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Querer Liberdade

A história de Lima Duarte pelo teatro passa, principalmente, pelo Arena. A estreia no grupo, do qual participavam Augusto Boal, Chico de Assis, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Roberto Freire, Benedito Ruy Barbosa e Flávio Migliaccio, entre outros nomes, foi em 1961 com o espetáculo O Testamento do Cangaceiro, que lhe rendeu o Prêmio Saci de Melhor Ator. Ao todo foram dez anos como integrante do Teatro de Arena, com peças encenadas no Brasil e no exterior.

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A experiência com direção na carreira de Lima Duarte

Lima Duarte dá um recado aos colegas de profissão e fala da importância de sua formação no teatro para a atuação como diretor, especialmente durante o período no Arena.

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Lima Conta Arena

por Isabel Teixeira

“O ‘Arena Conta’ não é essa casa, somos nós que contamos, é a nossa interpretação dos fatos. O Arena está onde eu estiver, dentro de mim. Falar do Arena é falar da minha vida porque minha vida se confunde com isso tudo. Tudo que eu faço, penso, tento, eu desenvolvi aqui nesse quadradinho, nesses camarins.”

Lima Duarte

(Arena Conta Arena 50 Anos – novembro de 2004)

O Arena que contou o Arena

No ano de 2004, junto à Cia. Livre de Teatro, coordenei o evento Arena Conta Arena 50 Anos. Na ocasião, entrevistei a maioria dos integrantes desse teatro que fez a história girar de 1953, data de sua fundação, até 1971, período em que o Arena teve de se adaptar radicalmente ao embrutecimento da ditadura militar, sendo obrigado a sofrer uma espécie de descaracterização para sobreviver. Foram vários integrantes que, em diferentes períodos, teceram juntos a história ímpar do Arena. Augusto Boal, na ocasião do evento em 2004, disse que os processos psíquicos da memória e da imaginação não são dissociáveis. Cada um contaria o seu Arena e todas as versões seriam as oficiais. De fato, foi o que aconteceu. Afinal, o Arena não foi só um dos movimentos teatrais mais importantes deste país; assim como não se resumiu apenas àquele espaço singular da Rua Teodoro Baima [no centro de São Paulo]: o palco circular do teatrinho com capacitação máxima para cerca de 90 espectadores, que mudaria os rumos do teatro brasileiro. O Arena foram e são as pessoas que contam e contaram essa história. O que tento reproduzir neste texto é uma dessas vozes, uma voz muito familiar, que já está impregnada na alma do povo brasileiro.

Na Arena

No dia 27 de outubro de 2004, Lima Duarte entrava no palco do Teatro de Arena da Rua Teodoro Baima para nos contar o seu Arena. E muitos sabem que ninguém melhor do que o próprio Lima para contar sua história. Mas e o Arena? Será que o grande público sabe que Lima foi integrante desse importante teatro por quase dez anos? Vamos à história.

Em 22 de fevereiro de 1958, a peça Eles Não Usam Black Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, havia estreado com o intuito de ser uma peça de despedida. O Arena não ia muito bem economicamente e José Renato dirigiu o que ele achava ser o último suspiro do teatro que ele havia inaugurado em 1953. Contrariando as expectativas, a peça revolucionou as bases do Arena e do teatro nacional. Inaugurava-se uma nova fase com o compromisso de explorar a dramaturgia e a interpretação tipicamente brasileiras. O  grupo, então, procurava se aprofundar na psicologia do povo sem caricaturas, enraizada no que havia de mais verdadeiro. O espectador passou a encarar uma imagem que pertencia ao seu cotidiano. A geração de artistas que ocupava o teatro nesse período provinha, em sua maioria, de grupos estudantis comprometidos com o viés político e social do teatro e da arte em geral. Augusto Boal cria o Seminário de Dramaturgia e entre 1958 e 1961 vários autores nacionais ganham a arena. Grande parte desse movimento deve-se ao seminário. Muitos que estavam começando viriam para ficar, como Oduvaldo Vianna Filho, Roberto Freire, Benedito Ruy Barbosa, Flávio Migliaccio, Augusto Boal e Chico de Assis. Este último foi o grande responsável por abrir os caminhos que trariam Lima Duarte ao centro da arena. Ator, diretor e dramaturgo, Chico tinha conhecido Lima nos bastidores da TV Tupi e já fazia parte do grupo do Arena desde sua estreia na peça A Mulher do Outro, em 1958.

