse, não faça barulho, não pode isso nem aquilo; fique calado! É perigoso! Cuidado com quem estiver falando — Eram as advertências e os conselhos daquele tempo.

Apertei-o contra mim, naquela hora. Você era nossa alegria, nossa razão de viver. A tensão constante começara a deixar nossos nervos à flor da pele.

Deliberamos que era preciso fazer algo para sairmos dessa situação. Sua mãe, a pesar do perigo de poder eventualmente ser reconhecida na rua por algum ustacha de nossa cidade, decidiu ir à procura do oficial alemão. Afinal, ele nos tinha tomado o dinheiro e prometido levar-nos para fora da zona que eles ocupavam. Mãe colocou um chapéu grande e óculos escuros para disfarçar ao máximo. Levou você para casa da tia Lidi, uma nossa cunhada, moradora de Zagreb e depois dirigiu-se a um restaurante onde o oficial costumava tomar as refeições, segundo informação dada pelo nosso hospitaleiro. Lá não o encontrou, mas obteve o endereço de um de seus amigos que talvez soubesse de seu paradeiro. Era uma moradia coletiva, velho prédio esquisito, onde era preciso subir umas escadas estreitas para finalmente chegar ao quarto indicado. Mãe, de fato, lá encontrou o amigo do oficial, de camiseta, estendido na cama, em pleno dia. Imagine a situação de sua mãe — era o ano de 1941 e uma senhora não tinha costume de defrontar-se com desconhecidos em lugares estranhos. O homem a olhou de alto a baixo e disse que tampouco sabia onde o oficial se encontrava. Não o tinha visto naquele dia. Mais do que depressa, mamãe desceu as escadas, suspirando aliviada ao chegar à rua. De lá foi para a sede da Congregação Israelita, onde trabalhava Alfred, marido da tia Lidi, amigo de infância da mamãe.

Após ouvir a história de nosso infortúnio, recomendou como primeira medida de prudência que nos mudássemos para uma pensão por ele indicada, para onde deveríamos ir sem demora. Calculava que o oficial alemão, após o acidente com o carro em que viajávamos, talvez tivesse sumido da região por um tempo ou ter sido chamado por seu superior. Quando finalmente mamãe chegou de volta ao nosso quarto, choramos de alegria. Já tínhamos pensado que algo lhe tivesse acontecido, uma vez que saiu cedo e somente voltou muitas horas depois. Pegamos as mochilas e mudamos para a pensão recomendada.

Ao deixarmos o quarto, o hospedeiro informou-nos que o oficial alemão tinha sido obrigado a viajar, de repente, para Graz. Naquela hora ficou evidente que o trato com respeito à viagem não mais iria ser cumprido.

No dia seguinte, sua mãe voltou à sede da Congregação para pedir conselhos. Alfred foi então pedir na “Gauleitung” — mediante compensação considerável em dinheiro — um laissez-passer para que todos nós pudéssemos viajar para Ljubljana. Quando, à tarde, sua mãe chegou com os documentos vovô Moritz tinha mudado de idéia. Não mais quis continuar viagem conosco. Quis voltar para Banja Luka. Fundamentou sua decisão no fato de ter perdido todas suas malas — pois o oficial alemão ficou com os comprovantes no bolso e não nos atrevemos a tentar retirar as bagagens por conta própria. Desse jeito, ele e vovó ficaram completamente sem roupa. Todos os esforços para dissuadi-los foram em vão. Com a situação mudada, a querida mãe teve que voltar à Congregação, pedindo que Alfred providenciasse documentos para a volta dos dois velhinhos a Banja Luka, documentos estes que recebemos no dia seguinte.

Chegou a hora de nos despedirmos. A mulher da pensão onde estávamos sugeriu que deixássemos você com ela. Você, criança frágil enfrentando um futuro incerto e mil perigos. Ela cuidaria bem de você até… até quem sabe. Mas sua mãe não quis saber de deixá-lo em Zagreb com essa boa alma nem com a tia Lidi que também se ofereceu para tomar conta. Nunca antes, mesmo em tempos de paz, consentira que você ficasse aos cuidados de estranhos — menos agora, em tempos de incertezas.

