Pertencer à ciranda

É comum associarmos a palavra ciranda àquela brincadeira de crianças que cantam, brincando enquanto fazem uma roda. No entanto, no Nordeste do Brasil, principalmente em Pernambuco e na Paraíba, a ciranda é uma dança de adultos, que, assim como as crianças, dão as mãos, mas se movem de forma ritmada, marcada pelo som da zabumba. A roda de ciranda não tem preconceito quanto a sexo, cor, idade, condição social ou econômica. Ela começa com uma roda pequena, que vai aumentando à medida que as pessoas chegam para dançar, abrindo o círculo e segurando nas mãos dos que já estão dançando.

Aqui a roda está aberta: abaixo você ouve uma playlist com canções selecionadas de músicos da ciranda. Além disso, acessa conteúdos que detalham saberes da ciranda: um glossário dos seus termos mais importantes, produzido pela jornalista Ana Luiza Aguiar, e vídeos que tratam da sua relação com o carnaval e da relevância dos mestres. Vamos cirandar?

Lia, a rainha da ciranda | foto: Rogério Reis/acervo Tyba

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Vamos cirandar?

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Abra bem os ouvidos

Ciranda é pulso. É o tempo espiralado, circular. Ontem, hoje e amanhã, a gente girando de mãos dadas. Baracho foi o rei, repertório fundamental. Ele colocou a ciranda no “mercado” e incluiu os sopros que permanecem até agora. Dona Duda foi a grande mobilizadora com as suas cirandas na Praia do Janga. Na Mata Norte, esse salto no abismo do improviso segue firme. Novos nomes, poetas, melodistas, instrumentistas. Essa playlist é para a gente abrir bem os ouvidos e deixar a música nos levar. Axé.

por Alessandra Leão

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Glossário da ciranda do Nordeste: os passos

Onda

A forte ligação da ciranda com o mar se faz presente no seu passo mais tradicional. No compasso da música, dá-se um passo à frente com o pé esquerdo, depois dois atrás e mais um à frente, voltando para o centro da roda de novo. No meio, todos levantam as mãos. A roda movimenta-se no sentido anti-horário. Os passos com o pé esquerdo estão sempre em sintonia com a batida forte da zabumba, balançando os ombros de leve no sentido da direção da roda. Com isso, o grupo apresenta um movimento de vai e vem imitando uma onda.

Sacudidinha

O segundo passo mais conhecido da ciranda tem a base similar ao passo onda. Mas, nele, a roda não gira, quem gira é o cirandeiro. Dá-se um passo grande para a frente e um grande para trás. Aí se dão dois passos curtinhos, quase no mesmo lugar, só para alternar o pé que vai dar o próximo para a frente. Após repetir essa sequência três vezes, na hora de dar o passo grande para trás o cirandeiro gira o corpo como se fosse embora e depois dá mais um giro em semicírculo voltando à posição inicial. Ao dar essa volta (dois semicírculos interligados por um passo), o dançante balança os ombros dando uma “sacudidinha”.

Cruzado

Outro passo tradicional da ciranda do Nordeste começa assim: todos dão as mãos e avançam um passo para a direita, cruzando a perna esquerda na frente da direita. Na sequência, a perna direita “descruza” a esquerda também dando um passo à direita. Aí se repete o movimento dos dois passos (sempre no sentido anti-horário), só que desta vez a perna da esquerda cruza por trás da perna da direita.

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Glossário da ciranda do Nordeste: os instrumentos

Zabumba, bombo ou surdo

Instrumento de percussão de som forte e baixo, é tocado pelo contramestre e serve de marcação para a dança dos cirandeiros e cirandeiras.

Ganzá, maracá ou mineiro

Instrumento de percussão semelhante a um chocalho, tem o formato cilíndrico e, geralmente, é recheado de grãos ou pequenas pedras.

Tarol

É um instrumento de percussão da família da caixa, com afinação um pouco mais aguda. Nem todo terno conta com um músico tocando tarol.

Sanfona e instrumentos de sopro

Embora raros, há registros de apresentações de cirandeiros tradicionais acompanhados de sanfonas e instrumentos de sopro, como saxofone, trombone e clarineta.

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Seção de vídeo

O clima da rua

O produtor cultural Roger de Renor fala sobre a relação da ciranda com a rua. E não apenas da ciranda: do carnaval e de todas as tradições que dele fazem parte – a exemplo dos bonecos de Olinda (PE). Roger, aliás, recorda-se de sua experiência carregando a boneca de Lia.

Depoimento gravado em janeiro de 2022, de forma remota.

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Glossário da ciranda do Nordeste: os participantes

Mestre cirandeiro

É o integrante mais importante da ciranda, cabendo a ele ou ela puxar as cantigas, improvisar versos, tocar o ganzá e comandar a brincadeira da roda.

Contramestre

É o músico que toca a zabumba, o principal instrumento da ciranda. Sua marcação dá o ritmo da dança e comanda a roda.