Em 1961, Chico de Assis escreveu O Testamento do Cangaceiro, encerrando a primeira fase de autores nacionais no Arena, sob a direção de Augusto Boal. Na terceira página do programa original da peça, há uma fotografia onde um jovem ator de terno e gravata encara uma máscara teatral que parece ter a boca pronta para engoli-lo. Na legenda, pode-se ler: “participação especial de Lima Duarte”. Foi Chico de Assis quem insistiu com Lima para que atuasse, pois intuía que ele teria muito a contribuir com o Arena. Nas palavras de Lima: “Um dia, eu me lembro desse dia, um belo dia, com certeza belo, foram ao Sumaré [bairro da sede da antiga TV Tupi de São Paulo] falar comigo. Foram o Boal, o Guarnieri, o Chico de Assis, todo Arena foi ao Sumaré para me convencer a participar do Arena. […] a minha vida, francamente, se divide em antes e depois do Arena”. Foi realmente um acontecimento. Lima mergulhou num estilo de trabalho ainda desconhecido para ele, com laboratórios, trabalhos de mesa, pessoas e ideias novas e passou praticamente a morar no Teatro de Arena. Entre um ensaio e outro, entre uma sessão e outra, era no andar de cima do prédio de dois andares que passava o tempo estudando, jogando uma partidinha de futebol (o espaço era minúsculo), de truco, sete e meio… Chico de Assis certa vez declarou: “Houve um tempo em que o Ary Toledo, o Lima Duarte, o Paulo José e eu jogávamos truco enquanto não tínhamos nada para fazer. Sistematicamente começou a se formar uma plateia. Aparecia um, depois dois, três… Porque tanto o Ary quanto o Lima davam um show extraordinário de truco. De repente havia uma plateia enorme, o jogo de truco virou um espetáculo lá em cima”. Lima chegou e encantou. O que era para ser uma participação em 1961 acabou durando até 1971.

O Arena: de Mamanguape à Broadway

Quando Lima chegou ao elenco do Arena, em 1961, o grupo passava por um período de autocrítica rigorosa. Depois da estreia e de O Testamento do Cangaceiro, a linguagem foi reformulada, ampliando os canais de comunicação com o público popular, sem abandonar o relacionamento com os espectadores do centro da cidade. A ideia era encenar obras clássicas de reconhecido valor artístico mantendo ao mesmo tempo um compromisso claro na batalha entre opressores e oprimidos de todos os tempos. Essa passagem para um período de adaptação dos clássicos foi precedida pela encenação de Os Fuzis da Senhora Carrar, de Bertold Brecht, sob a direção de José Renato. A peça foi escrita por Brecht “para ser representada em cima de caminhão”, como disse Lima Duarte. Uma peça-panfleto. Lima fazia o papel de Pedro Jáqueras, o operário que em determinado momento diz: “Sempre ouvi dizer que os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”. O teatro pode ser uma arte efêmera, mas essa fala e essa cena, assim como a peça lindamente encenada por José Renato, sobrevivem na memória de quem viu. Ainda nesse período de “nacionalização dos clássicos”, em 1964, o Arena encenou Tartufo, de Molière, sob a direção de Augusto Boal. Lima Duarte fazia Orgon e Tartufo era a personagem de Gianfrancesco Guarnieri. Muitos que atuaram na peça e outros tantos que a viram dizem que naquela encenação foi feita a maior pausa da história do teatro mundial. Era um diálogo silencioso entre Guarnieri e Lima. Durava mais do que cinco minutos e eles não perdiam o público nem por um segundo.