Quando nos preparamos para ir à estação ferroviária, nossos corações contorciam-se de dor, mas fizemos esforços tremendos para não chorar, chamando talvez a atenção dos transeuntes. Porém não conseguimos conter as lágrimas. Foi o pensamento de deixarmos os avós sozinhos, num país ocupado entre pessoas hostis. O filho da dona da pensão que tinha sido chamado às armas e usava farda foi buscar um carro para nós. Quando já estávamos dentro do táxi, saltei de novo para, mais uma vez, beijar meus pais. Foi um abraço como somente pai e mãe são capazes de dar. Pensei que meu coração fosse destroçar-se, mas controlei-me para não acrescentar maior peso ao já tão carregado coração de meus pais.

Na estão ferroviária foi preciso esperar das 8 às 11 horas da noite, antes de podermos entrar nos vagões. Você não se aguentava de cansaço. Tão logo entramos, começamos a procurar por outros judeus conhecidos nossos, também em vias de deixar a Croácia.

Por acaso sua mãe encontrou uma senhora que concordou em esconder em sua bagagem a nossa última reserva de dinheiro. Enquanto estávamos sendo revistados, ouviu-se uma troca de tiros nas imediações. Sempre as havia entre croatas e pastisans. De repente, um detetive irrompeu em nosso compartimento, uma fera ustacha, revólver na mão, com o qual ameaçava um por um dos que ali estava. Berrou:

— Vocês porcos judeus são culpados disso!

Nós, um punhado de refugiados assustados éramos culpados pelos tiros que se disparavam lá fora! Foi mais um susto aterrorizador. Você, coitado, tremia de medo, querendo sumir nos braços de sua mãe que o apertava contra seu peito fortemente, num esforço instintivo de protegê-lo de todos os males do mundo e dos homens que deixaram de merecer essa denominação. Pensávamos que, a qualquer momento, o ustacha enfurecido fosse atirar em nós.

Finalmente, o tempo passou. O trem começou a rodar. Mal agüentamos esperar o amanhecer, mas quando em Plase descemos, ouvimos dizer que os italianos, já antes de o trem chegar a Suchak, estavam rechaçando os refugiados que, agora, vinham em número cada vez maior. Enquanto estávamos resolvendo como proceder, travamos conhecimento com uma senhora moradora de Suchak que nos explicou direitinho como deveríamos prosseguir viagem até aquela cidade. Ao mesmo tempo ofereceu-nos sua moradia, caso não tivéssemos onde morar. Seguimos o conselho dessa boa mulher. De Plase continuamos viagem de ônibus até Kraljewitza. Chegando lá, fomos novamente revistados. Preciso acrescentar, como fato típico, que sua mãe carregava na mochila um quilo de açúcar em tabletes e que o ustacha de nome Ubek tirou-lhe quase toda a reserva, apesar de a mãe suplicar que a deixasse para você. Como soubemos mais tarde, ele sofreu a devida punição por suas maldades. Pagou com a vida pelos atos de pirataria praticados contra todos aqueles que não tinham meios de se defender.

Não longe de Kraljewitza fizemos a travessia de uma baía, de canoa, e assim chegamos ao território ocupado pelos italianos. De lá precisávamos subir uma serra. Iniciamos a subida. Um rapaz do grupo carregou você nos ombros. Eu carreguei uma mochila e mãe carregou outra. Assim alcançamos, banhados de suor, o cume do monte. Ali soprava um vento gelado, mas ninguém pegou resfriado. Podíamos ver os carabinieri italianos, encarregados da vigilância. Com certeza também nos viam, mas fizeram de conta que não, viraram as costas e marcharam em direção oposta, de maneira que pudéssemos descer correndo, em direção a Suchak.