Terno

Conjunto de músicos que é a base de todo grupo de ciranda, é formado pelo mestre, pelo contramestre e por um terceiro instrumentista, que toca o ganzá, conhecido como mineiro. Apesar do nome, nem todos os ternos são limitados a três pessoas. Em geral, a roda de cirandeiros e cirandeiras se forma ao redor do terno.

Cirandeiros e cirandeiras

São todas as pessoas que dançam de mãos dadas ao redor do terno.

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Seção de vídeo

Parceria de ciranda e amor

Toinho Januário, produtor e marido de Lia de Itamaracá, conta como conheceu a artista e relembra o início do relacionamento dos dois.

Depoimento gravado em janeiro de 2022, de forma presencial.

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Toinho e Lia
Toinho e Lia | foto: Ytallo Barreto

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Glossário da ciranda do Nordeste: os célebres

Mestre Santino

Aos 81 anos, mais de 60 deles dedicados à ciranda, Santino é o mais antigo cirandeiro em atividade em Pernambuco. Deu início a sua vida profissional nos engenhos de Nazaré da Mata e das adjacências, como trabalhador rural. Foi assim que mergulhou no universo da cultura local, tornando-se um artista popular e um dos mais conhecidos cirandeiros da Mata Norte. Em 2021, lançou seu quarto CD.

Mestre Antônio Baracho

Natural de Abreu e Lima, também em Pernambuco, Mestre Baracho foi cirandeiro e mestre de maracatu. Era conhecido como o Rei sem Coroa e morreu em 1988, vítima de um câncer. Suas filhas Dulce e Severina fizeram uma parceria com Lia de Itamaracá e regravaram um dos grandes sucessos do pai, a ciranda “Quem me deu foi Lia”.

Dona Duda

Nascida em Jaboatão dos Guararapes, segunda maior cidade de Pernambuco, Dona Duda já não canta desde 1976, quando, vítima de um câncer, precisou retirar a tireoide. Nas décadas de 1960 e 1970, porém, o movimento promovido pela criadora da ciranda na Praia do Janga era disputado. Inicialmente criada para divertir os filhos dos pescadores, a ciranda logo envolveu os moradores. Depois, os turistas.

Vó Mera

Cantora, compositora e mestre cirandeira natural de Alagoinhas, na Bahia, mas foi criada em João Pessoa, na Paraíba. Ao longo de décadas, a artista popular tem levado sua musicalidade e dança a diversos estados do Brasil, nos quais se apresenta com composições próprias, tanto no coco de roda quanto na ciranda.

Penha Cirandeira

Penha começou a brincar coco e ciranda com seu pai, José Francisco, e logo encantou a todos ao cantar e tocar magistralmente zabumba nas brincadeiras em que estava presente. A Mestre Penha teve uma vida muito dura, chegando a morar em um lixão e sobrevivendo como catadora de latinhas, cortadora de cana e vendedora de milho. Apesar disso, nunca deixou de amar o coco de roda e a ciranda, talvez seu único refúgio de uma realidade tão difícil.

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Seção de vídeo

Só é cirandar

Este vídeo celebra quem fez e faz a ciranda: Antonio Baracho da Silva, o Mestre Baracho, e as suas filhas, Dona Biu e Dulce Baracho, além da própria Lia de Itamaracá, são alguns dos nomes importantíssimos do gênero em questão.

Fora os artistas, Michelle de Assumpção, co-curadora da Ocupação Lia de Itamaracá, também esta presente no vídeo, comentando sobre as dificuldades por que passou Lia e a ciranda, bem como enfatiza a necessidade de políticas públicas que incentivem e protejam as tradições.

Depoimentos de arquivo e gravados em janeiro e fevereiro de 2022, tanto presencialmente quanto de forma remota.

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Shows de Lia de Itamaracá no Itaú Cultural – Programação paralela da Ocupação Lia de Itamaracá

Lia de Itamaracá em Ciranda de ritmos [com interpretação em Libras]

de quinta 21 a sábado 23 de abril de 2022 | 20h
domingo 24 de abril de 2022 19h
[duração aproximada: 90 minutos]
presencial – Sala Itaú Cultural

[livre para todos os públicos]

Reserve seu ingresso [a partir de 13 de abril, às 12h]

Lia de Itamaracá em Ciranda sem fim [com interpretação em Libras]

de quinta 28 a sábado 30 de abril de 2022 | 20h
domingo 1º de maio de 2022 19h
[duração aproximada: 90 minutos]
presencial – Sala Itaú Cultural

[livre para todos os públicos]

Reserve seu ingresso [a partir de 20 de abril, às 12h]

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Seção de vídeo

Canto com as águas (Parte 2)

“Estava na beira da praia / Vendo o balanço do mar”: como nesses versos, Lia canta o mar. Canta porque o vive e com ele se inspira e constrói a sua trajetória. Este vídeo é a segunda parte de uma ode à parceria de Lia com as águas (acesse a primeira parte na seção Da Pedra que Canta).

Gravação realizada em janeiro de 2022, de forma presencial.