Revolução na América Latina, peça de Augusto Boal, havia estreado em setembro de 1960, sob a direção de José Renato. Alguns anos depois da estreia, a peça excursionou e Lima Duarte substituiu Nelson Xavier; foram se apresentar para as ligas camponesas. Lima conta que a excursão pelo Nordeste foi das coisas mais lindas que ele viveu no Arena. Ele se lembra com brilho nos olhos de uma canção que soava como um sol para as grandes plateias:

Passo a vida trabalhando, dando duro no batente,
A comer de vez em quando, isso é vida, minha gente?
Se ser livre é passar fome,
Não quero ser livre não
Tó que eu sou livre!

Em Mataripe [região de São Francisco do Conde, Bahia] não existia teatro e Lima conta que alugaram dois caminhões. Baixaram as bandeiras, fizeram da boleia uma coxia e da carroceria um palco. Em outra ocasião, a trupe viajou de ônibus de Campina Grande até Natal durante 14 horas. Passaram por Mamanguape, na Paraíba, e estavam com uma fome desgraçada, sem nada para comer. Pararam numa pensão e a dona ofereceu frango. Todos perceberam que o frango tinha uma junta muito grande e a carne muito escura. Até que Milton Gonçalves anunciou: “Isso é gato. Rapazes, estamos comendo gato por frango, com certeza”.

Arena Conta Zumbi foi, sem dúvida, a peça mais emblemática de um tempo de luta e resistência. Estreou em 1º de maio de 1965 e foi sucesso de público e crítica. O que Arena conta é a história de Zumbi dos Palmares, mas não havia na montagem a preocupação em reconstituir os fatos acontecidos durante determinada época da história do Brasil. Privilegiavam-se as cenas imaginárias que poderiam ter uma semelhança com o presente e a temática se concentrava em torno do tema da resistência. Sábato Magaldi, importante crítico brasileiro, escreveu sob o impacto causado pela peça: “Impressionou-me a violência da montagem. Nada houve entre nós, até aquele momento, que significasse uma condenação tão radical da ditadura instaurada pelos militares. […] A ação se desenvolve por meio deflashes, em que surgem apenas as personagens necessárias ao progresso da história”.

Em 13 de dezembro de 1968, o Brasil sofria uma nova alteração em seu rumo político, radicalizando ainda mais a repressão da ditadura. O Ato Institucional Nº 5, entre outras coisas, atualizava as disposições governamentais em relação às formas de manifestação e expressão, impossibilitando qualquer vislumbre de liberdade. O Teatro de Arena foi levado a suspender as criações internas e tratou de excursionar pelo exterior. A convite da entidade norte-americana Theatre of Latin America, o elenco apresentou Arena Conta Zumbi, em agosto de 1969, no Saint Clement’s Theatre de Nova York. Essa turnê foi sucesso de público e crítica. Como escreveu Henry Raymont, no New York Times: “A company of fire passion, noble commitment and enormous skill” [“Uma companhia de flamante paixão, nobre compromisso e enorme habilidade profissional”].

Em março e abril de 1970, realizou-se nova excursão para os Estados Unidos, o México, o Peru e a Argentina. Uma peça ainda inédita no Brasil acrescentou-se ao repertório: Arena Conta Bolivar. A temporada do México, segundo Lima, foi “um imenso fracasso, ninguém tomou conhecimento, detestaram”. Tiveram que mambembar para pagar a excursão: Potosi, Morelia, Guanajuato… Tudo em companhia de um secretário chamado sr. Quesada. Lima Duarte fazia uma cena emblemática em Arena Conta Zumbi, na pele de Domingos Jorge Velho, um bandeirante facínora que, entre outras coisas, foi chamado para liquidar Palmares. Lima dizia o texto se coçando, coçando o saco como se fosse um animal, até chegar ao orgasmo. Era uma cena chocante que impressionava muito. O sr. Quesada dizia: “Sr. Lima, nosotros vamos trabajar en Puebla, és una ciudad mui reaccionária… Sin pelotas, por favor”. Em outras cidades, mais liberais, o sr. Quesada liberava as pelotas… O México marcou Lima Duarte para sempre como sinônimo tanto de “sin pelotas” como de “con pelotas”.