Chegando lá procuramos o endereço da mulher que conhecemos no trem. Ficamos com ela e sua família uns oito a dez dias. Depois mudamos para outra casa, desocupada, que também lhe pertencia. Não havia móveis e dormimos no chão. O lugar era bom para nós, pois não se encontrava numa rua principal, mas perto do mar, longe das habitações.

O nosso moral não era dos melhores, pois ainda estávamos separados dos nossos queridos parentes que já se encontravam em Ljubljana. Eram tia Frieda, meus dois irmãos solteiros e sua priminha Lea, que tinham sido levados àquela cidade pelo oficial alemão que depois nos abandonou. Assustaram-nos as últimas notícias de que as autoridades italianas começaram a prender refugiados para devolvê-los à Croácia. Um dia, quando íamos almoçar, encontramos na rua, por acaso, o tio Robi com seu amigo Hermann, que também tinham conseguido chegar até onde estávamos. Nossa alegria foi tão imensa que nem posso descrevê-la, mas infelizmente durou pouco, pois um dia o tio foi preso na rua — ele não mais possuía documentos — e foi despachado, junto com seu amigo, de volta à Croácia. Uma vez lá chegando, dirigiu-se imediatamente a Osiek e assim os queridos pais da mamãe ficaram sabendo que estávamos a salvo, tendo perdido todos nossos pertences.

Conseguimos estabelecer contato com nossos familiares em Ljubljana. Mandaram instruções para que fôssemos até um certo ponto na floresta, onde um guia viria encontrar-se conosco para continuarmos. Conseguimos viajar até o lugar indicado, mas não havia ninguém a nossa espera. Horas agonizantes. Havia um casebre abandonado. No chão, para dormir, sacos de palha de milho. Sua mãe o deitou ali. Ouvimos um sussurro e quando olhamos melhor, na penumbra, vimos você coberto por centenas de pulgas. Nossas mãos e pés, cheios de pulgas e você, pobrezinho, dormindo de exaustão com pulgas e tudo. O que fazer?

Amanheceu. Tio Albert, cuja mulher e filha já estavam em Ljubljana, decidiu continuar a caminhada sozinho. Nós, porém, com você, tivemos medo. Havia fascistas, aqueles com o capuz preto, que faziam a ronda na região, procurando os que tentavam fugir da Croácia. Se eles nos pegam? Mas tio Albert não se deixou influenciar. Foi embora a pé. Mãe, eu e você voltamos para a estrada, pegamos o ônibus e retornamos a Suchak.

Novamente, por intermédio de um conhecido, comunicamo-nos com nossos queridos em Ljubljana. Meus irmãos de lá avisaram: vocês podem ir até o lugar combinado. Desta vez as coisas darão certo. Soubemos que tio Albert tinha logrado atravessar a floresta sem encontrar ninguém, reunindo-se com mulher e filha.

De novo tomamos o ônibus. Houve fiscalização no meio do caminho, mas o bom Deus nos protegeu, não exigiram documentos. O controle era somente para verificar se as pessoas da região que tinham ido à feira não traziam mercadorias para vender no mercado negro. Descemos do ônibus no lugar combinado. Dirigimo-nos a um restaurante, cujo dono já tinha instruções a nosso respeito. Tomamos outro ônibus e finalmente chegamos a Ljubljana. No ponto final, seus tios e sua tia já estavam esperando por nós. Falei-lhes em voz baixa como tinha adquirido o costume, mas um dos meus irmãos disse, alegremente:

“Aqui você pode falar alto, mover-se sem medo. Ninguém vai persegui-lo; estamos sob proteção italiana”.

Tivemos sorte. Conseguimos arrumar um bom quarto com direito à cozinha, na moradia de um esloveno, sargento que fora freguês da nossa loja durante muitos anos. Tinha sido transferido de Banja Luka para Ljubljana pouco antes do começo da guerra. Não pudemos ficar morando por muito tempo com eles, pois a mulher estava esperando bebê e eles precisariam do quarto. Não quiseram aceitar nenhum pagamento pela hospedagem.

