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Voz Dona Jacira | Roteiro Maria Shu

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Seção de vídeo

A personalidade de Chiquinha Gonzaga

Edinha Diniz, pesquisadora, escritora e socióloga, comenta aspectos da personalidade de Chiquinha Gonzaga, compositora e maestrina em uma época em que a mulher não tinha profissão. Ela fala sobre a coragem, o talento e a capacidade de trabalho da instrumentista, em um contexto em que a transgressão era penalizada com o silêncio.

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As inúmeras festas religiosas, nas quais se usavam muitos fogos de artifício – importados em grandes quantidades da China –, tornavam o Rio de Janeiro uma cidade sempre muito barulhenta, ainda na primeira metade do século. ‘Bandas de música, cantores, fortes e prolongados repiques de sinos, estridentes gritos e uivos dos negros, estrondos e silvos dominavam dia e noite a mais importante barulhópolis do Mundo, em comemoração do santo ou da santa do calendário.’

[...]

No entanto, a paixão mesmo do habitante dessa cidade, presente de uma forma ou de outra em todas as camadas da sociedade, é a dança e a música.

Nessa época em que ainda se forjava uma cultura propriamente nacional, o povo carioca já revela de forma marcante e inconfundível um traço do seu caráter: a tendência ao lúdico. E, de todas as modalidades de divertimento existentes, a música assume maior importância por seu alcance e extensão. Estava presente no cotidiano da população através de rabecas e pianos, assobios e palmas ritmadas, flautas e atabaques, espetáculos líricos e bandas militares, festas das igrejas e coretos das praças públicas. Valsa nos salões das gentes senhoriais, polca nas salas familiares, lundu nas rodas de dança da gente escrava; a música tudo preenchia, tudo invadia, a todos satisfazia."

Trecho retirado do livro Chiquinha Gonzaga: Uma história de vida, de Edinha Diniz

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Com a intensificação da vida urbana na segunda metade do século XIX, pululam associações recreativas e cafés-cantantes no Rio de Janeiro. O abolicionismo e o republicanismo fundam clubes políticos e o teatro se populariza. Isso aumenta as oportunidades de trabalho para os profissionais da música, que, além de tocar nas festas domésticas, passam a musicar peças e entreter os boêmios. No entanto, essas atividades não eram suficientes para a sobrevivência de muitos músicos, que precisavam conjugar a carreira com outras profissões.

Recorte da seção de classificados de jornal na qual Chiquinha Gonzaga anuncia-se publicamente como professora de várias matérias, s/d
crédito: Acervo Instituto Moreira Salles/Chiquinha Gonzaga

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Carlos Linde, Praça do Comércio, 1860 litografia
Coleção Brasiliana Itaú

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O Rio de Chiquinha: contrastes e desigualdades na cidade que se vendia como vitrine da modernidade:

por Alexandra Lima da Silva*

O passeio pela literatura e pelos jornais em circulação na cidade do Rio de Janeiro nas décadas finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX evidencia uma cidade repleta de contrastes e desigualdades. Nos anúncios publicados no jornal Gazeta de Notícias de 1880, por exemplo, chama a atenção a oferta de certa Francisca Gonzaga (Chiquinha Gonzaga) – que “leciona em casas particulares e colégios piano, canto, francês, geografia, historia e português” – convivendo lado a lado com anúncios de recompensa pela captura de escravos fugidos, como foi o caso de Manuel, “escravo, preto, pernambucano, 32 anos presumíveis, altura regular, rostos comprido, fala a modo do norte, barba cerrada, sempre feita, usando bigode e pera, é perito pedreiro, intitula-se livre e diz chamar-se Manuel Barbosa” (Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, 11 de janeiro de 1880, p. 6). Liberdade e escravidão caminhavam na mesma página da Gazeta de Notícias nos anos que antecederam a Abolição.

Anúncios de escolas abolicionistas estampavam as páginas dos jornais, pois era preciso lutar pelo fim da escravidão e instruir a população liberta do cativeiro e também as ditas classes proletárias. Um trabalhador qualificado era demanda desse novo tempo, que sinalizava para a necessidade de combater os preconceitos em razão da condição social e racial dos sujeitos, em uma sociedade marcada fortemente pelas diferenças étnicas em sua composição (SILVA & MIGNOT, 2017). O Rio de Chiquinha era mesmo uma cidade de contrastes.