Nos anos de 1970 e 1971, a sede do Arena em São Paulo resistia a duras penas. O visível esvaziamento do público e o estreitamento da repressão política geraram uma crise econômica sem precedentes. Augusto Boal havia sido preso no dia 2 de fevereiro de 1971 e permaneceu um mês no Dops, em cela solitária, além de passar quase dois meses no presídio Tiradentes. Sua trajetória a partir daí o levou ao exílio, onde permaneceu até sua volta, alguns anos depois da anistia, em 1986. Depois de 1971, com a infraestrutura abalada economicamente, o Arena se dissolve como grupo de teatro e passa a funcionar como uma casa de espetáculos que acolhe produções independentes para sobreviver. No dia 3 de junho de 1977, a sala da Rua Teodoro Baima, reformada, transformou-se no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, e está lá até hoje.

Mas qual foi realmente o fim do Arena? Na minha opinião, o teatro teve muitos fins. A cada partida de um de seus integrantes, era um Arena que acabava. Em 1971, Arena Conta Zumbi saiu em turnê pela França e foi apresentado em Nancy, Toulouse e, por fim, Marseille. Foi ali que Lima Duarte se despediu. Passo a palavra para esse ator-poeta que já faz parte do nosso imaginário coletivo como se fosse amigo próximo. É Lima quem conta: “O momento mais melancólico da minha vida, que eu me lembre, foi o espetáculo em Marseille. Foi o último espetáculo do Arena. Marseille é onde acabam as coisas que sabem acabar. Ali foi o fim do Arena. Acabou na minha frente. Terminamos Zumbi e saímos. Na porta do teatro sempre acontece aquele lance: ‘Pra onde você vai?’. ‘Eu vou para Toulouse’, disse o Antonio Pedro. A Bibi Vogel disse: ‘Vou voltar para São Paulo para a novela do Geraldo Vietri e você?’. ‘Eu vou também’. Todo mundo foi embora. Eu fiquei olhando, e o Arena sumiu, oculto pelas brumas mediterrâneas de Marseille. Foi acabando, acabando e nunca mais foi aquele Arena. Mas continua muito vivo dentro de cada um de nós, norteando a nossa vida”.

 

Isabel Teixeira é diretora, dramaturga, pesquisadora e atriz formada pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo. Fundou a Cia. Livre de Teatro, na qual também realizou trabalhos como atriz. Na mesma companhia, em 2005, coordenou o projeto Arena Conta Arena 50 Anos, vencedor dos prêmios Shell e APCA. Em 2009 ganhou o Prêmio Shell de Melhor Atriz, além de outras indicações.

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Teatro de Arena

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Agliberto Lima / Estadão Conteúdo

Os atores Lima Duarte e Gianfrancesco Guarnieri são vistos interpretando durante gravação de cenas da novela Belíssima, no Teatro Oficina, em São Paulo, no ano de 2005. Foto: Agliberto Lima / Estadão Conteúdo.

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“O Arena conta a história
pra você ouvir gostoso,
quem gostar nos dê a mão
e quem não, tem outro gozo.

História de gente negra
da luta pela razão,
que se parece ao presente
pela verdade em questão,
pois se trata de uma luta
muito linda na verdade:
é luta que vence os tempos,
luta pela liberdade!”

Introdução da peça Arena Conta Zumbi (1965), escrita por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.