Na casa onde meus irmãos acharam alojamento (a dona era amiga de infância do tio Fritz) nós também arrumamos um quarto, no andar térreo, com uma viúva e suas duas filhas. O inverno daquele ano era de rachar. Por azar, tive um abscesso na garganta e precisei ser operado.

Em Ljubljana, cidade iugoslava sob ocupação italiana, estávamos a salvo da perseguição racial dos nazistas, por enquanto. Cidade cheia de refugiados como nós, passando seu tempo propagando novidades, boatos e sustos. Fomos informados que era preciso apresentar-se à Prefeitura para regularizar a situação. Felizmente, obtivemos permissão para ficar, mas outros refugiados foram mandados de volta à Croácia como foi o tio Robi, quando preso sem documentos em Suchak.

Era praxe, nos países civilizados da Europa, durante a guerra, agregar os cidadãos civis de países inimigos, residentes permanentes ou refugiados, em campos de campanha, cercados, onde eram vigiados, vivendo em barracas coletivas de madeira, sendo alimentados por cozinhas militares, três vezes ao dia. Os italianos haviam criado uma segunda modalidade, o “confino libero”, liberdade sob vigilância, privilégio concedido a muitas famílias, principalmente às com crianças.

A preocupação dos italianos com os “bambini” não se alterou em tempos de guerra, bem pelo contrário. As mulheres italianas sentiram-se mamma também das crianças refugiadas.

Na Prefeitura de Ljubljana foi nos dada uma lista de cidades italianas para que escolhêssemos o lugar para onde mudar-nos. Um dos meus irmãos lembrou se haver permanecido, durante a Primeira Guerra Mundial, em uma localidade nos Dolomitas chamada Fonsasso, Província de Belluno. Rumamos para lá, quatro famílias conhecidas entre si, enquanto outras se instalaram em cidades vizinhas. Fomos bem recebidos pela população. Na primeira semana, o padre chamou seus fiéis à igreja, à noite, fazendo-lhes um sermão especial. Explicou que os forasteiros, vindos morar em Fonsasso temporariamente, perderam tudo que possuíam, correndo para salvar nada mais que a vida.

— Tiveram que deixar sua pátria, suas casas, seus velhos pais. São pessoas iguais a nós, ou talvez melhores. Todos nós temos que ajudá-los da melhor maneira possível, cada um segundo suas possibilidades.

Pudemos escolher uma moradia entre várias acomodações, indicada pela Prefeitura. Decidimo-nos por um quarto com cozinha numa casa de cômodos e recomeçamos a vida, à espera do fim da guerra. Recebemos subsídio de cinqüenta liras para o aluguel e mais uma diária de 9 liras por homem, 6 por mulher e 4 por criança.

Nosso locador criava coelhos. Para você isso foi uma grande alegria. Sempre na hora de os bichinhos serem alimentados, você assistia à distribuição, feliz da vida ao segurar um dos fofinhos nos braços. Os pedreiros também costumavam levar você a passeios. Acharam-no educado e muito afetuoso.

Os nossos homens eram obrigados a apresentar-se aos carabinieri duas vezes por dia, dizia o regulamento. Mas na prática era uma formalidade que ninguém levava a sério. Nenhum de nós, por vontade própria, iria afastar-se daquele ambiente acolhedor.

Na primavera europeia de 1942, sua querida mãe fez um pedido para que o irmão dela, tio Robi, que ainda se achava em Split, na Iugoslávia, pudesse juntar-se a nós. Teve muita sorte em conseguir chamá-lo, pois somente era possível fazer pedido para os parentes mais próximos que se encontravam em território iugoslavo sob ocupação italiana. Quando tio Robi chegou, escrevemos logo aos vovós em Osijek para que soubessem que também seu único filho homem tinha conseguido salvar-se.