O discurso de modernidade também estava a pleno vapor. Era preciso vender a cidade do Rio como vitrine do progresso. A necessidade de investir na formação “das almas” e de educar o cidadão para a modernidade impulsionou discursos e reformas, e o movimento de abertura de escolas, para “pessoas de todas as nacionalidades e condições”.

O Rio de Janeiro da passagem do Império para a República era um lugar de muitos contrastes e desigualdades. Segundo o censo de 1872, apenas 15,7% da população do Brasil era alfabetizada. Contudo, a capital do Império e das décadas iniciais da República apresentava as taxas mais altas de alfabetização, mesmo com mais da metade da população analfabeta. Em 1890, havia cerca de meio milhão de pessoas na cidade, o dobro em relação a 1870. Desse meio milhão, 57% dos homens e 43% das mulheres foram registrados como alfabetizados, o que representava em termos numéricos cerca de 270 mil pessoas capazes de ler e escrever. Em 1924, num universo de 1.157.141 habitantes, 61,1% deles eram alfabetizados, superando o número de “iletrados” na cidade (Damazio, 1996, p. 125). Essas taxas eram as mais baixas do país e mostram o crescimento contínuo da população alfabetizada no Rio de Janeiro que, em princípio, já dominava as primeiras letras ou, pelo menos, podia ler e ter acesso a textos impressos.

Nesse processo, é preciso reconhecer o protagonismo da população negra, que por meio de enfrentamentos, também demandava direitos básicos como saúde, trabalho, educação e moradia. Muitas foram as lutas e táticas para sobreviver numa cidade desigual e excludente, mas que se apresentava como moderna e maravilhosa.

É possível afirmar que tanto as escolas quanto os muitos periódicos existentes tinham a missão de educar os diferentes sujeitos. Além disso, práticas educativas diversas coexistiam, com destaque para as peças teatrais e para os espetáculos musicais, amplamente divulgados pela imprensa periódica e com forte presença de nomes como o de Chiquinha Gonzaga. A liberdade se construía efetivamente, com a emancipação plena dos sujeitos, o que incluía projetos de educação, em sentido amplo.

Nas primeiras décadas do século XX, o Rio de Janeiro estava em um interessante movimento de efervescência cultural, política, social e econômica. A cidade era também um barril de pólvoras. Tendo as ideias eugênicas e higienistas como pilares e fundamento das políticas sociais do período, o Rio foi o palco de reformas urbanas que promoveram a expulsão de negros e pobres para as margens. O aumento no crescimento das favelas nasce dessas tensões. Nas lentes de Olavo Bilac, a capital era “uma aglomeração de várias cidades” em que:

“a mais original é a que se alastra pelos morros da zona ocidental, e onde vive a nossa gente mais pobre, denso formigueiro humano, onde habitualmente se recruta o pessoal barulhento das bernardas, de motins contra a vacinação obrigatória, contra o aumento do preço das passagens dos bondes, contra a fixação do preço máximo das carroças” (Bilac, 1907).

A vitrine nacional foi polida à custa da retirada de cena da população considerada indesejada. Homens e mulheres negros e pobres não foram convidados para as festas da modernidade e do progresso. Foram colocados às margens da “cidade maravilhosa”.
Alexandra Lima da Silva é historiadora e professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

 

Referências

BILAC, Olavo. Fora da Vida. Correio Paulistano, 25 de setembro de 1907.

CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
DAMAZIO, Sylvia. Retrato social do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Ed. Uerj, 1996.
Gazeta de Notícias, 11 de janeiro de 1880.

SEVCENKO, Nicolau. A revolta da vacina – mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Brasiliense, 1984.
SILVA, Alexandra Lima da; MIGNOT, Ana C. V. Pelos caminhos da liberdade: sujeitos, espaços e práticas educativas (1880-1888). In: Venancio, G. M.; Secreto, M. V.; Ribeiro, G. S. Cartografias da cidade (in) visível. Setores populares, cultura escrita, educação e leitura no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Mauad X, 2017.

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