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Arena Conta Zumbi

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“Pros que ficam, eu quero lembrar uma das falas de Pedro Jaqueiras, em Os Fuzis da Senhora Carrar: ‘Os que lavam as mãos os fazem numa bacia de sangue’”.

Trecho do depoimento de Lima Duarte após a morte do colega Flávio Migliaccio, em maio de 2020.

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Lima Duarte em Sargento Getúlio

O diretor Hermano Penna fala sobre a concepção da adaptação do livro Sargento Getúlio (1971), de João Ubaldo Ribeiro, para o cinema. Ele aborda ainda a escolha de Lima Duarte para o papel principal, sua relação com o ator e conta histórias que ocorreram durante a gravação do filme, finalizado em 1983, e ganhador de vários prêmios, incluindo o de Melhor Filme no Festival de Gramado naquele ano.

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“Minha interpretação no filme foi visceralmente apaixonada. Amei com quase desespero! Foi muito feliz ter construído um homem”

Lima Duarte sobre Sargento Getúlio

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O Sargento Getúlio

Trecho do filme Sargento Getúlio (1983), dirigido por Hermano Penna e protagonizado por Lima Duarte.

No cinema, são mais de 30 filmes entre curtas e longas-metragens. O mais icônico deles é Sargento Getúlio (1983), dirigido por Hermano Penna. O roteiro, baseado no livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro, é de Penna, Flávio Porto e do próprio Ubaldo. Por sua atuação em Sargento Getúlio, Lima recebeu o Kikito, Prêmio de Melhor Ator no Festival de Gramado.

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Lima Duarte no Cinema: entre Palavra e Utopia

por Amilton Pinheiro

Em 2006, precisamente em 18 de setembro, data da inauguração da televisão brasileira que foi ao ar nesse dia em 1950, Lima Duarte foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura. O convite tinha sido feito por dois motivos principais: Lima era um dos maiores atores da televisão brasileira – com inúmeras participações em novelas, séries, minisséries e casos especiais –, apresentador de programas e diretor, e um dos poucos artistas vivos presentes naquele longevo 18 de setembro de 1950, quando o magnata das comunicações Assis Chateaubriand, autoridades e parte do elenco da Rádio Tupi Difusora de São Paulo inauguraram o “veículo dos sonhos” no país.

Fui um dos entrevistadores da bancada por ter feito a ponte entre Lima Duarte e a organização do programa e conhecer um pouco da carreira do artista, principalmente no cinema. O primeiro contato que tive com Lima se deu em 2001, quando o convidei para participar de um projeto de longa-metragem sobre o Cemitério da Consolação em São Paulo, que infelizmente nunca saiu do papel. Não perdi mais o contato com ele. Em 2002, fiz a curadoria de uma pequena mostra com cinco filmes que Lima Duarte havia participado até então, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), intitulada Lima Duarte, um Ator-Autor. Os filmes que passamos foram escolhidos pelo próprio Lima: Sargento Getúlio, de Hermano Penna, A Ostra e o Vento, de Walter Lima Júnior, Corpo em Delito, de Nuno César Abreu, e dois longas que ele fez em Portugal: Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira, e O Rio do Ouro, de Paulo Rocha.

Apesar de estarmos comemorando o nascimento da televisão brasileira naquele Roda Viva, não pensei em outra pergunta que não fosse a que fiz na ocasião:

“Lima, a gente está comemorando o aniversário da TV, e você, um ator que nunca saiu do veículo, fez muito cinema, por volta de 30 filmes [na verdade eram 29 até setembro de 2006]. Mas você sempre teve uma bronca em relação ao cinema. Você não se achava um ator de cinema. Tanto é que você só passou a se achar depois de Sargento Getúlio [filme de Hermano Penna, lançado em 1983, baseado no livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro]. Só que você já havia feito alguns filmes interessantes, como Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1975 [baseado no livro de contos homônimo de Dalton Trevisan], um filme em Portugal, Kilas, o Mau da Fita [de 1980, do diretor José Fonseca e Costa], além de A Queda, de Ruy Guerra, em 1978. Por que você não se considerava um ator de cinema?”.