Robi aprendeu a fazer crochê, ajudando a querida mãe durante grande parte do dia a confeccionar luvas, encomendadas pelas irmãs de um convento que tinham contrato de fornecimento com os fabricantes da região. Mãe também cozinhava e eu cuidava dos afazeres domésticos, fazendo compras de mantimentos e entrega das luvas prontas.

Com Robi contribuindo para o modesto orçamento familiar, tivemos condições de alugar uma moradia um pouco maior, na casa de uma senhora de nome Margarita, que foi para nós uma mãe. Logo gostou de você. E quem não iria gostar de você, meu filho?

Perto do cemitério local havia um bom terreno que, por motivos de superstição, ficou sem uso pela população. Nenhum dos nativos quis plantar lá. O dono perguntou se queríamos fazer a nossa horta ali, o que aceitamos com prazer. Robi começou a limpar, semear, cuidar, e você, com muito entusiasmo, o ajudava na tarefa. Colhemos, depois, tomates bonitos e toda espécie de hortaliças que mamãe usava para complementar nossas refeições.

As famílias refugiadas eram benquistas. A população da Fonsasso tinha pena de nós. O secretário do partido fascista, pai de vários filhos, conversava com a gente. Gostava de você, pois era muito ligado a crianças. Vinha nos visitar freqüentemente, trazendo doces e balas, sempre perguntando se podia ajudar-nos em algo, apesar de saber que éramos hebreus. No natal trazia uma braçada de presentes. Fizemos amizade, entre outras, com uma família do local, proprietária de uma grande serraria. A mulher, principalmente, foi muito delicada e prestativa. Mãe a ajudava a preparar conservas de frutas e legumes, como era comum fazer na Europa. Não sei se hoje em dia ainda se faz. No verão e no outono, as donas-de-casa enchiam dúzias de vidros com compotas, geleias, verduras cozidas que eram guardadas para os meses de inverno.

Para certos produtos alimentícios racionados recebíamos cupons mensais como os recebiam os outros moradores de Fonsasso. O pão era um dos itens relacionados. A mulher do padeiro, achando você muito magrinho, tirava da gaveta do marido alguns cupons, já recolhidos de outros clientes e nos dava para que pudéssemos receber, para nosso bambino, um pouco mais. Sempre o dividimos com dona Margarita.

Temos as melhores lembranças dessa gente italiana de tão grande coração. Nossa família levava uma vida difícil, como milhares de outras, mas éramos felizes, em relativa segurança e liberdade. Não mais tínhamos notícias de nossos parentes na Iugoslávia, mas pensávamos que fosse devido às dificuldades de comunicação a partir de setembro de 1942.

Havia leite à vontade. Às vezes íamos às aldeias vizinhas comprar farinha de milho e ovos. Estávamos tão acostumados a contentar-nos com pouco que nunca nos veio a idéia de queixar-nos. Estávamos satisfeitos e agradecíamos a nosso Criador. Quando veio o inverno, nós, homens, íamos cortar lenha para ganhar uns trocados ou recompensa em mantimentos.

Sua querida mãe aprendeu a preparar polenta de todas as maneiras, para nossa refeição principal. Era um prato de resistência, nutritivo e gostoso. Aprendeu, também, a fazer bolos com farinha de milho. Não passamos fome e não tivemos medo das pessoas que nos rodeavam. Você, finalmente, começou a engordar — em termos — e a desenvolver-se. Antes obrigado a ficar quieto semanas a fio, impedido de gritar, de correr, você estava agora com bochechas, as pernas queimadas e firmes. Podia brincar na rua com outras crianças, mas assim mesmo ficou um pouco diferente das demais. Você havia passado tantos sustos, recebido tantas proibições e recomendação que já não era igual às crianças despreocupadas que tinham crescido juntas naquele lugar pacífico.

No convento, para onde fornecíamos as luvas de crochê, havia um jardim de infância para onde mamãe o levou. Quando quis colocar-lhe, no primeiro dia, o avental que todos lá usavam, você chorou:

— Não quero avental, não sou menina.

Depois acostumou-se. Era para proteger a roupa de casa.