Ele, então, me respondeu: “Porque é outra sensibilidade, não é? Acho que você pode ser um bom ator, mas no teatro é uma sensibilidade, a televisão é outra que está se desenvolvendo agora. E cinema é outra sensibilidade. E minha sensibilidade bate bem com a televisão. Eu sei porque me considero da televisão. Pretendo ser fiel a essa gente, pretendo ser fiel a esses eventos tais que eu vivi e assim, sendo eu, falo para o povo mesmo. Eu falo com o pé na roça que cada um de nós tem cavado aí. Quando eu apareço, o povo já vem dizendo assim: ‘Ê, lá vem esse cara. Ele vai inventar alguma coisa’, entendeu? Porque eu invento mesmo. Eu sou um contador de causos. Eu conto os causos através dos personagens [faz uma imitação de um tipo popular]. Aí falam: ‘Ih, ele vai me enganar’. Eles olham para mim e riem. E no cinema não pode fazer isso, porque agora eu estou descobrindo que cada tecnologia nova que surge provoca uma alteração no drama, no âmago do drama e na interpretação também”.

Como já tinha assistido a quase todos os 29 filmes em que ele trabalhou como ator, achei aquela resposta de Lima Duarte muito injusta com ele mesmo, e não correspondia com o trabalho extraordinário que ele havia realizado para o cinema, não somente os longas que citei na minha pergunta no Roda Viva, ou seja, Guerra Conjugal, A Queda e Kilas, o Mau da Fita, mas outros filmes, como Corpo em Delito, de Nuno César Abreu, Palavra e Utopia, do diretor português Manoel de Oliveira, O Jogo da Vida, de Maurice Capovilla, Os Sete Gatinhos, de Neville d’Almeida,  Depois Daquele Baile, de Roberto Bomtempo, e os filmes sobre futebol de Ugo Giorgetti, Boleiros – Era Uma Vez o Futebel… e Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos, sem citar os mais populares – O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, e 2 Filhos de Francisco – a História de Zezé Di Camargo & Luciano, de Breno Silveira.

Desde que comecei a organizar eventos sobre a carreira de Lima Duarte, principalmente no cinema, gosto de citar esta frase: “Para um ator que nunca saiu da televisão brasileira desde sua inauguração, e que viveu personagens memoráveis, Lima Duarte construiu uma carreira extraordinária no cinema”.

O primeiro filme que o ator fez, é interessante observar, foi antes mesmo da inauguração da televisão brasileira. E, portanto, antes mesmo dos seus personagens que entrariam para a galeria memorialística da teledramaturgia brasileira, como Zeca Diabo, de O Bem-Amado (1973), Salviano Lisboa, de Pecado Capital (1975), Carijó, de Espelho Mágico (1977), Oscar, de Marrom-Glacê (1979-1980), Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro (1985-1986), Sassá Mutema, de O Salvador da Pátria (1989), Dom Lázaro Venturini, de Meu Bem, Meu Mal (1990-1991), Murilo Pontes, de Pedra sobre Pedra (1992), Afonso Lambertini, de Da Cor do Pecado (2004), Shankar, de Caminhos das Índias (2009), Max Martinez, de Araguaia (2010-2011), Dom Peppino, de I Love Paraisópolis (2015), e Josafá Paraíso, de O Outro Lado do Paraíso (2017-2018).

Sem contar as pequenas participações em minisséries – O Tempo e o Vento (1985), Tendas dos Milagres (1986) e Agosto (1993), além do caso especial O Crime do Zé Bigorna (1974) – e a direção de novelas – O Direito de Amar (1964-1965), que fez ao lado de José Parisi e Henrique Martins, e Beto Rockfeller (1968-1969), que fez com Walter Avancini –, além da apresentação do programa O Som Brasil (1984-1989) e a série O Bem-Amado (1980-1984).

Nenhum outro ator ou atriz no Brasil tem uma carreira tão expressiva em quantidade e qualidade tanto na televisão – inclusive em várias funções: ator, diretor, autor de texto, apresentador e dublador – quanto no cinema. Ao longo dos mais de 70 anos de carreira e 90 anos de vida, Lima fez 43 filmes, entre longas, curtas e filmes-episódios. Lima participou com outros radioatores do longa Quase no Céu, de Oduvaldo Vianna, primeira oportunidade que teve como ator de cinema, vindo das radionovelas da TV Tupi Difusora.

Lima começou na rádio Tupi Difusora de São Paulo ligando as grandes válvulas que existiam na época para levar ao ar os programas matutinos de música caipira. Depois foi sonoplasta e radioator, oportunidade dada por Oduvaldo Vianna. No filme, lançado em 1949, tinha uma única frase, numa festa junina ao lado da atriz Norah Fontes no papel de um capiau, um caipira, roceiro. Com essa participação tímida e de uma frase só, ele iria construir personagens magistrais no cinema ao longo das décadas seguintes.

Mas na sua primeira fase no cinema as participações eram em projetos de diretores de rádio, que depois foram trabalhar na televisão, e que queriam experimentar atividades no cinema também. Dessa primeira fase na carreira de Lima no cinema ele fez O Sobrado (1956), de Walter George Dürst e Cassiano Gabus Mendes, baseado na trilogia de Érico Veríssimo; O Tempo e o Vento, Paixão de Gaúcho (1957), de Walter George Dürst, baseado no romance O Gaúcho, de José de Alencar; e Chão Bruto (1958), de Dionísio Azevedo, baseado no romance homônimo de Hernâni Donato. Filmes que tentavam copiar o padrão da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que por sua vez tentava imitar o estilo clássico das produções de Hollywood da época.

Lima Duarte estava ainda tateando seus primeiros passos como ator. Experiência iniciada como radioator, estendida como ator de novelas da TV Tupi Difusora de São Paulo, durante os anos 1950, inclusive com as inúmeras peças que participava na TV de Vanguarda, projeto ambicioso da TV Tupi Difusora de São Paulo que levava ao vivo, para sua programação, peças clássicas de autores estrangeiros e alguns de autoria de brasileiros. Mas a maneira peculiar de compor personagens genuinamente brasileiros, personagens comuns, Lima aprenderia, como mesmo ele gosta de falar, nos anos que trabalhou no Teatro de Arena ao lado de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Chico de Assis, entre 1961 e 1971.

Em 1968, Lima participaria do seu primeiro filme com um diretor já com uma sólida e destacada carreira no cinema, Luís Sérgio Person, que tinha na bagagem dois excelentes longas: Sociedade Anônima (1965) e O Caso dos Irmãos Nave (1967). Seria um dos episódios da Trilogia do Terror, no caso, Procissão dos Mortos. Mas ainda não seria um trabalho que iria cooptar o ator para a sétima arte e tampouco o destacava na crítica especializada como um ator de cinema, o que só iria acontecer em Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1975, outro diretor respeitado pelos seus projetos ousados e elaborados.

Em Guerra Conjugal, baseado no livro de contos homônimo de Dalton Trevisan, Lima Duarte teria seu primeiro trabalho como ator principal, fazendo o papel de um advogado mulherengo incorrigível, Osíris, inaugurando o que chamo de segunda fase do ator no cinema, com trabalhos de protagonistas em filmes de diretores expressivos e respeitados, prêmios e reconhecimento da crítica. Da segunda fase podemos destacar O Jogo da Vida, de Maurice Capovilla (1977), baseado no livro de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio, em que interpreta o alquebrado Malagueta, jogador de sinuca e boêmio.

O diretor, Maurice Capovilla, e o próprio autor do livro, João Antônio, ficariam bastante impressionados com a composição que Lima Duarte deu ao personagem, com o entendimento que tinha de Malagueta, que para Lima representava a terceira fase da vida de um mesmo personagem – Malagueta, Perus e Bacanaço.

A Queda (1978), de Ruy Guerra e Nelson Xavier, era a continuação de um já clássico do cinema brasileiro, Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra. Ambos os filmes ganharam o Urso de Prata de direção no prestigiado Festival de Berlim, na Alemanha. Lima conseguiu empreender uma força vocabular excepcional ao personagem Salatiel, mestre de obras que vive em conflito com a filha (Isabel Ribeiro) e tenta trazer como aliado o cunhado (Nelson Xavier), que trabalha na construção do metrô do Rio de Janeiro, mas muito menos ambicioso que Salatiel. Ruy Guerra só tinha as marcações das cenas e as situações que os atores iriam passar. Os diálogos eram quase todos construídos pelos atores, que traziam suas bagagens e compreensões dos personagens.

Dentro do universo do dramaturgo Nelson Rodrigues, Lima iria trabalhar na adaptação da peça Os Sete Gatinhos, realizada pelo diretor Neville d’Almeida em 1980, no papel de um contínuo, Seu Noronha, casado e pai de sete filhas. Grande admirador de Nelson Rodrigues, Lima diria que seria um de seus trabalhos mais difíceis de realizar por causa da participação do dramaturgo nos sets de filmagens – que ficava observando com seu olhar arguto a maneira como os atores interpretavam os personagens criados por ele. Lima achava um tormento nas filmagens dar voz e gestos ao Seu Noronha diante do criador da personagem, o grande Nelson Rodrigues.

Lima tinha um entendimento do personagem diferente do diretor, mas não seria a primeira vez nem a última que ele discordaria da visão de um diretor em um filme que trabalhou, seria recorrente esse descompasso entre o ator e o diretor em relação ao personagem e ao resultado final do filme. Já havia acontecido em O Crime do Zé Bigorna, de Anselmo Duarte (1977), e em O Jogo da Vida, de Maurice Capovilla. E aconteceria com outros personagens. Essa insatisfação, que o ator sentia no resultado final do que iria ver depois do filme pronto, seria um dos motivos pelos quais ele não se achava um ator de cinema. Foram inúmeras discordâncias com os diretores, ainda mais se o personagem fosse oriundo de uma adaptação literária.

Lima Duarte forjou no cinema personagens contraditórios, atormentados, poderosos, pobres e trabalhadores, todos genuinamente brasileiros que vieram, assim como ele, dos rincões deste Brasil com suas inúmeras injustiças sociais. O ator tentou traduzir através desses personagens a riqueza do seu povo e as facetas contraditórias de um país que vive até hoje o dilema de excluir grande parte da população das benesses de suas riquezas, legando-as a uma pequena minoria.


Amilton Pinheiro
, jornalista e economista, é cocurador da Ocupação Lima Duarte. Colabora no Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, e no site Esquina da Cultura. É curador do Fest Aruanda, festival de cinema que acontece em João Pessoa (PB) e membro da Associação Paulista de Críticos e Arte (APCA) em literatura e da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Autor de textos para livros sobre filmes brasileiros editados pela Abraccine, de um roteiro sobre o memorialista Pedro Nava, não filmado, Um Tiro na Memória, e de um livro de contos não publicados Lugares Sepulcros. Foi terceiro assistente do curta A Volta pra Casa, de Diegos Freitas, protagonizado por Lima Duarte.

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Prêmio do Festival de Gramado de Melhor Ator pela atuação em Sargento Getúlio, 1983.

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Prêmio Roquette-Pinto de Sonoplasta, 1952.

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Prêmio Saci de Melhor Ator, 1961.

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Figurino do personagem Sassá Mutema na novela Salvador da Pátria, da Rede Globo, 1989.